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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

18.06.24

Sinais de fumo


a. almeida

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Vivemos num tempo em que são tantas, tão fáceis e rápidas as formas que temos para comunicar, seja a nível local como global. As comunicações digitais e mesmo telefónicas atingem patamares que tornam tudo tão fácil e rápido, mesmo em tempo real. Todos trazemos no bolso das calças ou do casaco um autêntico computador que nos põe em contacto com o mundo em qualquer momento.

O convencional Correio, deixou de ter importância na entrega de comunicações, mas adapta-se e ganha impacto no serviço de entregas de mercadorias, concorrendo com empresas de transportes e entregas, sendo este um sector que continua a crescer face ao também aumento das vendas online.

Apesar desta panorama, parece-me que nunca foi tão difícil contactar e resolver assuntos com entidades, tanto as que nos prestam serviços no dia a dia, como de telecomunicações, televisão e seguradoras, etc, mas sobretudo entidades e organismos do aparelho de Estado, desde os serviços de Saúde às Finanças e Segurança Social.

Os canais e os meios de comunicação existem, mas convém, às entidades, filtrar e mesmo condicionar ou barrar os mesmos. Daí que seja quase impossível chegar à comunicação pessoal com alguém.

Os contactos telefónicos são o que se sabe, a entrada num labirinto de opções, tantas vezes que não correspondem às nossas necessidades, aos nossos problemas. Pela via online, os contactos são canalizados por formulários, por vez limitados na extensão do texto, bem como espartilhados em assuntos que nem sempre se ajustam à necessidade de quem quer expor um determinado problema. Depois, com sorte, respondem através de um email no-reply, isto é, sem possibilidade de resposta. É, pois, uma comunicação apenas em sentido único. Por vezes é tarefa impossível descobrir o endereço de email institucional de uma qualquer entidade.

Mesmo grande parte desses tais formulários online, não raras vezes apresentam-se fora de serviço e indisponíveis e remetem para contactos telefónicos com atendimento virtual e com inteligência artificial e com a indicação de prazos de espera de atendimento de horas, originando assim um circuito circular e interminável, como a pescadinha de rabo na boca. Tudo para levar as pessoas a desistirem.

Em resumo, as entidades e os serviços do Estado não querem ser incomodados nem querem atender os nossos problemas e apesar de tanta tecnologia, ficamos impotentes e com a impressão que ainda vivemos no tempo em que as comunicações eram feitas por sons de tambor e sinais de fumo. São, regra geral, todos eficientes e cobrarem-nos os impostos e as obrigações, mas no que toca ao atendimento é para esquecer, bem à maneira da velha e sempre nova burocracia.

Muita coisa tem que mudar e já não é na parte da tecnologia, esta demasiado avançada, mas sim na qualidade de quem nos governa e serve, porque a estes impõem-se que nos defendam enquanto cidadãos, contriobuintes e consumidores, e obriguem as entidades a um atendimento pessoal, porque somos pessoas, e não números.

Até lá, perante as dificuldades e as barreiras que se nos levantam, não resta muito a não ser mandá-los para o caralhinho, mas nem isso já serve de nada. Mesmo o direito à reclamação está condicionado e os livros que inventaram para tal não raras vezes são eles próprios condicionalismos e condicionados e quanto a efeitos práticos serão raros e apenas como excepções para confirmarem a regra..

17.06.24

Bolas, piões e berlindes


a. almeida

O menino grandalhão que na escola é o terror dos colegas, dos mais pequenos, mestre na arte das coças e destratos, a que modernamente se diz ser bullying, encontra em Putin e na Rússia se não um bom exemplo, seguramente uma excelente analogia.

Ora o menino mauzão, chamado à atenção pelo conselho directivo, diz que até aceita ser amigo do Zézinho mas com a condição de ficar-lhe com a bola, o pião, os berlindes e ainda com o seu cacifo.

