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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

18.09.25

Sentimentos defuntos


a. almeida

Escritor que leio e de quem gosto, J. Rentes de Carvalho — infelizmente já a caminho dos 100. E digo “infelizmente” pela pena e pela impossibilidade do que ainda poderia ser escrito, caso, por uma força cósmica, conseguisse viver, lúcido e inspirado, mais outro cento de anos. Essa pena fica-me agravada quando penso em todos os génios que partiram precocemente — Mozart, Carlos Paião, tantos mais. O que não comporiam e cantariam se chegassem à bonita idade do português mais holandês de Portugal!

Do muito que escreveu e do que tem deixado como reflexão, recordo a recomendação: quanto a livros, “... dedicatórias impressas na primeira página? Nunca. Os amores morrem, as amizades perdem-se, chega sempre o tempo em que é doloroso o confronto com as palavras que exprimem sentimentos defuntos.”

Dá que pensar, e é verdade. Mas, se isso é válido para os livros, quanto mais para a espuma das redes sociais, onde hoje há juras públicas de amor eterno, namorados e casais enlaçados como numa eterna lua de mel, como se fossem unha e carne — exemplos de tudo quanto é fofura cor-de-rosa — e, num repelão, ao primeiro sopro, o castelo de cartas rui, sem fundação que lhe valha ou que deixe algumas pedras de pé.

Será, pois, de evitar essa excessiva exposição na praça pública, de casos e intimidades que, na maior parte dos casos, não deviam passar da porta do quarto nem do portão da rua.

Evitemos, novos e velhos, pormo-nos a jeito para o que, a curto prazo, poderão ser “expressões de sentimentos defuntos”.

29.05.25

O valor da palavra - ou a falta dele


a. almeida

Dizia o nosso povo, e uso o pretérito imperfeito do modo indicativo, porque isso era noutros tempos, que não os de agora, que “palavra dada, palavra honrada”.

Mesmo que mais lenda que facto, os mais velhos terão aprendido na escola primária o quadro da nossa História em que face à incapacidade de cumprir a sua promessa em nome de D. Afonso Henriques, o aio D. Egas Moniz se fez apresentar perante D. Afonso VII, rei de Leão, com a sua família, com a corda ao pescoço, num sinal de oferta das suas vidas como penhor da palavra não honrada.

A palavra dada, e honrada, é um dos pilares mais antigos e fundamentais da convivência humana. Mesmo antes dos contratos escritos, eram as promessas verbais que definiam alianças, acordos, parcerias e até destinos inteiros de pessoas e reinos. Dar a palavra é mais do que falar — é empenhar algo de si mesmo. É colocar a própria honra em jogo. Quando alguém diz "eu prometo", "pode contar comigo", ou "estarei lá", está, de forma simbólica, estendendo a mão e oferecendo confiança.

Assumir um compromisso mesmo que não escrito, porque a palavra é volátil e não deixa vestígio, é reconhecer a responsabilidade que vem com a confiança depositada. É compreender que alguém dependerá da sua presença, da sua acção, da sua fidelidade àquilo que foi dito. E isso vale tanto para compromissos grandes, como um contrato de trabalho, quanto para pequenas coisas do dia-a-dia.

O valor da palavra está justamente na coerência entre o que se diz e o que se faz. Uma palavra honrada constrói reputações sólidas, fortalece vínculos e inspira respeito. É a base da confiança, sem a qual não há relacionamentos duradouros, nem comunidades verdadeiramente unidas. Logo, quem se compromete com a palavra e a honra, mostra o valor do seu carácter. O contrário também.

Por outro lado, quando a palavra é quebrada, quando o compromisso não é honrado, o dano vai além da situação pontual. Rompe-se um elo invisível. A decepção que nasce do não cumprimento de uma promessa fere mais do que o atraso ou o erro prático. Ela fere a confiança. E confiança, uma vez quebrada, é difícil de reconstruir.

A falha da palavra revela descuido, desrespeito, às vezes até desinteresse ou interesses mesquinhos ou objectivos negativos. Não cumprir o que se prometeu é dizer, com acções, que o outro não importa tanto quanto parecia importar no momento da fala. É banalizar o compromisso, transformar o que deveria ser sagrado em algo descartável, mutável, adaptado às conveniências.

