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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

18.06.24

Cada macaco no seu galho


a. almeida

A intervenção do futebolista francês Mbappé a anteceder o jogo de estreia da França no Euro 20024, ontem contra a selecção da Áustria (que venceu com 1-0 com um auto-golo dos austríacos) acabou por se virar para a situação política em resultado das eleições para o Parlamento Europeu em que o crescimento da extrema-direita levou o presidente Macron a convocar lesgislativas antecipadas.

Falou Mbappé, perante as câmaras de televisão e o mundo, dos valores que considera estarem em risco, apelando ao voto dos da sua geração como forma de os defender. Falou dos valores do costume, como o respeito e a tolerância que sentencia estarem em causa com a vitória da extrema-direita.
Ora num certo blog cá da praça, em que abordava esta questão, deixei o meu comentário e que aqui elevo à condição de artigo. Segue, com uma ou outra caiadela:

"Porventura, Mbappé anda com o ofício trocado. Pode sempre optar por entrar na política.
Concordo que todos, incluindo os desportistas, tenham direito à sua opinião e a manifestar as suas preocupações relativamente aos mais variados contextos, incluindo os políticos, como é o caso. Tudo legítimo.

Todavia, já coloco algumas reservas quando o fez e fazem em pleno contexto de representação de uma país ou uma nação, porque se queira ou não, os adeptos são também a diversidade e por conseguinte representativos das opções politicas, mesmo as contrárias às de Mbappé.

Ademais, a base das preocupações, com o crescimento da extrema-direita em França, decorre, veja só, da diversidade de pensamento legitimada em eleições democráticas.
Eu, se fosse grande adepto da nossa selecção nacional, não gostaria de ouvir um dos seus futebolistas a tecer opiniões políticas contrárias às minhas, não porque o não possa fazer com legitimidade, mas não seguramente quando me representa enquanto adepto.

Em resumo, o direito à opinião é legítimo, concerteza, mas importa também perceber o contexto em que nos movemos e quem ou o que representamos. Neste sentido, parece-me que o desportista abusou dessa posição, por mais legítimos que sejam a sua posição e pensamento.

Além do mais, goste-se ou não da UEFA e FIFA e suas posições nem sempre claras, até dúbias, quanto a estas questões políticas, Mbappé e outros podem sempre optar, livremente, por não participar nestes eventos.

Simples. Como diz o povo, "cada macaco no seu galho".

Em resumo, reitero que há cargos e funções que enquanto representativos de um todo não são compatíveis com tomadas de posição que decorrem do exercício pessoal. Um exemplo: O presidente Marcelo não é o meu porque nele não votei, mas representa-me e diz-se como "presidente de todos os protugueses". Ora não parece aceitável, mesmo que possível e legítimo sob um ponto de vista de liberdade pessoal, que possa tecer opiniões, sobretudo desfavoráveis, a partidos e às suas posições e ideologias. Outro exemplo: Alguém, hoje em dia, aceitaria que um professor em plena aula começe a defender os valores cristão em detrimento de outros ou vice-versa? E contudo tem legitimidade para o fazer num plano pessoal e fora do contexto da instituição que representa. Qual a diferença para o que fez e disse o Mbappé?

Era o que faltava! Daí que de facto, "cada macaco no seu galho". Quem quiser exprimir-se de forma livre e pessoal, incluindo ser activista do que quer que seja, que o faça, mas que se demita das suas funções que representa em nome de todos e que a isso obriga imparcialidade.

Não me parece que seja preciso fazer um desenho.

18.06.24

Sinais de fumo


a. almeida

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Vivemos num tempo em que são tantas, tão fáceis e rápidas as formas que temos para comunicar, seja a nível local como global. As comunicações digitais e mesmo telefónicas atingem patamares que tornam tudo tão fácil e rápido, mesmo em tempo real. Todos trazemos no bolso das calças ou do casaco um autêntico computador que nos põe em contacto com o mundo em qualquer momento.

O convencional Correio, deixou de ter importância na entrega de comunicações, mas adapta-se e ganha impacto no serviço de entregas de mercadorias, concorrendo com empresas de transportes e entregas, sendo este um sector que continua a crescer face ao também aumento das vendas online.

