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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

21.07.25

Em casamentos e baptizados, pagam os convidados


a. almeida

Creio que já publiquei por aqui algo mordaz sobre o folclore à volta dos modernos casamentos, mais precisamente no que diz respeito à festa, mas, porque voltei a ser atingido, volto ao tema.
 
São cada vez mais raros os casamentos, nomeadamente pela Igreja. A minha aldeia, de pouco mais que um milhar e meio de criaturas, não foge à regra.
Pelos bons e velhos costumes e critérios de alguma coerência, ou mesmo decência, uma boa parte deles já nem se fariam, mas os tempos são de modernidade e importa muita tolerência e inclusividade.
 
Pessoalmente considero que, mesmo os de família, para além dos momentos mais significativos, como o da cermónia religiosa, que valorizo e ainda me emociona, no geral, é um folclore e um exercício de paciência, sobretudo para os os que, como eu, são do tempo em que a boda começava logo a seguir à cerimónia, e no restaurante, em mesas corridas, começava-se e acabava-se de comer, de seguida e sem levantar. Os aperitivos estavam defronte dos lugares, vinha um prato de peixe (salada russa ou bacalhau à Zé do Pipo), depois, sem corta-sabores, um prato de carne (cozido à portuguesa ou assado misto, com vitela ou lombo ou vitela e cabrito). Depois a fruta e alguns doces, incluindo o bolo da noiva. Pelas 17 ou 18 horas ja se estava em casa com os pés de molho.
De jogos e brincadeiras, quando muito, o leilão da gravata do noivo ou o bater dos talheres nas bordas dos pratos para o beijo do casal e padrinhos, mas já era um abuso em que nem todos alinhavam.
Música e bailaricos, eventualmente nos salões dos casamentos de senhores doutores e engenheiros, porque, no geral, não havia espaço na sala.
 
Hoje em dia a coisa pia fino, tanto para ricos como para pobres ou remediados, porque pagam os convidados: Um almoço acaba em jantar e o jantar em ceia. O dia começa de manhã cedo e acaba na madrugada alta do seguinte. Nos dias próximos, como efeitos da ressaca, ainda ecoarão aquelas músicas de partir telha.
 
Os convidados, e até mesmo o jovem casal, andam a toque de caixa da larga equipa de fotógrafos, dos animadores e mestres de cerimónias. Agora assim, agora assado, agora venham para aqui, depois para ali e mais tarde para acolá. Há brincadeiras idiotas e passatempos palermas onde alinham solteiros e solteiras e alguns mal casados.
 
As madames, das mais novas às maduras, vestem-se (ou despem-se) e tudo é glamoroso, chique.
 
Para os recém casados, gente nossa, muita saúde, harmonia, bem estar e muitos filhos, pois a freguesia e o país precisam. Além do mais, são gente boa, humilde, sem peneiras!

Que este dia,  significativo para o casal, mas uma seca de todo o tamanho no que diz respeito à parte festiva, pelo menos para mim, que dispensava de bom grado, seja para eles inesquecível e que a felicidade os acompanhe, e mesmo nos momentos menos bons, que os há inevitavelmente, que tenham em conta o compromisso agora assumido. 
 
Mesmo sabendo que todos estes filmes muitas vezes descambam em divórcios precoces, mesmo que sem qualquer pingo de vergonha pelos papéis desempenhados perante a Igreja, o padre e uma ou duas centenas de convidados, familiares e amigos, transmito parabéns e fica-se à espera das Bodas de Prata.

Se houver próximos casórios, oxalá que sim, sou capaz, a não ser por força maior, de me ficar apenas pela cerimónia na igreja ou na capela, se a houver. O resto, dispensa-se, mesmo que não o carinho e desejos de felicidade para quem casa de forma séria e responsável e não apenas porque é coisa bonita para a fotografia e vídeo.

Mas, relevem, porque, na certa, é apenas um problema meu. Efeitos da idade e avesso a entrar em rebanhos e a andar a toque de caixa.

24.09.24

O ananás de cu para cima


a. almeida

Esforço-me por não ser de cenas fora do palco, evito embarcar em modas e modinhas, juntar-me a rebanhos só porque quase todos seguem cegos de entusiamo  o carneiro-mor.

O peso da idade, para além de várias coisas inconvenientes, deve servir para medir a largura e altura da porta para que por ela passemos em segurança, sem romper os cotovelos nas ombreiras nem dar umas cabeçadas na padieira. Bom senso e caldos de galinha nunca fizeram mal a alguém. No resto, não sou perfeito pelo que não me recomendo como modelo de virtudes.

