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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

13.08.25

Oh, quem me dera


a. almeida

flores pessegueiro.jpg

Nestes dias em que o fogo vocifera,
Num manto denso de chamas vorazes,
A tragar o verde, a vomitar carvão,
Oh, quem me dera, sim, quem me dera
Que minhas lágrimas fossem capazes
De extinguir a braseira deste Verão.

Cansado, dolente, já desejo a frescura
De um Maio de fragrâncias adocicadas,
De brisas frescas que a manhã nos traz,
Ou de um Outono doce de fruta madura,
A prometer neblinas, manhãs de geadas,
Um aconchego morno que só tu me dás.

Oh, quem me dera, sim, quem me dera!

31.07.25

Agora que a tempestade passou


a. almeida

cabelo flores.jpg

De nada vale viver entre feridas
Profundas, cruéis, dolorosas,
Quando apenas o amor interessa
Se vivido em abraço pleno.
Porquê, então, desperdiçar vidas
Em labutas desesperançosas,
Em constante e cansada pressa,
A transformar o grande em pequeno?

Agora que a tempestade passou,
O vento não é mais que brisa
A fazer dançar o teu cabelo
Todo entrançado em flores.
Agora que já descobri o que sou
A minh´alma mais nada precisa
Do que amar-te com desvelo
E seguir-te p´ra onde fores.

27.06.25

O canto da terra


a. almeida

Não sou músico nem poeta
De Orfeu e Homero não recebi lar
Por isso, deles o que faça,
Haverá de ser coisa feia.

Mas, se até a um perneta
Não se nega o direito a caminhar,
Mesmo que pobre, sem graça,
Hei-de cantar minh´ aldeia.

Merece ser toda e bem cantada,
Mesmo que pelos grilos e aves,
O negro melro, o rouxinol, o pisco,
Numa sinfonia em entoação.

O poema pode ser a terra lavrada
Pela charrua em versos suaves,
O semeador a desenhar um risco
Donde brotará o fruto do pão.

13.06.25

Bonança


a. almeida

Pintou-se de negro o céu,
Tão negro como de carvão,
Numa paleta enfarruscada,
Em promessa de tempestade.

Daí a nada, rasgou-se o véu
Num súbito e denso clarão,
Irrompendo dele a trovoada
Caindo, raivosa, em liberdade.

Portas e janelas fechadas,
Gente e bichos nos buracos,
Porque a fera mete medo
Do mais velho à criança

Mas de nuvens já clareadas,
No céu aberto em farrapos,
Espreita o sol em segredo
Num aviso de há bonança.

Portas e janelas já abertas,
Os bichos, esses todos fora,
Aves no sossegado chilreio,
O sol todo janelas adentro.

Há assim, em horas incertas,
O saber que tudo tem hora
E que algures, lá pelo meio,
Há o equilíbrio, o centro.

Não há mal que sempre dure
Nem bem que não se acabe,
Diz, de sabida razão, o povo;

Talvez a doença até nos cure,
O final do mal, quem o sabe,
Seja o bem a nascer de novo.