Apesar desta panorama, parece-me que nunca foi tão difícil contactar e resolver assuntos com entidades, tanto as que nos prestam serviços no dia a dia, como de telecomunicações, televisão e seguradoras, etc, mas sobretudo entidades e organismos do aparelho de Estado, desde os serviços de Saúde às Finanças e Segurança Social.

Os canais e os meios de comunicação existem, mas convém, às entidades, filtrar e mesmo condicionar ou barrar os mesmos. Daí que seja quase impossível chegar à comunicação pessoal com alguém.

Os contactos telefónicos são o que se sabe, a entrada num labirinto de opções, tantas vezes que não correspondem às nossas necessidades, aos nossos problemas. Pela via online, os contactos são canalizados por formulários, por vez limitados na extensão do texto, bem como espartilhados em assuntos que nem sempre se ajustam à necessidade de quem quer expor um determinado problema. Depois, com sorte, respondem através de um email no-reply, isto é, sem possibilidade de resposta. É, pois, uma comunicação apenas em sentido único. Por vezes é tarefa impossível descobrir o endereço de email institucional de uma qualquer entidade.

Mesmo grande parte desses tais formulários online, não raras vezes apresentam-se fora de serviço e indisponíveis e remetem para contactos telefónicos com atendimento virtual e com inteligência artificial e com a indicação de prazos de espera de atendimento de horas, originando assim um circuito circular e interminável, como a pescadinha de rabo na boca. Tudo para levar as pessoas a desistirem.

Em resumo, as entidades e os serviços do Estado não querem ser incomodados nem querem atender os nossos problemas e apesar de tanta tecnologia, ficamos impotentes e com a impressão que ainda vivemos no tempo em que as comunicações eram feitas por sons de tambor e sinais de fumo. São, regra geral, todos eficientes e cobrarem-nos os impostos e as obrigações, mas no que toca ao atendimento é para esquecer, bem à maneira da velha e sempre nova burocracia.

Muita coisa tem que mudar e já não é na parte da tecnologia, esta demasiado avançada, mas sim na qualidade de quem nos governa e serve, porque a estes impõem-se que nos defendam enquanto cidadãos, contriobuintes e consumidores, e obriguem as entidades a um atendimento pessoal, porque somos pessoas, e não números.

Até lá, perante as dificuldades e as barreiras que se nos levantam, não resta muito a não ser mandá-los para o caralhinho, mas nem isso já serve de nada. Mesmo o direito à reclamação está condicionado e os livros que inventaram para tal não raras vezes são eles próprios condicionalismos e condicionados e quanto a efeitos práticos serão raros e apenas como excepções para confirmarem a regra..

17.06.24

Bolas, piões e berlindes


a. almeida

O menino grandalhão que na escola é o terror dos colegas, dos mais pequenos, mestre na arte das coças e destratos, a que modernamente se diz ser bullying, encontra em Putin e na Rússia se não um bom exemplo, seguramente uma excelente analogia.

Ora o menino mauzão, chamado à atenção pelo conselho directivo, diz que até aceita ser amigo do Zézinho mas com a condição de ficar-lhe com a bola, o pião, os berlindes e ainda com o seu cacifo.

É assim que se posiciona Putin e a Rússia, impondo para tréguas que a Ucrânia dê como perdida uma grande fatia do bolo territorial, incluindo o que ainda não conseguiu ocupar, e que o vizinho invadido declare  oficialmente que prescinde de se juntar a más companhias.

Quem é que pode aceitar condições destas por parte de um invasor? Bem sabemos que a força e o poder acabam, mais cedo ou mais tarde por se imporem perante os menos poderosos, mas até que ponto um país, uma nação, um povo, e mesmo um velho continente aceita submeter-se a tal condição?
Não sei nem sabemos como é que tudo isto vai acabar, ou pelo menos abrandar, mas os sinais que vão sendo dados é que a coisa é para continuar e extremar.

Apesar de tudo, desta desfaçatez, ao arrepio de toda a moral e direito internacional, ainda há pelo mundo, e mesmo cá pelo nosso quintal, gente a pôr-se ao lado do menino grandão e a considerar que o problema é do pequenito que andava a exibir bolas e dos amigos que lhe vão fornecendo piões e berlindes, como quem diz, a pedi-las.

Por cá vão tendo, é certo, menos base de apoio, mesmo eleitoral, mas apesar disso e enquanto não desaparecem do mapa, vão tendo palco e voz. Demasido grande e excessivamente amplificada que impossível torna-se, com toda a sua desfaçatez,  não vê-los nem ouvi-los. 