É assim que se posiciona Putin e a Rússia, impondo para tréguas que a Ucrânia dê como perdida uma grande fatia do bolo territorial, incluindo o que ainda não conseguiu ocupar, e que o vizinho invadido declare  oficialmente que prescinde de se juntar a más companhias.

Quem é que pode aceitar condições destas por parte de um invasor? Bem sabemos que a força e o poder acabam, mais cedo ou mais tarde por se imporem perante os menos poderosos, mas até que ponto um país, uma nação, um povo, e mesmo um velho continente aceita submeter-se a tal condição?
Não sei nem sabemos como é que tudo isto vai acabar, ou pelo menos abrandar, mas os sinais que vão sendo dados é que a coisa é para continuar e extremar.

Apesar de tudo, desta desfaçatez, ao arrepio de toda a moral e direito internacional, ainda há pelo mundo, e mesmo cá pelo nosso quintal, gente a pôr-se ao lado do menino grandão e a considerar que o problema é do pequenito que andava a exibir bolas e dos amigos que lhe vão fornecendo piões e berlindes, como quem diz, a pedi-las.

Por cá vão tendo, é certo, menos base de apoio, mesmo eleitoral, mas apesar disso e enquanto não desaparecem do mapa, vão tendo palco e voz. Demasido grande e excessivamente amplificada que impossível torna-se, com toda a sua desfaçatez,  não vê-los nem ouvi-los. 

16.06.24

Rock in Rio - Porque não de forma permanente?


a. almeida

Eventos como o "Rock in Rio", mesmo que seja "in Lisboa", servem para aferir da saúde e disponibilidade financeira dos portugueses. Pelo que se viu esta está bem recomenda-se. Isso e as agências de viagens. Hoje passei ao início da tarde num shopping cá da zona e nas várias agências, havia gente a ser atendida e à espera.
O "Rock in Rio", de Lisboa,  até tem direito a acompanhamento da imprensa, com reportagens, análises e directos. Dir-se-ía que a par ou mesmo com maior interesse de uma qualquer Cimeira da Paz ou um acto eleitoral onde se decida o futuro do país.
Amanhã é Segunda-Feira e como depois de todas as farras virá a ressaca. Dificuldades de dinheiro, incumprimentos, rendas atrasadas, prestações que não se pagam, etc, etc, será uma mera coincidência e sem qualquer relação.
Portugal está bem e recomenda-se! Venham mais destes festivais que a malta , como alguém canta na cantiga, "vai a todas". Pena que não seja de forma permanente.
Bom resto de Domingo. 

14.06.24

O meu comandante é cor, cor, ...coronel da infantaria


a. almeida

Há dias um amigo confessava-me que em termos de relações as coisas andam esquisitas nas redes sociais. Que vira um velho conhecido seu, que não via há anos, com uma raparigota jovem ao seu lado e que, comentando, lhe dera os parabéns por ter uma filha tão bonita. Mas desse velho conhecido, que não via há uns anos, recebeu a informação de que, afinal, divorciara-se e aquela que parecia sua filha, era na verdade a sua nova companheira e com quem cavalgava novas aventuras.

Ficou perdoada a gaffe do meu amigo, mas este jurou não comentar mais este tipo de coisas. É que hoje veem-se pessoas a exporem-se desbragadamente, entrelaçadas, a declararem mutuamente um amor tão profundo e intenso que parece que vai ser eterno e chegar, no mínimo, às bodas de ouro. Mas, pasme-se, dali a nada, a reviravolta, o mesmo enredo, e com a mesma lata, as mesmas juras e declarações, mas a outros ou a outras.

Portanto, em resumo e como lição, é melhor não comentar relações nem quadros pintados com gente apaixonada, porque a coisa por regra dura tanto como manteiga em nariz de cão.

É melhor fazermos de conta que, apesar da coisa ser com pessoas reais, as suas vidas e os seus amores, são como as encenadas e exibidas numa qualquer novela. Mas não falta quem goste de novelas e jure que são reais. E a coisa calha a todos porque, vá lá saber-se porquê, não nos livramos dos telhados de vidro. Mas quem mais sobe e se expõe, mais se sujeita a cair com estrondo no chão do ridículo. Bom senso e discrição nunca fizeram mal.