Apesar disso, dá-me pena ver certos alinhamentos, gente que segue a carneirada sem escrutínio próprio, sem capacidade de auto-censura, expondo-se a ridículos, banalizando-se, alinhando facilmente em comboios como uma qualquer e simplória Maria a ir atrás das outras.

A propósito da cena de gente solitária e seguramente com défice de auto-estima, que em certo horário vai a uma certa superfície comercial (que não me paga para lhe publicitar o nome) comprar um ananás e com ele enfiado de cu para o ar no carrinho das compras, vai até ao corredor dos vinhos numa expectativa acriançada de encontrar um parceiro que perceba o sinal e que esteja livre e disposto a uma relação mais ou menos às cegas, mais ou menos fortuita ou inconsequente.

E quando pensamos que isto seria apenas uma brincadeira oca de alguém que tem peso nas redes sociais para lançar modas e tendências, para alcançar visualizações e ganhos de publicidade e notoriedade, dizem-me que a coisa pegou e tornou-se mesmo uma realidade, ou como agora se diz, viral, tal e qual uma gripe mas que em vez de tosse e ranho afecta apenas a mioleira.

Não sei nem quero saber que tempo durará a coisa, porque há paninhos, como as cuecas, que importa mudar, não ao fim de uma semana mas pelo menos sempre que se toma banho. Por razões óbvias.

Em resumo, mesmo sabendo que cada um é cada um, ou uma, e que todos têm a liberdade para fazerem o que melhor lhes der nas ganas, na telha, mas que considero deprimente, sim, e mostra muito do valor dos valores da nossa sociedade ocidental, em que a dignidade se mede pela capacidade de virar um ananás do avesso e de ir espreitar os tintos e os brancos, quiçá os rosés, como quem joga na lotaria da vida à espera que lhe calhe alguém na rifa.

As relações são cada vez mais virtuais e a prazo, meros balões de ar quente que facilmente perdem o gás e, divagando ao sabor dos caprichos do vento, quase sempre na certeza de que acabam por cair. Mas, ao contrário dos balões de papel que sobem com uma simples acendalha, as quedas nas relações humanas quase sempre acontecem com estrondo, se não suficientes para quebrar ossos, pelo menos para nos deixar atordoados.

Infelizmente, ou não, é neste sentido que a coisa marcha. De todo o modo e deste modo, prefiro andar de passo trocado, até porque tenho cá para mim que os outros é que avançam desacertados. 

Companhia, marcha!

25.06.24

A casamentos e a baptizados...


a. almeida

Neste Domingo fui a um casamento. Terei ido ao último talvez há uma boa dúzia de anos. De uma vintena de sobrinhos, chegou a vez da Teresa. 

Gostei, sobretudo, da parte mais importante e significativa, a celebração religiosa. Já a poucos e poucas importa, mas é o que é. É certo que com músicas a puxar para a lágrima fácil, e não havia necessidade, mas também é o que é. Ademais, os artistas que estão no mercado da coisa (e foram bons) percebem da poda.

O resto, o acessório, o entretenimento e o comes-e-bebes, saberemos todos, mais ou menos, como a coisa decorre, porque estas modas replicam-se e do mais humilde ao mais abastado, ninguém quer ficar para trás e com mais ou menos esforço, com capacidade própria ou a contar com o "ovo no cu da galinha" dos convidados para pagarem estes o "copo-de-água", e quiçá a lua-de-mel num qualquer paraíso tropical, lá vamos seguindo o que as modas e tendências desta indústria ditam.

Em abono da Teresinha, mesmo que parecendo sofisticada a coisa até foi do mais simples e comedida, porque como em tudo na vida, neste mercado há preços e variantes para todos os gostos e carteiras e em que é dado a comer e beber aos convivas coisas tais que nem durante um mês seria possível comer e beber. Por ali come-se sobretudo com os olhos. Celebra-se a alegria, pois claro, mas sobretudo o esbanjamento, o desperdício, a desproporcionalidade.

Neste contexto da coisa, com celebração marcada para o meio-dia, o programa começou a horas. Na celebração, após o enlace, alguns convivas, pouco dados a estas coisas, e julgando estar numa arena ou campo de futebol, entre palmas  discretas soltaram uns gritos e assobios. No final, na despedida, o jovem pároco endereçou os parabéns aos noivos, com votos de felicidades e dando o "recado" de que dali a 25 anos, na celebração das "bodas de prata", esperaria "que a coisa corresse melhor" e com mais algum comedimento e que os convivas mais efusivos tivessem tempo de perceber a diferença entre estar num lugar de culto e contemplação e num campo de futebol ou sala de espectáculos. Tudo no seu lugar e contexto próprios, fica bem. 