Por isso, é sempre melhor prometer menos e cumprir tudo, do que prometer muito e falhar. E quando a falha acontece — pois todos somos humanos — o mínimo que se espera é a humildade de reconhecer, pedir desculpas e buscar reparar.

No fim, a palavra é um reflexo daquilo que somos. Quem cuida do que diz, cuida também das relações que constrói. E num mundo tão cheio de ruídos e desconfiança, ser alguém cuja palavra tem valor é um acto de coragem, de caráter — e, sobretudo, de humanidade.

Em todo este contexto, não raras vezes, são os políticos, com mais ou menos impacto ou responsabilidades, nacionais ou locais, acusados de serem pouco cumpridores de promessas, compromissos, da palavra dada. Por dificuldades próprios ou simplesmente por despeito, estratégia e conveniência pessoal ou de grupo, facilmente se “vira o bico ao prego”, desonra a palavra, reduzindo-a a um valor de lixo, como se nunca tivesse sido proferida.

Sendo certo que ainda há políticos, pessoas e entidades que fazem por honrar a palavra dada, cumprir as promessas ou compromissos, infelizmente, vai sendo corrente o incumprimento, mais ou menos descarado, grosseiro, talvez porque o valor ou significado da honra ande, de há muito, desonrado.

Definitivamente, já não somos feitos da mesma massa dos nossos antepassados. A honra ou a desonra, a palavra ou a falha dela, valem agora tanto como dez réis de mel coado.

11.04.25

O que é rezar?


a. almeida

Aprendi a rezar em criança, ensinado pela minha avó e pela minha mãe.
Elas transmitiram-me hábitos de oração, sobretudo a devoção ao anjo da guarda, a quem recorriam com frequência para que eu fosse um bom menino.

Habituadas às lides do campo e dos montes, tinham uma fé simples e profunda. Para tudo pediam auxílio ao Criador:

-Com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo.
Que Deus nos livre da fome, da peste e da guerra!

Hábitos que nunca esqueci ao longo da minha vida, e que guardo em mim como uma memória sagrada.

Mas sempre me questionei: o que é, afinal, rezar? Como se reza?

Durante muito tempo, tive a ideia de que rezar era pedir algo que queríamos muito que acontecesse — ou algo bom para alguém.
Confesso que nunca me senti muito atraído por essa forma de rezar…

A vida é uma dádiva!
Nunca me canso de agradecer esta maravilhosa viagem que é a minha vida.
Procurei sempre estar do lado bom da vida e, nas minhas pequenas orações, dou graças e peço paz para o mundo, protecção para mim e para os meus.

Interiorizei, desde muito novo — talvez por influência da minha mãe — que rezar é falar com o coração.
Mas o que significa, afinal, falar com o coração?

Significa que, quando deixamos o coração falar e dizer o que sente, as palavras que saem da nossa boca vêm das profundezas da alma e passam pelo coração.

O Evangelho recorda-nos:

"A boca fala do que o coração está cheio…” (Lc 6,45)

A tradição cristã ensina-nos que devemos usar as palavras para elevar, nunca para diminuir ou esmagar.

E como se aprende a falar com o coração?
Aprendemos a pensar bem, a desejar o bem — a paz, a justiça, a saúde e o amor — com humildade, sem invejas nem ressentimentos.

Assim é, para mim, rezar com o coração.
Assim aprendi a rezar as minhas orações.
Assim me sinto perto do Senhor — como Ele de mim.

 

Nota: Reflexão de um amigo (o Carlos). Partilho porque podia ser minha, porque com o mesmo sentimento.

20.12.24

A máquina a esmagar o talento


a. almeida

Vivemos em plena era de transformação tecnológica sem precedentes. E dizem que a procissão ainda vai no adro da igreja. A IA - Inteligência Artificial, com a sua capacidade de aprender, imitar e criar, tem desafiado noções tradicionais sobre o que significa ter talento, formação e dispôr de criatividade. No entanto, essa revolução também está a trazer à odem do dia uma preocupação profunda: a desvalorização do talento humano, sobretudo nos campos das artes, nomeadamente na gráficas e na escrita.

