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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

08.09.25

Não stive presente


a. almeida

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Sendo um dos meus autores preferidos, concerteza que gostaria de ter estado presente no lançamento do livro "Eça & Outras 2.J.Rentes de Carvalho 95 anos". Desconheço, de todos quantos foram convidados a "star" presentes, quantos participaram, mas acredito que muitos, mesmo que nestas coisas de livros não se esperem multidões como num qualquer festival de música, mesmo que com entrada gratuita.

Em todo o caso, mesmo sabendo que as gralhas são frequentes, e que sem mais nem menos lá trocamos ou comemos algumas letras, não seria descabido que um convite de tão ilustre associação sobre o lançamento de um livro, fosse visto e revisto antes de "star" pronto a divulgar.

Poderia ter sido pior, mas entre o "estar" e o "star" vai apenas uma letrinha. Mas quem não gosta de olhar uma estrela da sorte? Look at the star, the lucky star!

Quanto a Rentes de Carvalho, continuo a ter na memória o privilégio de com ele ter estado na sua aldeia de Estevais, dos livros que me ofereceu e dos que autografou. 

12.08.25

Os contos do José da Xã


a. almeida

Acabei de ler os dois livros que simpaticamente me ofereceu o José da Xã

Li com todo o gosto, e no geral apreciei bastante. Sendo que gostei mais de alguns contos do que de outros, o que é normal, em todos consegui captar emoções, sentimentos e mensagens.

A escrita do José é envolvente, descritiva, e coloca-nos facilmente nos diferentes ambientes,  juntos e mesmo na pele das personagens — quase como se estivéssemos a assistir in loco.

Dentro dos meus gostos pessoais, e cada leitor tem as suas manias, senti que alguns finais ficaram com algo em aberto, como se a pedirem um desfecho mais forte, mas, ainda assim, na maioria, sintomáticos e mesmo a deixarem uma introspecção, quase como a convidar o leitor a concluir de acordo com a mensagem que extraíu de cada história, pelo que cada final pode ter diferentes conclusões.

Fico agradecido ao José pela oferta e deixo o meu incentivo para que continue a escrever — porque, com essa capacidade narrativa pode facilmente entrar em algo mais ambicioso.

14.01.25

Um grande escritor


a. almeida

Sem perceber o verdadeiro alcance da questão, um visitante, no contexto de um anterior artigo relacionado com J. Rentes de Carvalho, que leio e aprecio, e que, por isso, tenho-o como "grande escritor", perguntava-me, nos comentários, o que era para mim "um grande escritor".

A resposta adequada dependeria sempre do propósito da pergunta, porque esta poderia ter implícita alguma ironia, crítica, contradição, etc. Poderia ser uma pergunta introspectiva ou meramente inocente. Por isso, mereceria uma longa e explicativa resposta ou apenas um gracejo curto e grosso.

Em todo o caso, e em sentido geral, parece-me que classificar um autor como "grande escritor" pode significar várias coisas, dependendo do contexto e dos critérios utilizados. Essa expressão carrega uma dimensão subjectiva e, ao mesmo tempo, associa-se a certos padrões amplamente reconhecidos. A seguir, algumas interpretações possíveis:

Qualidade Literária
Um "grande escritor" é frequentemente associado à excelência na qualidade da escrita: estilo sofisticado, originalidade, criatividade e habilidade técnica no uso da linguagem, conseguindo transmitir ideias, emoções e histórias de maneira cativante e inovadora, mostrando um domínio do ofício.

Impacto Cultural
Um escritor pode ser considerado "grande" pela sua influência duradoura na cultura, moldando a literatura ou a sociedade de forma significativa.
Os seus trabalhos, as suas obras, frequentemente transcendem gerações, sendo lidos, discutidos e adaptados em contextos variados.

Profundidade Temática
Um grande escritor é, muitas vezes, aquele que aborda questões humanas, sociais, políticas ou filosóficas de maneira profunda e universal.
Pode iluminar aspectos da condição humana que ressoam em diferentes épocas e culturas.

Reconhecimento Crítico e Popular
A obtenção de prémios, aclamação recorrente da crítica e impacto na academia literária podem contribuir para classificar alguém como "grande escritor".
Entretanto, também se reconhecem escritores cujas obras, em diferentes tempos, lugares e contextos, atingiram grandes públicos e se tornaram clássicos populares.

Inovação e Originalidade
Um grande escritor pode ser aquele que desafia convenções literárias, introduzindo novas formas, estilos ou géneros que revolucionam a literatura.

LIgação com os Leitores
A capacidade de criar personagens memoráveis e histórias que ressoam emocionalmente com os leitores é uma característica marcante.
Mesmo escritores que não seguem convenções podem ser considerados grandes pela forma como cativam os seus leitores.

