Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

01.02.26

Por ter cão e não ter


a. almeida

O assunto é sério de mais pelo que não se presta a banalidades. Todavia, do que habitualmente sobra das tragédias que têm ocorrido em Portugal, nomeadamente desde 2017, é que as percepções são, em muito, manipuladas e moldadas por vários intervenientes, nomeadamente pela comunicação social (que tem andado pela rua da amargura no que a seriedade e ética diz respeito), actuantes políticos, opinion makers, etc.

Para além de todo o drama que foi real, impactante, percebe-se que há sempre quem lhe queira acrescentar uns pontos. Ainda ontem a imprensa televisiva anunciava que havia mais uma vítima da Kristin, um senhor que faleceu por ter caído do telhado da sua casa quando o procurava consertar. Já hoje, anunciadas mais dias vítimas que terão padecido por intoxicação decorrente de uso de geradores. Que mais vítimas se seguirão? Alguém que ía a casa de alguém fazer consertos ou que se despistou quanto ía entregar um gerador a uma empresa? Nesta perspectva daqui a um ano ou dois ainda se andará a somar vítimas deste evento climático. Haja bom senso e dividam-se as águas!

Em resumo, a tónica tem sido esta, mesmo no que se refere às autoridades, governos e seus membros: O de se pagar por ter cão e não ter, por falar cedo, por falar tarde, por falar pouco, por falar muito, por tudo e o seu contrário. Aplica-se aqui a velhinha fábula do velho, do rapaz e do burro. Faça-se o que se fizer e como se fizer, haverá sempre descontentamentos, críticas mais ou menos vorazes, tantas vezes, não de quem sofreu com as tragédias mas de quem as analisa no sofá.

Triste!

29.01.26

Perspectiva teatral


a. almeida

Tal como quando aconteceu com o apagão, parece ficar claro que o primeiro-ministro, visto por uma certa perspectiva, não tem estofo para somar pontos com  o que no país corre mal e com a tragédia, seja de origem técnica, humana ou causada pelas indomáveis forças da natureza. Deveria fazer como todos fazem? Aparecer com os discursos do costume, falar ao país às 20 horas com ar pesaroso, vestir camuflados, fardas de bombeiros, colocar capacetes, óculos e luvas e dar mostras que está no terreno, no teatro de operações? Exactamente no teatro, como uma personagem teatral a interpretar um papel de figura zelosa e interessada?

Para o bem e para o mal, por inércia, personalidade ou cálculo, tem lidado com estas situações de um modo diferente da norma estabelecida, fora de tempo e da luz dos holofotes e das câmaras. Todavia, nesta sua forma de ser, estar e agir, o país da opinião, dos opinion makers, os dão notas como professores, não lhe perdoa em tudo quanto é palco de comunicação. Eu próprio, com tanta má nota,  fico sem saber qual das versões me agradaria, se a teatral se a outra, a discreta, menos presencial e espalhafatosa. Como no meio estará a virtude, talvez entre as duas, até porque percebo que nas horas de tragédia temos de nos agarrar a algo e a alguém, como a tomar uma pastilha Melhoral, que não fará bem nem mal.

Somos de percepções e algo falha quando não as recebemos de alguém. Nessa perspectiva teatral tem falhado o nosso primeiro e volta agora a falhar.

28.01.26

Debate inócuo


a. almeida

Assisti ao debate, em cerca de 75%. Não vi o resto porque tornou-se demasido monótono e previsível. Ambos nos seus estilos bem definidos e reforçados pelo que vão anunciando as sondagens. A espaços, o debate remeteu-me para 1986, mas com as posturas trocadas. Seguro a fazer de Freitas do Amaral, sorridente, educado, e Ventura no papel de Soares, caceteiro, manhoso, a bater nas feridas, a pintar diabos em quadros cinzentos. 