Durante séculos, a criação artística e literária foi um reflexo da alma humana, um testemunho, um extravasar das nossas emoções, vivências e histórias únicas. Quando lemos um romance ou um poema, admiramos uma pintura ou ouvimos uma música, somos tocados não apenas pelo produto final, mas pela jornada do criador, pelo esforço, pelo contexto que dá vida e sentimenti à obra. No entanto, o surgimento de ferramentas de IA - Inteligência Artificial capazes de produzir textos, imagens, vídeos e até melodias indistinguíveis das criações humanas desafia a percepção do valor desse esforço, desse talento natural ou aprendido.

A facilidade e velocidade com que a IA cria conteúdos podem levar, e levam de certeza, à banalização do processo criativo. Quando tudo está à disposição com um clique, perde-se a noção do tempo e dedicação que outrora eram necessários para produzir uma obra. Talentos cuidadosamente cultivados ao longo de anos de prática podem agora ser rapidamente eclipsados ou disfraçados por algoritmos que replicam padrões e estilos sem a bagagem emocional ou ética só ao alcance do ser humano.

Este cenário e contexto levantam várias questões mas uma crucial: estamos confundindo a habilidade técnica com a profundidade artística? O talento humano não reside apenas na execução, mas na perspectiva única de cada indivíduo, na sua capacidade de interpretar o mundo e transpor isso para formas que ressoam com os outros. A IA, por mais impressionante que seja, carece dessa subjectividade. Ela não sente, não vive, não ama, não sofre. Tudo o que produz é uma síntese de dados, uma simulação, por mais convincente e até incrível que pareça. 

A desvalorização do talento humano nas artes e escrita reflete uma sociedade que, muitas vezes, prioriza a eficiência e o faz de conta sobre a autenticidade. As obras de arte e os textos que antes eram celebrados como expressões de identidade agora competem com criações instantâneas, despojadas de contexto humano. Isso não apenas ameaça o sustento dos artistas e escritores, mas também empobrece nossa cultura, tornando-a menos conectada à condição humana.

Estamos nesta: Um qualquer rabisco ou patadas de tinta feitas pelo meu cão numa tela valem rigorosamente zero, mas milhões sabendo-se que foram feitas por um Picasso, Miró ou outros mestres dos gatafunhos. Ora que valor dar a uma magnífica tela produzida pela IA com base em meia dúzia de tópicos? Quem dá mais? Provavelmente aparecerá sempre alguém, pois se  há quem pague milhões por uma reles bana afixada na parede de um museu com uma fita cola da loja dos 300, porque não, por algo feito pela máquina? Tempos estranhos estes!

É fundamental que, como sociedade, não percamos de vista o verdadeiro valor da arte e da escrita humana. Devemos aprender a apreciar a diferença entre uma criação que é fruto de experiências vividas e uma que é o resultado de cálculos algorítmicos. Mais do que nunca, é vital o resgatar o respeito pelo talento, pela dedicação e pela vulnerabilidade que acompanham o acto de criar.

Mais do que nunca, a humanidade deve abraçar aquilo que nos torna únicos e insubstituíveis: a nossa capacidade de sentir, interpretar e contar histórias de formas que transcendam o mero funcionamento de máquinas. Só assim poderemos garantir que o talento nas artes e na escrita não seja reduzido a um resquício nostálgico de um passado pré-tecnológico, mas continue a ser celebrado como a essência da nossa humanidade.

Para já, se impossível é travar o processo, importa criar macanismos e regras para, pelo menos, detectar, descobrir e mesmo penalizar os lobos disfarçados com peles de cordeiros ou impedir que se coma gato por lebre. Em resumo, mais do que nunca, diferenciar e valor o que ainda é feito com base no talento natural e no esforço.

O monstro anda à solta!

05.12.24

Indecisão


a. almeida

Eis-me aqui, onde os caminhos se cruzam,
Envolto na frágil decisão de qual seguir.
O que me espera em cada um deles?
Um sonho a viver ou uma dor a consumir?

Devo avançar ou parar no tempo,
Ouvir o vento, sentir o momento?
Ou desvendar o segredo que esvanece,
Deixar que a vida, por si, se confesse?

Não! Avançarei sem olhar para trás,
Pois o caminho só se faz a caminhar.
O que me espera? Não quero saber!
Basta o instante, o passo e o viver.

Escolherei, então, sem medo ou rancor,
Pois todo caminho levará ao amor,
Não ao mais fácil, mas ao profundo,
Que nasce do encontro com o mundo.