Legado
O tempo é frequentemente um critério decisivo: um grande escritor é aquele cuja obra permanece relevante e admirada mesmo após a sua morte. Não nos faltam exemplos a nível mundial e mesmo em Portugal.

Em resumo, chamar alguém de "grande escritor" é, muitas vezes, reconhecer uma combinação de habilidade técnica, profundidade temática, impacto cultural e legado duradouro. A subjectividade está sempre presente, pois os critérios podem variar entre leitores, culturas e períodos históricos.

Não obstante, o que é, para muitos, um "grande escritor" para muitos outros nada diz. Por exemplo, mesmo tendo sido reconhecido com o Nobel da Literatura, não consigo ler nem apreciar a obra de Saramago. E mais exemplos poderia citar.

Em suma, um grande escritor é, sobretudo, aquele que nos diz algo da forma como melhor o sentimos. Neste sentido, e independentemente do que possam dizer os entendidos e analisar os críticos, repetindo-me, tenho como "grande escritor" J. Rentes de Carvalho. Uma folha com uma sua crónica ou um curto apontamento de diário diz-me mais do que um calhamaço de Rodrigues dos Santos.

Sei que ainda é desconhecido, não faz parte dos círculos dos experts, nem é de esquerda, o que não o ajuda no nosso meio, mas basta-me que seja o que é, sem tirar nem pôr.

08.11.24

Nem todos somos osórios


a. almeida

Não sou leitor nem ouvinte regular do Luís Osório no seu “Postal do dia”. De quando em vez, sim.

Quase sempre concordo e aprecio, mas nem sempre. No fundo é muito previsível no que escreve e “politicamente correcto” quanto baste. Procura não ferir susceptibilidades porque sabe que neste mundo-cão das redes sociais os julgamentos são fáceis e alvos de artilharia de quem não se conhece e a ser disparada de todos os lados. Basta uma palavra mal colocada, uma apreciação sinuosa fora da linha recta, a ponta do pé fora da argola, para aqueles centos de habituais comentários positivos, alguns untuosamente elogiosos, se transformarem nas mais duras “facadas” com apreciações mais ou menos ofensivas.

O Luís Osório sabe isso melhor que ninguém e por isso vai dizendo e escrevendo num estilo que agrada à larga maioria, quase sempre não deixando ponta sem nó e para cada palavra mais contundente logo coloca por baixo uma almofada, se uma ideia desalinha do molde logo a suaviza no parágrafo seguinte. No fundo como a experiente enfermeira a acariciar o músculo antes de lhe espetar a agulha.

Lançou agora o Luís Osório um livro, um calhamaço de 376 páginas, composto por muitos desses postais que considera intemporais e que por isso tanto podem ser lidos hoje como daqui a anos porque sempre actualizados no que pretendem transmitir, justifica. Concordo, nem poderia ser diferente. Está já nos melhores escaparates.

Apesar da apreciação acima, não quero com ela julgar o Luís Osório, mas antes expressar uma pontinha de inveja por não sermos todos osórios, não tanto pela qualidade do que escreve, que me é superior, mas por não ter eu, nem centenas ou milhares de osórios neste pobre país, o palco necessário à divulgação da escrita e da sua publicação. Nem presidentes da república a prefaciar. Não é para todos, seguramente para um qualquer Zé da Esquina por mais bem que escreva,

De resto, mesmo que num mercado à nossa medida, pequeno, atrofiado, há ainda muitos osórios com boa plateia, amplos palcos e tempos de antena onde podem vender facilmente o produto, porque as editoras os conhecem. São chamados como ilustres convidados às rádios, às televisões, aos jornais e revistas, numa promoção gratuita. Tudo é fácil e invariavelmente o que escrevem vender-se-á na primeira e segunda fornadas como pãezinhos quentes já com manteiga.

Já tive umas coisitas escritas para dar livro e algumas editoras até se interessaram e dispostas a fazer contrato, com as coisas a serem feitas como com a gente graúda da escrita, mas no essencial vai sempre dar ao mesmo, em que logo à cabeça o escritor anónimo, ilustre desconhecido do meio, tem que comprar à sua conta uma quantidade tal de exemplares que logo paga os custos da publicação e ainda o lucro suficiente para a generosa editora. O resto, do pouco que se vender, ainda será lucro para quem editou e apenas uns trocos para quem escreve. Será de supor que depois dessa primeira fornada, o livro que daí resultou sai dos escaparates, se lá tiver chegado, e arrumado da prateleira de baixo para desocupar espaço. Assim, dessa primeira ilusão, a coisa passa rapidamente ao esquecimento e o autor, continuamente anónimo a tentar vender a amigos e a familiares a porrada de livros que teve de adquirir para não ficar com o prejuízo todo. E nem todos são Sócrates com amigos reconhecidos a garantir a compra da edição. É mais ou menos assim, porque já estive no limiar desse processo e porque o diz quem melhor sabe do meio.

