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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

08.05.24

Revelação


a. almeida

Desde o abandono do ventre
Ninho seguro, materno,
Até à descida à sepultura,
Que somos dúvida certa,
Agarrada à alma, permanente,
Num modo de ser eterno
Que pode levar à loucura
Ou, somente, à descoberta.

Não há em toda a nossa vida
Certezas dadas, garantidas,
Que nos façam fazer caminho
Sem hesitar no cruzamento;
Mas há sempre uma partida
Com lágrimas, despedidas,
E nessa dor, no ficar sozinho,
Revela-se o fundamento.

03.05.24

Vaidades


a. almeida

o rei vai nu.jpg

Fede no ar um cheiro a petulância,
A suor de sovacos de novos heróis
Sem poderes e façanhas nenhumas,
De gente a dizer perceber da poda.


Mas se espremidos só sai ignorância,
Tretas, vãs banalidades, futebóis,
Vaidades vistas num rabo de plumas,
Inventores novos da pólvora e roda.

Em suma,
Coisa nenhuma,
Fome sem apetite,
Um déjà vu;
Mas, porra,
Já sem pachorra,
Alguém que grite,
- O rei vai nú!

02.05.24

Abraço


a. almeida

casamento[4].jpg

Dá-me um abraço,
Apertado, sereno,
Para que eu desponte
Assim, guiado,
Direito,
Voltado ao sol.

Dá-me um abraço,
Num enlace pleno
Como a fraga ao monte,
A sentir, ritmado,
No peito,
O coração mole.

01.05.24

Já é Maio


a. almeida

Designer (2).jpeg

Olha, amor, já é Maio,
Da primavera em festa,
Embriagada de aromas.

Manhãs frescas
De orvalhos límpidos,
Cintilantes,
Tardes mornas,
Doces, de promessas
Aconchegantes.

Já floriram as laranjeiras
E os goivos brancos e lilás
Perfumam o cantinho do jardim.

Olha, amor, já é Maio,
Da primavera das flores,
Das sinfonias de chilreios,
Do amor de ramo em ramo,
Dos ninhos aveludados
Das flores nos caminhos,
Como que à espera
De procissões.

Olha, amor, já é Maio,
E não tardam os beijos de amoras,
Lábios de cerejas,
Abraços de jasmim
E êxtases de rosas, enfim.

18.04.24

Quadro cinzento


a. almeida

No céu da velha Europa

Há névoas a amortalhar a plenitude

Da liberdade conquistada,

De cada homem, mulher, criança,

Como se toda fora vã a esperança,

A de viver, somente viver.

 

Já não há neste jardim a quietude

De uma rosa fresca cheirada,

De uma carícia desejada,

De um sol morno pela manhã,

De um retempero fraternal.

 

Há uma ânsia desmedida,

A de ceifar a vida, a esborratar

A frescura de um desenho infantil,

Devastando as coloridas flores mil,

Pintando um triste e vil excremento

Num quadro só de cinzento.