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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

05.09.25

Os eufemismos e a merdice da semântica


a. almeida

Longe vão os tempos em que o monumental era, de facto, monumental: pedras sobre pedras, talhadas com arte e erguidas à custa de engenho e obstinação, sem ferramentas ou máquinas prodigiosas nem milagres tecnológicos.
Pontes que domavam rios, aquedutos que matavam sedes, muralhas que seguravam impérios, torres que roçavam os céus, castelos que impunham respeito, capelas e catedrais repletas de espiritualidade que elevavam as almas ao céu. Obras milenares ou centenárias, intemporais.

Mas os séculos avançaram e da idade das trevas vivemos agora nos tempos modernos, da luz e da tecnologia. Hoje, bastam vinte e dois homens a perseguir e a pontapear uma bola durante noventa minutos para que o vocabulário se encha de “monumentos”. De súbito, uma defesa do guarda-redes é monumental, um golo é monumentalíssimo, um passe ganha foros de obra-prima, uma finta transforma-se em prodígio sobrenatural e uma jogada rendilhada vira tratado de arquitectura, de técnica e tática. Os iluminados da televisão e da imprensa juram que é tudo grandeza, tudo arte maior, tudo imortal. Os adeptos inebriam-se e concordam.

Vivemos, assim, numa sociedade povoada de Midas: basta o toque, e até a mais simples bosta se converte em ouro de lei ou em diamante de muitos quilates.
Estranhos tempos, estes, em que já nem distinguimos o que é monumento ou monumental, pedra preciosa do que é bugiganga de feira. E o mais curioso — ou trágico — é que engolimos todas essas “monumentalidades” com a mesma reverência de outrora. Talvez por isso paguemos a esses operários de chuteira salários faraónicos, com milhões e milhões e corramos semana após semana, de carteira aberta, todos entusiasmados e contentinhos, a pagar ao clube de culto o nosso dízimo.

12.06.25

Sandes de couratos e petinga de cebolada


a. almeida

O programa "Praça da Alegria" é mais um dos vários formatos de encher chouriços na nossa televisão e entreter a gente reformada ou aliviar a tensão nas salas de espera dos serviços públicos.  Para além disso, tem promovido umas espécies de concursos ou competições cujo principal objectivo é facturar com chamadas de custo acrescentado, levando a vinhança, família e amigos a telefonaram a escolher o concorrente A ou B, toque ele acordeão, pífaro ou castanholas, tenha talento e formação ou apenas um habilidoso com algum jeito. Aqui há uns tempos, correu pela freguesia um pedido para votar em alguém que lá iria estar a competir em qualquer coisa. Não precisava de ver e ouvir e ajuizar do merecimento, mas apenas porque era conterrânea.

Agora, parece que, dentro do mesmo, vai promover a Praça uma competição de petiscos. Não sei se serão, 10, 20, 30 ou 50 participantes ou concorrentes, mas na certeza de que um pratinho de moelas, petinga de cebolada, couratos de porco, rojõezinhos ou uma punheta de bacalhau, ganhando no juíz do telefone, no julgamento do quem mais liga, ficará com o pomposo título "O petisco melhor de Portugal", como se de facto o país inteiro na arte de fazer petiscos, ali fique representado. Não sei se participará a minha sogra com as suas papas de milho amarelo ou o Tono da Esquina que sabe combinar língua de porco com fígados de galinha como ninguém ou mesmo o Zé das Fêveras que as serve com o tamanho como se fossem de porco de 50 arrobas ou o Albino que as vende, as fêveras, ao metro ou a Adega Sporting, de Castelo de Paiva, com um cardápio de tudo quanto é petisco do bom e melhor. Talvez não, porque a Praça pode ser da Alegria mas deve ser uma tristeza de espaço para albergar tanta e tanta gente, do Minho ao Algarve, dos Açores à Madeira, que no que se refere à nobre arte da confecção da petiscada. 