António José Seguro, como uma equipa de futebol que ao intervalo está a vencer por margem folgada, não arriscou, optando por trocar a bola no meio campo e até com passes ao guarda-redes, para não se desgastar, num jogo cínico, esperando apenas o fim  do apito. André Ventura a tentar bater onde mais doerá a Seguro, mas sem grandes efeitos porque o adversário já sente que a sua carapaça tem a resistência suficiente. De resto, por ser o patinho feio do PS, envergonhadamente apoiado nesta candidatura, tem sentido que o seu prejuízo pela ligação ao PS é inócuo, mesmo com o Ventura sempre a tentar a fazer essa ligação, como se o homem fosse o António Costa ou o Pedro Nuno Santos.

Em suma, por mim considero que o debate foi mais show-off do que susbtância. Seja como for, no essencial Ventura tem razão: Será mais do mesmo e teremos um presidente decorativo, muito honesto, educado, moderado mas sem rasgos ou abanões que sacudam o sistema que, entre uns e outros, vigora de há 50 anos. 

Não obstante, se Ventura tem razão na substância, falta-lhe a solidez de uma pessoa adulta e pragmática, que possa transmitir confiança ao eleitorado para lá dos zangados com o rame-rame de sempre.

Venha a eleição, mas já sem qualquer pinta de suspense ou interesse. Mesmo os que defendem que está em causa a democracia, já terão percebido que fizeram figuras ridículas.

23.01.26

Haja a justiça


a. almeida

O caso da queixa do Primeiro-Ministro sobre um utilizador na rede social X, um Volksmerdas qualquer, por acto de desinformação, é perfeitamente justa e compreensível. Por mais voltas que dê o utilizador na sua justificação, não passa de um mau argumento. Nada do que escreveu e como escreveu é garantidamente perceptível como uma sátira ou humor. Bastará que um em cada 100 utilizadores não perceba a diferença para a publicação estar a ser enganosa. 

A toda esta gente, nomeadamente os "activistas", falta sentido de responsabilidade e respeito, agindo numa cultura de que por liberdade de expressão pode valer tudo. Não vale! Ora quando esses limites são ultrapassados, desrespeitados, do outro lado há alguém que também vê desrespeitados os seus direitos. Face a isto, nada mais justo e merecido que entre a tratar do assunto a alçada da justiça e da responsabilização.

Onde é que está a dificuldade em compreender isto?

20.01.26

Perda de tempo


a. almeida

A reunião que dizem que vai acontecer hoje entre o Primeiro-Ministro e a ministra do Trabalho com o secretário-geral da CGTP, tem um desfecho garantido: o desacordo. Por conseguinte, esta reunião é daquelas coisas que bem podem ser sinómino de perda de tempo, a de uma completa inutilidade. Em bom rigor, a reunião só se realiza num pressuposto de hipocrisia, em que cada uma das partes pretende transmitir uma ideia de que está aberta ao diálogo. No entanto, desde logo pelo historial e comportamento, sabe-se que a CGTP, por ortodoxia, fundamentalismo ideológico e ao serviço do PCP, tem uma postura congénita de estar sempre contra, seja em que circunstância. Posto isto, qualquer pontinha de acordo seria contra-natura e caso para festejar o acontecimento com a instauração de um feriado nacional, o Dia do Entendimento Impossível.

É, pois, uma reunião para fazer de conta. Poderia, muito bem, realizar-se no dia de Carnaval ou no primeiro de Abril. Teria mais propósito.

19.01.26

Seguro, seguramente.


a. almeida

Tal como escrevi por aqui no passado dia 15, os resultados das eleições de ontem vieram confirmar a insignificância dos partidos canhotos. Durante todo este tempo de campanha falaram afanosamente do povo, dos trabalhadores, da classe operária, da defesa da democracia e da constituição. Apregoaram-se como os donos morais destes valores. Mas estão desfasados, porque, na hora de fazer as escolhas, o povo remete-os à insignificância eleitoral e política. Até mesmo o imberve Jorge Pinto, que surgiu na disputa como uma espécie de Cristiano Ronaldo dos candidatos, ficou abaixo do bobo da corte. Ou seja, falar a sério ou a apalhaçar teve o mesmo valor. Na realidade até mesmo, pois gozar com a coisa até deu mais votos. Sintomático!

