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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

02.10.25

Depois dos demorados preliminares, o climax


a. almeida

E pronto! Com tão demorados preliminares, era de esperar o climax. De resto foi tudo meticulosamente planeado e realizado para esse fim. Nunca uma viagem pelo Mediterrâneo demorou tanto, nem no tempo dos fenícios, cartagineses ou romanos, mas era imperioso que o ponto de rebuçado fosse atingido, sob pena de acontecer uma ejaculação precoce.

A pseudo-flotilha humanitária, mais do tipo turístico-partidária-ideológica-activista, lá conseguiu o que realmente queria, o mediatismo, o barramento e a detenção pelas forças militares israelitas. Se em águas internacionais ou exclusivas, é irrelevante porque detidos seriam sempre. Apetece-me até dizer que alguns e algumas dos detidos até desejarão umas valentes bastonadas, porque, se a coisa fizer umas nódoas negras, serão troféus a provar a brutalidade daqueles judeus.

O resto, como propaganda, sempre foi acessório, folclórico até. Alguns e algumas vão pendurar essa medalha na sala de troféus e daqui a uns anos falarão disso, no papel de heróis e lutadores de causas, mesmo que sempre perdidas, aos filhos e netos, aqueles que, claro, conseguirem procriar. 

A mim e a muitos, sempre me pareceu um activismo de treta, um entretenimento para quem faz destas teatralidades a sua vida e ganha-pão. Quanto menos adeptos conseguem arregimentar em votos, mais folclore, mais extremismo. Por exemplo, a Mortágua, de um partido de uma mulher só e sozinha, achou bem mais útil trocar S.Bento por uma traineira, não para pescar sardinhas ou carapaus, mas captar o tempo de antena e microfones. Aquele seu ar de vítima de todos os males, adapta-se ao enredo.

A realidade, goste-se ou não, concorde-se ou não, é bem diferente e faz-se por outras vias. Nunca foi nem será com este tipo de expedientes, por mais que rendam cobertura mediática, que se resolvem os problemas do mundo, quando o que está em causa é o poder, incluindo o das armas. Ademais, o activismo para ter algum efeito, tem de ser genuíno, descomprometido de agendas ideológicas e mediáticas. Não perceber isso é não perceber de coisa alguma.

Da imprensa: "Se estás a ver este vídeo, é porque eu fui ilegalmente capturado pelas forças israelitas e levado para Israel contra a minha vontade", disse o "activista" português depois da detenção.

Tudo conforme previsto. Até diria que esta mensagem terá sido gravada de véspera, ou mesmo antes do embarque no cruzeiro, porque já todos sabiam, de há muito, o desfecho.  

Ridículo!

17.06.25

O culto do "parecer mais que ser" nas redes sociais


a. almeida

Vivemos tempos em que a política local — outrora discreta e centrada na gestão do território e das pessoas — se transformou, nas mãos de muitos autarcas, numa permanente operação de marketing pessoal. E as redes sociais, com o seu efeito imediato, rápido e visual, tornaram-se o palco preferencial para esse novo protagonismo, tantas vezes excessivo, redundante e até, tantas vezes, com laivos de ridículo.

Basta percorrer as páginas de muitos presidentes de câmara, vereadores ou até simples membros de juntas de freguesia para perceber o padrão: são fotografias em tudo o que mexe, inaugurações de obras e de não-obras, visitas a escolas, lares, associações, feiras, feirinhas, mercados, casamentos, aniversários de idosos, provas desportivas, reuniões protocolares, festivais, almoços, jantares, missas, procissões, concertos, feiras medievais, entrega de diplomas, de lembranças, de tudo e mais alguma coisa. Qualquer evento, por mais pequeno e irrelevante para o que realmente interessa, o bem comum, é ocasião para aparecer na fotografia, preferencialmente ao centro, com o sorriso pronto e o discurso, se preciso, ensaiado.

É o triunfo do "estar lá" — mesmo que a presença pouco ou nada acrescente ao evento ou aos seus destinatários. Mais do que governar, importa aparecer. Mais do que decidir, importa sinalizar que se está atento. É o domínio do parecer antes do ser.

Esta ânsia constante de protagonismo mediático revela uma faceta, senão perigosa, pelo menos perniciosa, da política local: a substituição da substância pela imagem. O autarca não é já apenas o gestor da causa pública, mas o protagonista permanente de um reality show autárquico, onde o número de likes, partilhas e comentários substitui a análise crítica da obra realizada.

As redes sociais, sendo legítimas e importantes ferramentas de comunicação institucional, transformaram-se assim, para muitos, em autênticos diários de exibição pessoal. Poucos são aqueles que resistem à tentação do auto-elogio permanente, da apropriação, tantas vezes de sucessos alheios e do silenciamento conveniente dos fracassos e problemas que realmente exigiriam resposta.

Num mundo cada vez mais superficial, onde a imagem vale mais do que a consistência, a política local não escapou à epidemia do marketing de si próprio. O problema não está em comunicar o que se faz — o problema está em transformar a comunicação num fim em si mesmo, desvirtuando o verdadeiro sentido do serviço público e da valorização da cidadania desinteressada.

Governar não é tirar fotografias. Servir não é acumular presenças protocolares. Liderar não é coleccionar likes.

É tempo de regressar ao essencial: fazer primeiro, mostrar depois — e só quando houver, de facto, algo de relevante para mostrar. E se merecido for o nosso trabalho, ou deles, alguém o há-de valorizar e reconhecer, mesmo que sem aparatos ou lambe-botismo.