Mesmo compreendendo o alarido televisivo, é, em rigor, um abuso, uma bacoquice, que por mais parcial que a coisa seja, se arvore e publicite como "o melhor de Portugal".

Vale o que vale, pouco, mas na arte de vender banha da cobra, importa antes o parecer que o ser. A nossa RTP, pública, que por isso devia ser mais comedida nos abusos e eufemismos, já não consegue ser diferente das demais. É a concorrência a ditar as leis.

20.05.25

Quanto valeram as classificações dos debates? Zero? Bola?


a. almeida

Foi apenas no Domingo passado. A coisa é fresca. Todos sabemos os resultados das antecipadas Eleições Legislativas. Ainda desconhecemos as consequência do furacão Chega, mas sabemos do seu crescimento, apesar dos casos e casinhos que abalaram alguns dos seus ex-deputados. Foi tudo apertado numa mala.

Neste contexto, importa não esquecer uma coisa, que tende a passar despercebida: Para a nossa comunicação social, rádio e televisão, e seus "notáveis analistas", os "opinion makers",  o André Ventura - do que me foi possível observar - não venceu um único debate. Ou seja, que importância teve isso nos eleitores e no resultado eleitoral? Notoriamente, zero! Bola!

Perante isto, fica cada vez mais ridícula a importância que dão aos debates e sobretudo as classificações que atribuiem. Que analisem, que discutam, aceita-se como entretenimento, mas que caiam nesse ridículo de atribuir notas, eleger vencedores e anunciar  vencidos, é coisa que já não pega. Mudem o chip!

07.05.25

A lei não gosta de arraia-miúda


a. almeida

Sempre que se entra em período de campanha eleitoral, assistimos, de forma reiterada, ao desrespeito de princípios fundamentais que garantem a igualdade de tratamento entre os partidos políticos que se apresentam a eleições.

Desde logo, vejamos o que determina a Constituição da República Portuguesa. O n.º 3 do artigo 40.º estabelece com clareza: "Nos períodos eleitorais, os concorrentes têm direito a tempos de antena, regulares e equitativos, nas estações emissoras de rádio e de televisão de âmbito nacional e regional, nos termos da lei. "

Mais adiante, o n.º 3 do artigo 113.º, impõe: "b) Igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas; c) Imparcialidade das entidades públicas perante as candidaturas."

Estes princípios não são meros ideais: são obrigações constitucionais.

A própria Lei Eleitoral para a Assembleia da República (Lei n.º 14/79, artigo 56.º) reforça: "Os candidatos e os partidos políticos ou coligações que os propõem têm direito a igual tratamento por parte das entidades públicas e privadas, a fim de efetuarem, livremente e nas melhores condições, a sua campanha eleitoral."

Apesar deste enquadramento jurídico claro, a prática tem sido de desrespeito sistemático, particularmente por parte dos principais órgãos de comunicação social — com especial destaque para as televisões generalistas. Em 2011, aliás, as televisões foram judicialmente obrigadas a promover debates com todos os partidos concorrentes, justamente por violarem estes princípios.

O que resulta desta prática reiterada é uma injustiça estrutural, uma violação da legalidade e da Constituição, e uma lógica mediática que estabelece, sem pudor, uma espécie de "campeonato" político: com partidos de Primeira Liga, Segunda Liga e uma espécie de Terceira Liga sem visibilidade.

Ora, quando se entra numa campanha eleitoral — seja por fim de legislatura ou por dissolução do Parlamento —, todos os partidos partem, formalmente, do mesmo ponto. Nenhum tem deputados eleitos para a legislatura que se inicia. Não há representação prévia a ser defendida — só votos a conquistar.

Contudo, os média, em especial as televisões, recorrem a critérios discricionários, muitas vezes sob o pretexto da audiência ou da relevância mediática. E se, do ponto de vista empresarial, se compreende esta lógica em estações privadas sem dever de serviço público, é politicamente inaceitável que os partidos com representação anterior aceitem esta desigualdade como se tivessem direitos adquiridos.