16.06.24

Rock in Rio - Porque não de forma permanente?


a. almeida

Eventos como o "Rock in Rio", mesmo que seja "in Lisboa", servem para aferir da saúde e disponibilidade financeira dos portugueses. Pelo que se viu esta está bem recomenda-se. Isso e as agências de viagens. Hoje passei ao início da tarde num shopping cá da zona e nas várias agências, havia gente a ser atendida e à espera.
O "Rock in Rio", de Lisboa,  até tem direito a acompanhamento da imprensa, com reportagens, análises e directos. Dir-se-ía que a par ou mesmo com maior interesse de uma qualquer Cimeira da Paz ou um acto eleitoral onde se decida o futuro do país.
Amanhã é Segunda-Feira e como depois de todas as farras virá a ressaca. Dificuldades de dinheiro, incumprimentos, rendas atrasadas, prestações que não se pagam, etc, etc, será uma mera coincidência e sem qualquer relação.
Portugal está bem e recomenda-se! Venham mais destes festivais que a malta , como alguém canta na cantiga, "vai a todas". Pena que não seja de forma permanente.
Bom resto de Domingo. 

14.06.24

Os burros gostam de cenouras


a. almeida

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A nossa televisão pública, a RTP, abriu ontem o seu principal telejornal, das 20:00 horas, com o tema da selecção nacional de futebol de partida para a Alemanha. Foram quase vinte minutos da coisa a que acresce os espaços próprios que se debruçarão sobre o dia-a-dia daquela comitiva de príncipes.

Há, naturalmente, assuntos bem mais importantes a merecer a atenção no país mas a RTP e a sua agenda popularucha e de primazia ao entretenimento das massas, entende que é isto que se justifica e por estes tempos vai ser assim até ao final do Europeu de Futebol.

Face à importância dada ao circo da bola, o resto, mesmo que essencial, é para despachar. Ainda bem que temos a CMTV para nos mostrar o país, cinzento mas  real, tão diferente do colorido que nos mostra o photoshop da televisão pública. 

Cada um faz o que quer e gosta. Por mim só o lamento porque de alguma forma, pelos impostos e taxas, obrigam-me a contribuir para isso. E não havia necessidade, porque gosto de pagar apenas o que consumo, incluindo cenouras. 

Siga a rusga!

Edito à posteriori para acrescentar que bem sei que o povo gosta de futebol, também os portugueses, também eu, mesmo que já lhe dedicando pouco tempo e reduzida preocupação, mas parece-me um exagero que lhe seja dispensada tanta atenção e recursos, quando, afinal, para o mesmo povo não passa de um entretenimento. Um destes dias o Telejornal abrirá a dedicar 20 minutos ao "Casados à Primeira Vista", ao "Big Brother" ou ao "Quem quer namorar com o agricultor?".

14.06.24

O meu comandante é cor, cor, ...coronel da infantaria


a. almeida

Há dias um amigo confessava-me que em termos de relações as coisas andam esquisitas nas redes sociais. Que vira um velho conhecido seu, que não via há anos, com uma raparigota jovem ao seu lado e que, comentando, lhe dera os parabéns por ter uma filha tão bonita. Mas desse velho conhecido, que não via há uns anos, recebeu a informação de que, afinal, divorciara-se e aquela que parecia sua filha, era na verdade a sua nova companheira e com quem cavalgava novas aventuras.

Ficou perdoada a gaffe do meu amigo, mas este jurou não comentar mais este tipo de coisas. É que hoje veem-se pessoas a exporem-se desbragadamente, entrelaçadas, a declararem mutuamente um amor tão profundo e intenso que parece que vai ser eterno e chegar, no mínimo, às bodas de ouro. Mas, pasme-se, dali a nada, a reviravolta, o mesmo enredo, e com a mesma lata, as mesmas juras e declarações, mas a outros ou a outras.

Portanto, em resumo e como lição, é melhor não comentar relações nem quadros pintados com gente apaixonada, porque a coisa por regra dura tanto como manteiga em nariz de cão.

É melhor fazermos de conta que, apesar da coisa ser com pessoas reais, as suas vidas e os seus amores, são como as encenadas e exibidas numa qualquer novela. Mas não falta quem goste de novelas e jure que são reais. E a coisa calha a todos porque, vá lá saber-se porquê, não nos livramos dos telhados de vidro. Mas quem mais sobe e se expõe, mais se sujeita a cair com estrondo no chão do ridículo. Bom senso e discrição nunca fizeram mal.

