Sempre se disse que somos crianças duas vezes na vida. Na infância, pois claro, e depois na velhice, em que face às nossas doenças, debilidades e incapacidades, somos levados pela mão e tratados como criancinhas, levando-nos para onde queiram e como quiserem.
Como na passagem do Evangelho em que Jesus diz a Pedro: "-Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres».[Jo. 21-18].
A minha mãe tem já uma bonita idade. Foi mulher que não teve infância ou se a teve, de trabalho e maus-tratos. Ficou órfão de mãe aos quatro anos, teve de seguida uma madrasta que lhe foi madrasta. Como criada e jornaleira da casa, casou cedo com um homem bom, filho dos patrões, mas com o dobro da sua idade. Mesmo assim, criou nove filhos, todos amados e educados e que deram homens e mulheres e cada um deu-lhe dois netos. Já há bisnetos, pois claro.
Por força dessa vida dura, de constantes freimas e lutas para sustentar e orientar os filhos, em grande parte pelo desgaste comum a quem desde tenra idade labuta nas terras num constante penar, está naturalmente debilitada e agora, qual criança, a merecer cuidados dos filhos. Recusa-se a ir para um Lar mesmo que de boa qualidade e com uma nora nele a trabalhar. Mas, ainda com lapsos de lucidez, o que nem sempre, não quer sair da casa, do ambiente e da sua zona de conforto, das flores e da horta, mesmo que já sem as poder tratar.
Enquanto os problemas não se agravam, têm os filhos as tarefas divididas e por ora a mim cabe-me diariamente assegurar o jantar, confirmar que toma os medicamentos e mais tarde ajudá-la a deitar-se, vestindo-a, despindo-a, colocando-lhe a cueca-fralda, etc. Ainda ontem quando a colocava, conseguiu dizer-me: Pari, amamentei, andei contigo ao colo, dava-te a papa e mudava as fraldas; lavava-te e vestia-te e agora és tu a fazeres-me o mesmo e eu para aqui como uma criancinha...
Dá que pensar, ou não, porque afinal é a lei da vida e além do mais, amor com amor se paga. Infelizmente os dias que correm e as correrias e compromissos dos mais novos não se compadecem com estes lirismos e paternalismos e cada vez mais os idosos, sobretudo quando fragilizados, são deixados sozinhos, por sua conta e risco e, em última análise, depositados em lares, e tantas vezes sem o acompanhamento regular, apenas quando de lá telefonam a informar que o pai ou mãe faleceram.
Não pretendo generalizar, pois bons filhos sempre os há-de haver, mas a que a coisa vai no sentido da indiferença, em que se não troca o bem-estar, não se prescinde de um dia de férias ou da viagem marcada, do conforto, compromissos de entretenimento e ocupações próprias para tratar dos pais quando velhinhos e doentes, lá isso vai. Os exemplos ou testemunhos são mais que muitos. E se não acreditasse, bastaria ter em conta o que uma cunhada, a tal que trabalha num Lar, vai descrevendo quanto à quase completa indiferença dos familiares para com alguns dos seus pais.
É o que é! Todavia, é antigo o ditado que diz, "filho és, pai serás, assim como fizeres, assim acharás.”