Quem também percebe disto, é um outro meu amigo que ainda há pouco viu um velho coronel, seu comandante na tropa, fardado e de pose militar, a lamentar-se no Facebook  por ter sido enxotado pela companheira de um casamento de décadas, trocando-o por um antigo namorico que reencontrara na rede. Não havia necessidade de esperar pelos setenta e muitos para encornar o garboso militar. Ademais, para além da espada de prata, como todos os militares tinha uma boa e choruda reforma, coisa que agrada às mulheres. De pouco lhe valeu.

Mas as coisas são mesmo assim. As redes sociais são a antítese das velhas casamenteiras da aldeia e estão aí para abrir portas e janelas de forma vergonhosamente descancarada a novas relações e aventuras.

Quanto ao velho e brioso coronel, mesmo lamentando a situação, que não se afunde em lágrimas, que vá para o Tinder ou mesmo para o Facebook, cúmplice da traição, dar-se a conhecer, propalar a sua boa posição social e económica, e verá que não lhe faltarão candidatas, com mais ou menos sotaque,  a desejar afiar-lhe a espada e a dar lustro aos galões.

Love is in the air!

13.06.24

Infantilidades


a. almeida

Li na imprensa de ontem, que o "trabalho artístico está a aumentar entre as crianças", sendo cada vez maior o número de solicitações, sobretudo para actores e músicos e que, consultados os especialistas da coisa, estes mostram-se preocupados com a "pressão mediática" e tudo o mais que mexa com o natural desenvolvimento dos infantis. Os pais, esses querem é que os petizes sejam todos famosos e assim de pequeninos lhes vão torcendo os pepinos.

Como também tenho direito à opinião, considero que tudo isto é uma enorme hipocrisia de uma sociedade e leis que fazem distinção entre o trabalho, não colocando todas as suas áreas no mesmo plano de igualdade e dignidade, como se um actor, músico ou futebolista sejam diferentes de um pedreiro, mineiro ou agricultor. Logo é permitido trabalho infantil nas ditas áreas "artísticas" mas não noutras actividades, mesmo que compatíveis com as possibilidades físicas de cada idade, e muitas seriam capzes de também "instruir e formar". E digo-o eu, com a autoridade de quem começou a trabalhar numa fábrica ainda com 12 anos incompletos e não deixou, por isso, de estudar de noite e trabalhar de dia, comprar terreno, construir casa, ter filhos, educá-los e dar-lhes formação superior, sem ajuda de ninguém nem do Estado. Não é para todos? Pois não, é que isso implica trabalho e sacrifício constantes, e privações sim (bons carros, férias e viagens), e por ora ninguém gosta desta sobremesa.

Mas é disto que a casa gasta e assim vamos tendo nas escolas matulões e matulonas, sem nada fazer, sem aproveitamento escolar, ou pelo sistema a serem empurrados para a frente porque importa mostrar resultados, limitando-se a ocupar e a gastar recursos, a serem pesados encargos para os pais, na generalidade sem possibilidades, e para o Estado, como quem diz, para todos nós. Mas andam por ali.

Com tudo isto, não sou a favor, de todo, do trabalho infantil, porque o senti na pele, mas também não sou a favor desta hipocrisia geral e distinção entre o trabalho, quando no fundo andamos todos para aqui a berrar direitos e igualdades. Mas não me faria espécie que a idade de escolaridade obrigatória fosse revista e ficasse pelo nono ano e que a partir daí estude quem queira com vontade e empenho e tenha objectivo aproveitamento escolar, não simulado, e comece a trabalhar, efectivamente, em áreas adequadas às idades ou com formação mais técnica e manual com vista à subsequente integração no mercado de trabalho. 

