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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

01.02.26

Por ter cão e não ter


a. almeida

O assunto é sério de mais pelo que não se presta a banalidades. Todavia, do que habitualmente sobra das tragédias que têm ocorrido em Portugal, nomeadamente desde 2017, é que as percepções são, em muito, manipuladas e moldadas por vários intervenientes, nomeadamente pela comunicação social (que tem andado pela rua da amargura no que a seriedade e ética diz respeito), actuantes políticos, opinion makers, etc.

Para além de todo o drama que foi real, impactante, percebe-se que há sempre quem lhe queira acrescentar uns pontos. Ainda ontem a imprensa televisiva anunciava que havia mais uma vítima da Kristin, um senhor que faleceu por ter caído do telhado da sua casa quando o procurava consertar. Já hoje, anunciadas mais dias vítimas que terão padecido por intoxicação decorrente de uso de geradores. Que mais vítimas se seguirão? Alguém que ía a casa de alguém fazer consertos ou que se despistou quanto ía entregar um gerador a uma empresa? Nesta perspectva daqui a um ano ou dois ainda se andará a somar vítimas deste evento climático. Haja bom senso e dividam-se as águas!

Em resumo, a tónica tem sido esta, mesmo no que se refere às autoridades, governos e seus membros: O de se pagar por ter cão e não ter, por falar cedo, por falar tarde, por falar pouco, por falar muito, por tudo e o seu contrário. Aplica-se aqui a velhinha fábula do velho, do rapaz e do burro. Faça-se o que se fizer e como se fizer, haverá sempre descontentamentos, críticas mais ou menos vorazes, tantas vezes, não de quem sofreu com as tragédias mas de quem as analisa no sofá.

Triste!

22.01.26

Num tempo da merdificação


a. almeida

cartaz.jpg

Vivemos um momento singular da história criativa. Nunca foi tão fácil produzir imagens, textos, ilustrações, composições visuais e conteúdos gráficos de aparência mais ou menos rebuscada ou sofisticada. Bastam alguns comandos escritos (prompts), algumas palavras-chave bem formuladas,como as que fiz para o cartaz que ilustra este artigo, e a inteligência artificial devolve, em segundos, aquilo que antes exigia talento, anos de estudo, prática e amadurecimento artístico. Esta facilidade, porém, levanta uma questão essencial: estaremos a assistir à democratização da criatividade ou à sua banalização, como se todos possamos ser artistas criativos e talentos, mesmo que prática sejamos incapazes de desenhar o ovo.

A proliferação de conteúdos gráficos gerados por inteligência artificial, nomeadamente através de plataformas como a popular ChatGPT e outros sistemas generativos, está a inundar as redes sociais, mas não só. A estética passa a sobrepor-se à intenção, o impacto imediato substitui o processo reflexivo, e a originalidade dilui-se numa repetição algorítmica de padrões já existentes. O resultado é um mar de conteúdos visualmente apelativos, mas, no geral, sob um ponto de vista artístico, vazios ou de gosto merdoso. Na realidade e na essência, esses processos usam trabalhos e obras de terceiros, sendo que a verificação é quase impossível, logo igualmente impossível reclamar direitos.

A arte sempre foi, antes de mais, um exercício de consciência, sensibilidade e risco. O verdadeiro talento nasce da inquietação, do erro, da dúvida, do conflito interior e da tentativa constante de traduzir emoções, experiências e visões únicas do mundo. A criação artística é um percurso, não um produto instantâneo. Quando este processo é substituído por uma resposta automática, sem qualquer custo, perde-se a essência da expressão humana, até mesmo a imperfeição que torna cada obra irrepetível.

A vulgarização surge precisamente neste ponto: quando a produção massiva esvazia o significado. O acesso fácil a conteúdos gerados por IA promove uma cultura de consumo rápido, onde o valor da obra é medido pela sua capacidade de gerar cliques, partilhas e reações imediatas. Neste cenário, o tempo da contemplação, da interpretação e da crítica é reduzido ao mínimo. A arte transforma-se num mero artefacto visual, descartável e substituível. Desconfio que a curto prazo vamos ficar enjoados de tanta fartura visual, de imagem ou vídeo, de mais do mesmo, mas se algum dia a situação será revertida, já não acredito.

Muito preocupante, ainda, é o impacto deste fenómeno sobre os criadores humanos. Ilustradores, designers, fotógrafos, escritores e artistas em geral veem o seu trabalho competir com produções instantâneas, gratuitas e ilimitadas. A desvalorização económica acompanha inevitavelmente a desvalorização simbólica. Quando tudo pode ser criado em segundos, o esforço, a formação e a experiência tornam-se invisíveis, quase irrelevantes aos olhos de um mercado que privilegia velocidade e volume.

Defender o valor da criação artística não significa rejeitar o progresso tecnológico, mas sim exigir uma utilização consciente, ética e culturalmente responsável dessas ferramentas. A arte não deve ser reduzida a um produto estatístico baseado em probabilidades; deve continuar a ser um espaço de subjectividade, de identidade e de questionamento.

Num mundo cada vez mais saturado de vídeos e imagens perfeitas e textos impecáveis, talvez o verdadeiro acto revolucionário seja preservar o imperfeito, o inacabado, o singular. Porque é precisamente aí, na falha, na hesitação e na tentativa, que reside o que nos torna genuinamente humanos.

Não obstante, convenhamos, a reversão ou mesmo moderação, serão já uma utopia. Uma impossibilidade.