Com mais ou menos pudor, todos se acomodam a esta realidade, ignorando o desequilíbrio que ela impõe e minando a própria ideia de democracia pluralista. É mais um dos sintomas do nosso sistema político: por mais razão que possam ter, os partidos pequenos continuarão a sê-lo — não por falta de propostas ou de legitimidade, mas porque ninguém os ouve, ninguém os protege, e a lei, afinal, é apenas para alguns.

A lei não gosta de arraia-miúda!

23.04.25

Fosse assim fácil adivinhar os números do euromilhões...


a. almeida

Como antevi aqui, em 16 de Abril, André Ventura, do Chega, segundo os comentadeiros da empírica arte da análise política, perdeu os debates que se seguiram, nomeadamente o de ontem com a Mariana Mortágua do BE. Decididamente, Ventura não colhe nabos da púcara da nossa comunicação social em geral.

Confesso que não sei o que falta debater, mas mais uma vez dou o prognóstico de que voltará a perder. Está escrito nas estrelas e os comentadeiros já têm as análises feitas de véspera.

Na mesma linha, também já estou a contar que o grande debate, a final da Liga dos Campeões dos debates, entre Montenegro e Pedro Nuno Santos, com mais ou menos rodriguinhos, mais ou menos tática, mais ou menos técnica, a atribuição do vencedor já está preparada para o PNS. 

A ver vamos, porque, como dizia o João PInto, os prognósticos fazem-se no final do jogo". 

Não obstante, o que parece certo, a avaliar pela generalidade das sondagens, quem vota no Chega ou não vê os debates ou está-se a cag*r para os mesmos, o que significa que na realidade valem pouco ou nada, mas apenas como um entretenimento televisivo para quem gostar do género. Há quem se lambuze por Big Brothers e quem por debates. Gostos!

16.04.25

André Ventura perdeu o próximo debate


a. almeida

Tenho para mim que os debates entre os nossos líderes políticos, valem o que valem, isto é, pouco ou nada. De resto, valessem alguma coisa e o CHEGA nem a ventura de eleger o o seu líder teria. Isto porque,  invariavelmente,  os comentadeiros da nossa Rádio e TV dão-lhe sempre nota negativa. Numa analogia ao futebol, o homem já entre em campo a perder, com os árbitros já quentinhos dos bolsos, e creio que quem escreve as análises já o faz de véspera.

Não obstante, não é figura nem partido que me faça ir às urnas, mas que gosto de o ver pisar os calos aos mais politicamente correctos, gosto, porque, à sua maneira e na essência, nenhuns deles são diferentes, porque muito nivelados por baixo.

Em síntese, esta coisa dos debates serve apenas para dar combustível e assunto aos comentadeiros avençados. O povo, o que ainda tem paciência para votar, está-se a borrifar, e os que são pelo Benfica,  Porto e Sporting, hão-de sempre ser pelo Benfica,  Porto e  Sporting. 

Prognóstico para o próximo debate de André Ventura? Já perdeu!

10.04.25

O Preço Incerto - Um concurso com singularidades


a. almeida

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O concurso televisivo "O Preço Certo" é por demais conhecido, dispensando grandes apresentações. Estreou-se na RTP na década de 1990 e, desde 2003 até hoje, é conduzido por Fernando Mendes, actor e comediante que assumiu o papel de apresentador. Antes dele, o programa foi apresentado por Carlos Cruz, Nicolau Breyner e Jorge Gabriel. No entanto, foi com o “baixinho e gordinho” — hoje ainda baixinho, mas já bem menos gordinho — que o programa ganhou uma nova vida, subindo em popularidade e tornando-se líder de audiências no seu horário. Todas as tentativas da concorrência em o destronar, deram barrete.

Vai para o ar antes do Telejornal da RTP1, de segunda-feira a sábado, com direito a inúmeras repetições — um verdadeiro filão sem fim.