Assim sendo, esta coisa de arrumar as ideias em escrita ainda vai compensando mas sobretudo para os osórios e outros que beneficiam dos palcos já montados, dos padrinhos já conhecidos. Certamente que alguns tiveram que escalar até aí chegar, mas no geral basta desfraldar a vela porque o mar está de feição e o vento sopra para o lado certo.

01.06.24

Livros - Lamento os que me faltam


a. almeida

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Não sei quantos livros tenho,
De romance, aventuras, poesia,
Realidade ou simples quimera,
Nem os quero contar, confesso.
Sei quanto deles obtenho,
Como aconchego em noite fria,
Dois braços abertos na espera
Por alguém perdido em regresso.

Mas tenho muitos, centenas,
Um oceano de páginas revoltas
Em ondas de prosas e versos
Que fustigam o barco do meu ser.
Mas dez que fossem, apenas,
Seriam aves livres, bem soltas,
Pensamentos densos, dispersos,
Convergentes no impulso de ler.

Não sei, nem saber me empenho,
Nem vontade ou querer me assaltam,
Porque mais saber os que tenho,
Choro, lamento os que me faltam.

27.05.24

Em Estevais com J. Rentes de Carvalho


a. almeida

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Sozinhos ou na companhia de bons amigos, podemos fazer, 100, 200, 500 ou mais quilómetros, ver paisagens incríveis, lugares maravilhosos, sobretudo como os de Trás-os-Montes, transpor rios cantantes, atravessar ou percorrer aldeias pitorescas, ouvir histórias de vida ou meras curiosidades locais, colher cerejas do ramo de uma generosa sardeira, saborear os melhores pratos, degustar os mais frescos vinhos, mas delas curtas ou longas, valem as que acabam por ser peregrinações, pelo lado humano e mesmo espiritual que absorvemos. Foi já assim, há tempos, com a visita a um dos meus mestres das letras, o Miguel Torga, presente espiritualmente por ali naquelas paisagens simultaneamente rudes e acolhedoras, do seu reino que pintou como “maravilhoso”, fosse pelo negrilho que povoou o seus poemas, fosse já no repouso eterno na campa simples e rasa escondida num canto do cemitério da aldeia, mas agora, com a graça de ainda andar entre nós, deu-se a conjunção de certos astros para que pudesse ter a alegria de poder ser recebido por J. Rentes de Carvalho, interrompido no trabalho e do sossego da sua casinha na remota aldeia dos Estevais, ali pelo Mogadouro, onde tem raízes profundas.

A caminho do centenário, é este um dos meus autores preferidos e partilho com ele alguma amargura de só tardiamente ser descoberto e reconhecido no nosso e seu país, apesar de já ser tanto holandês como transmontano. Mesmo no seu município, onde o simples Trindade Coelho é orgulho local, só agora, aos 94 anos de idade, vai dar o seu nome à Casa da Cultural. Não é muito mas é alguma coisa.

Foi um tiro no escuro, um tiro de sorte ou apenas uma premonição, mas certo é que a minha passagem por Estevais rendeu frutos. Como escreveu na dedicatória num dos livros por si autografados, apareci como "um padre", porque sem anunciar, mas fui recebido e vi autografados a meia dúzia de livros que levava nessa esperança e ainda com a graça acrescentada de receber outros tantos como generosa oferta. E não digo que tive o privilégio, porque ao dizê-lo olhos nos olhos, ele corrigiu-me dizendo que "os privilégios não se recebem, oferecem-se". E ele ofereceu-mo!

Obrigado J. Rentes de Carvalho. Missão cumprida. Já pode colocar o aviso no portão da casa para não ser incomodado. De facto não se incomoda um artista na hora do seu trabalho, na criação, na sua própria casa, na sua aldeia. Bem haja!

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22.02.24

O que vale é que a mãe não vai ver isto


a. almeida

O WOOK não é só uma plataforma de venda de livros, como todos os dias obriga-nos a ler, emails. É o que dá comprar alguns livritos, porque a partir daí o nosso correio, várias vezes ao dia, recebe propostas às pazadas. Só hoje, blá-blá-blá menos 20%, ou de 10 a 30%, aproveite, última oportunidade. Mas no dia seguinte mais do mesmo.

As promoções sucedem-se e sabemos nós que na realidade aqueles preços rasurados, que supostamente são os base, não são os reais e quase ninguém compra os correspondentes livros por esse valor. Também um pouco como nas promoções ardilosas do Continente em que vinhos com nomes todos supimpas, tipo "Quinta do Burro Velho" ou "Monte do Sobreiro Dourado",  que quase ninguém conhece ou já bebeu, porque na realidade só existem na tola dos publicitários e estrategas de marketing, aparecem com um "antes 15,00 euros",  agora 3,45 euros".  Um fartote de promoções de 30, 50 e 75%. Ainda há gente boa!

- Ó mãe! Mãe! Anda cá ver isto!