Não sendo assim, andamos, sem meios para tal, à procura de uma sociedade onde todos possam ser doutores e engenheiros e a promover trabalho infantil para uma classe de actores e cantores, a preencher elencos de telenovelas e realities shows. Depois, para o resto, que venham os imigrantes desqualificados para nos plantar as batatas, colher os tomates e mirtilos, pescar as sardinhas e carapaus, construir as casas e fazer estradas, servir-nos nos restaurantes ou limpar o lixo que deixamos nas ruas.

10.06.24

Dia da Portugalidade, da Língua do Camões e da Babel


a. almeida

“No Agrupamento de Escolas Passos Manuel, mais de 230 alunos dos cerca de 1400 inscritos (portugueses e de outras nacionalidades) não falam a língua portuguesa

Nos Agrupamento de Escolas Gil Vicente, Escolas Olaias e Nuno Gonçalves a proporção é a mesma: mais de 200 alunos não falam português e correspondem a cerca de metade ou mais dos alunos de outras nacionalidades.

As famílias têm também muita dificuldade em entender os procedimentos porque muitas vezes não estão traduzidos na língua mãe. Temos muitas famílias de nacionalidades diferentes que nem inglês sabem falar e isso tem sido muito difícil na comunicação». Grande parte são do Bangladesh, Índia e Nepal.

No AE Passos Manuel – que é constituído por seis estabelecimentos: cinco Escolas do 1.º Ciclo com Jardim de Infância (Gaivotas, Luísa Ducla Soares, Maria Barroso, Padre Abel Varzim e S. José) e uma Escola com 2.º e 3.º Ciclos e Secundário (EBS Passos Manuel) – estão estudantes de mais de 50 nacionalidades. O AE Laranjeiras tem inscritos neste ano letivo alunos de 47 países e o AE Quinta de Marrocos é frequentado por estudantes de 44 nacionalidades.”

[fonte; O Nascer do Sol]

Ainda não somos uma açorda, mas estamos no bom caminho.

28.05.24

Avé, ó César!


a. almeida

Bem sei que na vida tudo é relativo e de absoluto só se nos oferece a morte. Venha quando vier, por circunstância significativa, banal, esperada ou improvável, é certa.
Apesar deste absolutismo, vamos passando pela vida nem sempre de forma condizente, como se a vivermos como imortais. Os mais novos sem ainda fazer contas porque "com toda a vida pela frente", e os mais velhos ainda com a ilusão de que cada mês é um ano.

No geral, casamos, dá-mos filhos ao mundo - coisa fácil e prazerosa - alguns, na ruralidade, até plantam uma árvore e outros até escreverão um livro, como se bastante para justificar o sentido de uma vida, como considerava necessário o cubano poeta José Marti.

Outros fazem coisas maiores, mais significativas, e podem aspirar a viver já depois de mortos, porque a História poderá reservar-lhes um lugar, uma evocação acompanhada de meia dúzida de datas e factos. Mas a maioria passará pela vida e pelo mundo sem qualquer marca de signficado, por isso cada um entre milhões e milhões, formiga no formigueiro, abelha na colmeia, sem nada que os diferecia, nem perante a aldeia global, que é coisa difícil, mas nem sequer entre os seus.

Todavia, e principalmente a marcar os tempos que correm, e olhando pela janela das redes sociais, o que não faltam é heróis alevantados em pedestais de bajulações, como se cada "like" seja um tijolo na elevação do monumento. E não se pense que o merecimento é por coisa digna ou de relevo. Não! Basta que sejam capazes de fazer as coisas mais banais e comuns a um ser humano, como o dar um simples peido. Importa é que se pertença ao rebanho e deter sobre ele alguma predominância, porque o colectivo, o gregário, compõe o ramalhete e trata do resto, de levantar o pedestal e, finda a obra com as garridas cores com que se pintam egos, a coroação. Não faltam, pois, bajulados e bajuladores, e até a nossa imprensa, devota daqueles, está pejada destes.

Avé, ó César!