Pintou-se de negro o céu,
Tão negro como de carvão,
Numa paleta enfarruscada,
Em promessa de tempestade.
Daí a nada, rasgou-se o véu
Num súbito e denso clarão,
Irrompendo dele a trovoada
Caindo, raivosa, em liberdade.
Portas e janelas fechadas,
Gente e bichos nos buracos,
Porque a fera mete medo
Do mais velho à criança
Mas de nuvens já clareadas,
No céu aberto em farrapos,
Espreita o sol em segredo
Num aviso de há bonança.
Portas e janelas já abertas,
Os bichos, esses todos fora,
Aves no sossegado chilreio,
O sol todo janelas adentro.
Há assim, em horas incertas,
O saber que tudo tem hora
E que algures, lá pelo meio,
Há o equilíbrio, o centro.
Não há mal que sempre dure
Nem bem que não se acabe,
Diz, de sabida razão, o povo;
Talvez a doença até nos cure,
O final do mal, quem o sabe,
Seja o bem a nascer de novo.