21.01.26

É isto viver?


a. almeida

Entardece. Dali a nada é o jantar. Depois um esforço para ver televisão, mas os filmes repetem-se, as séries têm desfechos previsíveis e o resto é o habitual desfile  de misérias humanas ou divagações inúteis: as mesmas notícias, os mesmos comentários, seja sobre política, futebol, guerras ou esforços sobre a conservação da minhoca de anel dourado e afins.

É cedo, mas depois de um chocolate confortante, na cama o entorpecimento ajuda a diluir quaisquer pensamentos sombrios sobre mais um dia que se esgota sem nada que o diferencie de muitos outros. E é isto viver? Sobreviver, talvez?

Amanhá será outro dia. Talvez igual.

15.01.26

Onde estarão "os 3 milhões"?


a. almeida

Não sou dos que acreditam "às ceguinhas" em sondagens, desde logo porque sabemos que, de um modo ou de outro, são manipuladas consoante os interesses que pretendem servir. Quando muito, funcionam como meros indicadores. Ainda assim, no que toca à cauda da tabela, poucas dúvidas tenho de que a percentagem de votação andará ali pelos 3% ou abaixo disso.

António Filipe, Catarina Martins, Jorge Pinto e os habituais bobos da corte terão de se contentar com as migalhas do costume. Tirando a vertente cómica, que apenas desprestigia o acto eleitoral, os candidatos da velha esquerda, todos juntos, dificilmente ultrapassarão os 6%. E, no entanto, todos eles falam empenhadamente em nome dos trabalhadores, da classe operária, dos problemas do SNS, dos malefícios do pacote laboral, da defesa da Constituição, a de Abril, a deles.

Ou seja, são poucos, muito poucos, os que lhes dão crédito. Onde estão os “3 milhões” que, segundo a sua narrativa, lhes deram voz aquando da greve geral? O problema, nestas contas, é simples: os votos contam-se com rigor, enquanto que, nas greves, tudo não passa de uma espécie de adivinhação a olhómetro, onde entram para a soma até aqueles que foram arrastados por falta de transportes e de quem lhes abrisse as portas dos serviços, mesmo contra a sua vontade.

Nesse sentido, uma eleição é sempre clarificadora quanto ao real peso dos valores que essa esquerda caduca diz defender. O problema talvez nem esteja nos valores em si, porque muitos deles também eu defendo, mas sim na forma e nos métodos. É aí que têm falhado e é aí que, eleição após eleição, insistem em não aprender.

Costuma-se dizer que nunca é tarde para aprender, mas esta gente desconhece o ditado.

01.01.26

Entre fogo, ostras e concertos


a. almeida

unicef.jpg

Não sei porquê, mas ontem (na verdade, já hoje), quando na televisão via a euforia e milhares de milhares a explodirem em fogo de artifício e concertos, por todo o mundo e por todo o Portugal, veio-me ao pensamento este olhar que o Facebook diariamente nos coloca à frente. Seria interessante saber o que a Meta contribui para a causa, mas isso são outros quinhentos.

E não, não é má consciência, porque contribuo com regularidade, mesmo com um ordenado pouco superior ao mínimo. É apenas a constatação do paradoxo desta nossa sociedade consumista, de forma desenfreada, em férias, faustosos banquetes de caviar, ostras e leitão, concertos, foguetes, etc., etc., enquanto algures se sobrevive na escassez, na miséria.

Será um mau dia e uma má hora para despertar consciências (milhões ainda estarão na cama a curar a ressaca), mas é o que é.

Quem não gostar, que passe ao lado.

15.12.25

Papel higiénico e lodo


a. almeida

O acto terrorista ocorrido na Austrália é, em grande medida, consequência da vaga de anti-semitismo que alastra um pouco por todo o mundo, em particular na Europa e até em Portugal. Quando se chega ao ponto de um evento musical com a projecção do Festival da Eurovisão servir de palco e de catalisador de ódio contra Israel e contra os judeus, percebe-se que estão lançadas as sementes para que a violência, incluindo na forma de terrorismo, encontre terreno fértil para germinar e produzir efeitos.

É certo que o Festival da Eurovisão, há muitos anos, se encontra descaracterizado, mal frequentado, reduzido a um produto de consumo acrítico e descartável. Não surpreende, por isso, que alguns dos seus concorrentes se revelem imbuídos de anti-semitismo ao ponto de boicotarem a presença de quem não tem qualquer responsabilidade pelas orientações do seu Estado. Ainda assim, tal ajuda a expor a consistência do lodo ideológico em que determinados facciosismos se movimentam.

01.12.25

O exercício da mentira


a. almeida

"Afirmavam e provavam os oponentes que, como primeiro-ministro, o senhor Sócrates descaradamente mentia. Afirmam e provam agora os seus seguidores que o senhor Passos Coelho descaradamente mentia.

Cidadão sem partido, sem tacho, amizades ou dependências políticas, livre que nem andorinha, pergunto-me que proveito move as senhoras e senhores que tanta energia e palavras gastam no fingimento de que protestam contra a mentira, e sinceramente querem endireitar o torto. Será mau hábito que têm? Achaque que lhes dá? Sendo apenas figurantes e vassalos, imaginam-se actores de primeira?

De qualquer modo o espectáculo é deprimente, menos pela fantochada do que pelo que põe à mostra de sabujice. E mal, muito mal, vai à vida política da nação, quando o debate público ganha o tom das rixas de taberna".

[J.Rentes de Carvalho]