Importa referir que foi este casamento no dia de S. João e a data não foi a escolhida pelos noivos mas determinada, com quase dois anos de antecedência, pela agenda da Quinta de eventos. É assim que funciona e os noivos, regra geral, quando querem uma coisinha XPTO à sua medida, têm que aguentar os cavalos. Por isso, já pouco conta a agenda do padre, do registo civil ou da disponibilidade de pais e padrinhos.

A entrada na Quinta, a cerca de 40 km da local da celebração, aconteceu já em hora adiantada para o almoço. Assim, com um dia muito quente, os cerca de 150 convivas entraram nas habituais entradas de tudo e mais alguma coisa e bebidas à fartazana. E andou-se nisto até cerca das 18.30 e o almoço passou a jantar. 

No entretanto, reparei que as madames, de vestidinhos cingidos com abertura na perna de cima abaixo, decotes generosos e de sapatinhos de cinderela, com tacões altos ou de  agulha, depressa os atiraram para canto e andavam por ali ou de chinelas ou de sapatilhas. O que não sofremos para parecer bonitos e elegantes!

Os jovens rapazes, habituados ao conforto das sapatilhas, andavam por ali a coxear já com bolhas nos calcanhares feitas pelos sapatinhos de biqueira afiada, apertados, comprados de véspera. Como já não sou rapaz a ir para novo, e a velhice ainda é um posto, também comprei sapatos novos mas andei a treiná-los um mês antes, pelo que problemas desses não tive. De resto evitei danças, correrias e embarques nos comboios de gente. 

Depois as coisas habituais que agora dizem ser fixes, como as fotografias assim e assado, as fotos no "espelho mágico", os joguinhos e outras cenas a mando do disc-jockey, duelos de cadeiras entre homens e mulheres, formação de combóios, as músicas do costume de que não podem faltar o YMCA, o bomba com movimento sexy, o "I Will Survive", o leilão da gravata do noivo, e por aí fora. Saberão do que falo.

E com tudo isso, depois o partir do bolo, que pouco faltou para tombar no lago que o rodeava, os noivos a passar por entre alas de convidados fornecidos com velas de foguete e copos de espumante e, porque era noite de S. João, o lançamento de balões e o habitual fogo de artifício. O evento decorreu perto do Porto pelo que havia ali uma mistura de foguetes e balões. Parecia que havia casamentos em tudo quanto era sítio.

Depois o jantar, dizem que ceia, só já pela meia-noite e com oferta de sardinhas assadas, francesinhas, bifanas e tantas outras coisas que tais. Avisado que aquelas não são horas de encher a pança, já castigada pelo desacerto do horário, achei preferível passar ao lado e dar de frosques. Saí de mansinho pela meia-noite e meia. Mas disseram-me, depois, que houve gente que aguentou até às 4 da matina. Jovens, pois claro. Acredito que no dia seguinte foram ressacas, pés maltratados, caganeiras e indisposições. Talvez por isso, ou pela Teresa ser farmacêutica, na casa de banho havia um "kit da ressaca" com uma carrada de comprimidos tidos como recomendáveis a aliviar os excessos da boca. Coisas!

Em resumo, o que se esperava que fosse porque estas coisas cada vez mais são "dejá-vus", lugares comuns, clichês, mais do mesmo, um "a maria vai com as outras". Mas não podia dizer que não à Teresinha, logo a sobrinha que tenho como mais contida e simples. E não fosse assim e a comidinha teria sido menos tradicional e mais uma palete de invenções estapafúrdicas de chefes armados ao pingarelho. Ainda bem, e aquele bacalhau e posta de novilho estavam divinais, acompanhados por uns grelinhos com migalhas de pão.

Desculpem alguma ironia, mas que vai indo a casamentos sabe que é assim, e nestes modernos tempos é do que a casa mais gasta e os convidados andam todos a toque de caixa, como marionetas nas mãos dos fotógrafos, disc-jockeys, e chefes de cerimónias. Tudo é muito demorado, protocolar, exasperantemente cansativo. Creio, até, que estas coisas fazem-se sem qualquer respeito pelos mais velhos (porventura os que mais prendam os noivos). Tudo é preparado como se todos tivéssemos 20 ou 30 anos. É o que é.

Tenho para mim, não fora a exagerada despesa para o Estado, para todos nós, e a bandidagem devia ser penalizada, não com penas de prisão mas obrigada a participar num casamento moderno todos os dias. Era castigo bastante.