Em resumo, tal como era mais que previsível, os candidatos canhotos todos juntos valeram 4,38%. Ridículo, mas no rescaldo da derrota, continuam a dizer que vão andar por aí, como se continuem a falar em nome dos pseudo-3 milhões que dizem ter agregado na Greve Geral. Tretas! Tretas! Tretas!

Quanto ao resto, votei Cotrim, em nome da defesa aos ataques sem precedentes de que foi alvo, sobretudo pela nossa canhota comunicação social. Na eleição próxima, que definirá a figura que habitará o palácio de Belém, votarei convictamente em António José Seguro, muito pelo que escrevi em 7 de Março do ano transacto, mas por mais.

O vencedor desta primeira volta, pode não ser deslumbrante, nem político manhoso e interesseiro, e por isso tão desconsiderado por figuras gradas do seu partido, que agora, engolindo sapos e rãs, saem da toca com as mãozinhas quentes para as habituais palmadinhas nas costas e afagos pelo pêlo. Deste vez não foi por poucoxinho. Já agora, estou a aguardar pelas consideração do autor do golpe palaciano, o Sr. Costa.  Como todos os demais, vai ter de engolir e debitar coisas simpáticas. A melhor vingança (não que veja Seguro como vingativo e rancoroso) serve-se fria. Em todo o caso, não deve esquecer.

No resto, não acredito que a próxima eleição seja entre a esquerda e a direita. Se fosse, André Ventura já estava eleito. Mas não, parece-me, será sobretudo entre o radicalismo e a moderação e bom senso. É certo que considero que as coisas já lá não vão com paninhos quentes,  com mais do mesmo, mas seguramente, neste quadro de opções, não será com Ventura, mas seguramente com Seguro mesmo que deste não se esperem arrojos.

Fora do que foi a eleição, o habitual, com uns a transformarem isto em eleições legislativas, recados, cartões amarelos e vermelhos, derrotas em vitórias, blá, blá, blá.

A novela segue dentro de momentos!

15.01.26

Onde estarão "os 3 milhões"?


a. almeida

Não sou dos que acreditam "às ceguinhas" em sondagens, desde logo porque sabemos que, de um modo ou de outro, são manipuladas consoante os interesses que pretendem servir. Quando muito, funcionam como meros indicadores. Ainda assim, no que toca à cauda da tabela, poucas dúvidas tenho de que a percentagem de votação andará ali pelos 3% ou abaixo disso.

António Filipe, Catarina Martins, Jorge Pinto e os habituais bobos da corte terão de se contentar com as migalhas do costume. Tirando a vertente cómica, que apenas desprestigia o acto eleitoral, os candidatos da velha esquerda, todos juntos, dificilmente ultrapassarão os 6%. E, no entanto, todos eles falam empenhadamente em nome dos trabalhadores, da classe operária, dos problemas do SNS, dos malefícios do pacote laboral, da defesa da Constituição, a de Abril, a deles.

Ou seja, são poucos, muito poucos, os que lhes dão crédito. Onde estão os “3 milhões” que, segundo a sua narrativa, lhes deram voz aquando da greve geral? O problema, nestas contas, é simples: os votos contam-se com rigor, enquanto que, nas greves, tudo não passa de uma espécie de adivinhação a olhómetro, onde entram para a soma até aqueles que foram arrastados por falta de transportes e de quem lhes abrisse as portas dos serviços, mesmo contra a sua vontade.

Nesse sentido, uma eleição é sempre clarificadora quanto ao real peso dos valores que essa esquerda caduca diz defender. O problema talvez nem esteja nos valores em si, porque muitos deles também eu defendo, mas sim na forma e nos métodos. É aí que têm falhado e é aí que, eleição após eleição, insistem em não aprender.

Costuma-se dizer que nunca é tarde para aprender, mas esta gente desconhece o ditado.