A receita é conhecida e os ingredientes mantêm-se: prémios abundantes e apetecíveis, muitas vezes literalmente oferecidos com a ajuda do Mendes, figura carismática e popular, por vezes exageradamente cómica. Duas belas assistentes femininas — que funcionam sobretudo como “jarrinhas” e modelos de roupa (por vezes demasiado reduzida) — e um simpático assistente negro, cumprindo o requisito da diversidade como é politicamente correcto, que dança com senhoras da plateia e come bolos de uma bocada. Para completar o quadro, há espaço para actuações musicais, geralmente de artistas do género pimba, o que encaixa perfeitamente no espírito do programa. O Miguel Vital, figura simpática, faz de speaker e de DJ mestre a passar música pimba.

Como diz o ditado, "em equipa que ganha não se mexe", e assim tem sido ao longo dos muitos anos. Não há como negar: o concurso é popular. E eu, que o vejo muitas vezes porque a patroa não o dispensa enquanto prepara o jantar, reconheço que é um entretenimento diário para uma vasta audiência, maioritariamente composta por pessoas mais velhas e reformadas — o que lhe confere até um certo papel social. Gente de várias idades, mas sobretudo mais velhos, de vários estatutos e profissões, dos aprumados e contidos até aos mais espalhafatosos e "cromos". Há de tudo e, regra geral, os mais "cromos" acabam por ser os mais sortudos ou mais ajudados pelo apresentador.

Contudo, apesar de ser um concurso, há particularidades que tornam difícil considerá-lo um verdadeiro modelo de equidade e igualdade de oportunidades. Por exemplo: em cada emissão participam seis concorrentes, mas apenas quatro, os chamados na primeira ronda, têm três oportunidades de acertar no preço do primeiro produto, o que lhes permite avançar no jogo. Outro, na segunda ronda, tem apenas duas hipóteses e o chamado na útlima ronda só tem uma hipótese. Embora esteja nas regras, e não raras vezes o útlimo chamado ainda vai a tempo de ganhar, convenhamos que é uma lógica esquisita, injusta e desproporcional. Adequado seria que os seis fossem todos chamados em simultâneo e assim com as mesmas possibilidades de avançar para a montra final.

Outro ponto curioso: sendo o programa chamado "O Preço Certo", a lógica do primeiro palpite está longe de premiar quem mais se aproxima do valor real. Se um produto custa 50 euros e um concorrente palpitar 51, enquanto outro 15, ganha este — mesmo estando muito mais longe — porque, segundo a regra, não se pode ultrapassar o preço. Esta regra, embora aceite, é manifestamente absurda. Seria mais justo vencer quem mais se aproximasse, independentemente de ter ultrapassado o valor, e apenas em caso de empate poderia aplicar-se a regra de "não exceder".

Mais uma: no jogo da roda, o primeiro concorrente gira com o marcador no 100, mas os seguintes já começam do ponto onde a roda parou anteriormente — o que desvirtua o princípio da igualdade de condições mesmo que pela lei de probabilidades vá dar ao mesmo, digo eu.

Também não esquecer a parte em que muitos dos concorrentes dão mais do que o que recebem, já que tantas vezes vão carregados de prendas e lembranças, desde bonés e galhardetes da associação da aldeia até leitões inteiros, charcutaria, doçaria e caixas de vinho. É um exagero que mostra o lado pitoresco do concurso e, já agora, da generosidade dos portugueses, sobretudo dos que vêm de longe e do interior, mas, não havia necessidade. Para além de tudo, não raras vezes, que oferece esses produtos, recebe alguma desconsideração por parte do apresentador, fazendo cara de aborrecido ou entediado.

Para terminar, o concurso, em rigor, já deixou de o ser. Muitos prémios são simplesmente oferecidos, com o apresentador a sugerir diretamente as respostas certas, do tipo: “É verdadeiro... ou verdadeiro?” ou a dar pistas demasiado óbvias. Sabemos que é tudo em tom de brincadeira, puro entretenimento — ainda que financiado, em parte, com dinheiro dos contribuintes, porque numa estação pública,  mas que tem as suas singularidades, tem.