Quem também percebe disto, é um outro meu amigo que ainda há pouco viu um velho coronel, seu comandante na tropa, fardado e de pose militar, a lamentar-se no Facebook  por ter sido enxotado pela companheira de um casamento de décadas, trocando-o por um antigo namorico que reencontrara na rede. Não havia necessidade de esperar pelos setenta e muitos para encornar o garboso militar. Ademais, para além da espada de prata, como todos os militares tinha uma boa e choruda reforma, coisa que agrada às mulheres. De pouco lhe valeu.

Mas as coisas são mesmo assim. As redes sociais são a antítese das velhas casamenteiras da aldeia e estão aí para abrir portas e janelas de forma vergonhosamente descancarada a novas relações e aventuras.

Quanto ao velho e brioso coronel, mesmo lamentando a situação, que não se afunde em lágrimas, que vá para o Tinder ou mesmo para o Facebook, cúmplice da traição, dar-se a conhecer, propalar a sua boa posição social e económica, e verá que não lhe faltarão candidatas, com mais ou menos sotaque,  a desejar afiar-lhe a espada e a dar lustro aos galões.

Love is in the air!

13.06.24

Infantilidades


a. almeida

Li na imprensa de ontem, que o "trabalho artístico está a aumentar entre as crianças", sendo cada vez maior o número de solicitações, sobretudo para actores e músicos e que, consultados os especialistas da coisa, estes mostram-se preocupados com a "pressão mediática" e tudo o mais que mexa com o natural desenvolvimento dos infantis. Os pais, esses querem é que os petizes sejam todos famosos e assim de pequeninos lhes vão torcendo os pepinos.

Como também tenho direito à opinião, considero que tudo isto é uma enorme hipocrisia de uma sociedade e leis que fazem distinção entre o trabalho, não colocando todas as suas áreas no mesmo plano de igualdade e dignidade, como se um actor, músico ou futebolista sejam diferentes de um pedreiro, mineiro ou agricultor. Logo é permitido trabalho infantil nas ditas áreas "artísticas" mas não noutras actividades, mesmo que compatíveis com as possibilidades físicas de cada idade, e muitas seriam capzes de também "instruir e formar". E digo-o eu, com a autoridade de quem começou a trabalhar numa fábrica ainda com 12 anos incompletos e não deixou, por isso, de estudar de noite e trabalhar de dia, comprar terreno, construir casa, ter filhos, educá-los e dar-lhes formação superior, sem ajuda de ninguém nem do Estado. Não é para todos? Pois não, é que isso implica trabalho e sacrifício constantes, e privações sim (bons carros, férias e viagens), e por ora ninguém gosta desta sobremesa.

Mas é disto que a casa gasta e assim vamos tendo nas escolas matulões e matulonas, sem nada fazer, sem aproveitamento escolar, ou pelo sistema a serem empurrados para a frente porque importa mostrar resultados, limitando-se a ocupar e a gastar recursos, a serem pesados encargos para os pais, na generalidade sem possibilidades, e para o Estado, como quem diz, para todos nós. Mas andam por ali.

Com tudo isto, não sou a favor, de todo, do trabalho infantil, porque o senti na pele, mas também não sou a favor desta hipocrisia geral e distinção entre o trabalho, quando no fundo andamos todos para aqui a berrar direitos e igualdades. Mas não me faria espécie que a idade de escolaridade obrigatória fosse revista e ficasse pelo nono ano e que a partir daí estude quem queira com vontade e empenho e tenha objectivo aproveitamento escolar, não simulado, e comece a trabalhar, efectivamente, em áreas adequadas às idades ou com formação mais técnica e manual com vista à subsequente integração no mercado de trabalho. 

Não sendo assim, andamos, sem meios para tal, à procura de uma sociedade onde todos possam ser doutores e engenheiros e a promover trabalho infantil para uma classe de actores e cantores, a preencher elencos de telenovelas e realities shows. Depois, para o resto, que venham os imigrantes desqualificados para nos plantar as batatas, colher os tomates e mirtilos, pescar as sardinhas e carapaus, construir as casas e fazer estradas, servir-nos nos restaurantes ou limpar o lixo que deixamos nas ruas.