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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

22.01.26

Num tempo da merdificação


a. almeida

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Vivemos um momento singular da história criativa. Nunca foi tão fácil produzir imagens, textos, ilustrações, composições visuais e conteúdos gráficos de aparência mais ou menos rebuscada ou sofisticada. Bastam alguns comandos escritos (prompts), algumas palavras-chave bem formuladas,como as que fiz para o cartaz que ilustra este artigo, e a inteligência artificial devolve, em segundos, aquilo que antes exigia talento, anos de estudo, prática e amadurecimento artístico. Esta facilidade, porém, levanta uma questão essencial: estaremos a assistir à democratização da criatividade ou à sua banalização, como se todos possamos ser artistas criativos e talentos, mesmo que prática sejamos incapazes de desenhar o ovo.

A proliferação de conteúdos gráficos gerados por inteligência artificial, nomeadamente através de plataformas como a popular ChatGPT e outros sistemas generativos, está a inundar as redes sociais, mas não só. A estética passa a sobrepor-se à intenção, o impacto imediato substitui o processo reflexivo, e a originalidade dilui-se numa repetição algorítmica de padrões já existentes. O resultado é um mar de conteúdos visualmente apelativos, mas, no geral, sob um ponto de vista artístico, vazios ou de gosto merdoso. Na realidade e na essência, esses processos usam trabalhos e obras de terceiros, sendo que a verificação é quase impossível, logo igualmente impossível reclamar direitos.

A arte sempre foi, antes de mais, um exercício de consciência, sensibilidade e risco. O verdadeiro talento nasce da inquietação, do erro, da dúvida, do conflito interior e da tentativa constante de traduzir emoções, experiências e visões únicas do mundo. A criação artística é um percurso, não um produto instantâneo. Quando este processo é substituído por uma resposta automática, sem qualquer custo, perde-se a essência da expressão humana, até mesmo a imperfeição que torna cada obra irrepetível.

A vulgarização surge precisamente neste ponto: quando a produção massiva esvazia o significado. O acesso fácil a conteúdos gerados por IA promove uma cultura de consumo rápido, onde o valor da obra é medido pela sua capacidade de gerar cliques, partilhas e reações imediatas. Neste cenário, o tempo da contemplação, da interpretação e da crítica é reduzido ao mínimo. A arte transforma-se num mero artefacto visual, descartável e substituível. Desconfio que a curto prazo vamos ficar enjoados de tanta fartura visual, de imagem ou vídeo, de mais do mesmo, mas se algum dia a situação será revertida, já não acredito.

Muito preocupante, ainda, é o impacto deste fenómeno sobre os criadores humanos. Ilustradores, designers, fotógrafos, escritores e artistas em geral veem o seu trabalho competir com produções instantâneas, gratuitas e ilimitadas. A desvalorização económica acompanha inevitavelmente a desvalorização simbólica. Quando tudo pode ser criado em segundos, o esforço, a formação e a experiência tornam-se invisíveis, quase irrelevantes aos olhos de um mercado que privilegia velocidade e volume.

Defender o valor da criação artística não significa rejeitar o progresso tecnológico, mas sim exigir uma utilização consciente, ética e culturalmente responsável dessas ferramentas. A arte não deve ser reduzida a um produto estatístico baseado em probabilidades; deve continuar a ser um espaço de subjectividade, de identidade e de questionamento.

Num mundo cada vez mais saturado de vídeos e imagens perfeitas e textos impecáveis, talvez o verdadeiro acto revolucionário seja preservar o imperfeito, o inacabado, o singular. Porque é precisamente aí, na falha, na hesitação e na tentativa, que reside o que nos torna genuinamente humanos.

Não obstante, convenhamos, a reversão ou mesmo moderação, serão já uma utopia. Uma impossibilidade.

01.11.25

Sobre os rabiscos


a. almeida

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Sobre os rabiscos neste quiosque: São fraquinhos? Serão! Mas, se me serve de consolo, são meus e não gerados, a pedido, por uma qualquer IA.

Não por mim, porque me dão apenas tostões, mas por quem realmente tem talento, são difíceis estes tempos em que, a pedido, põem-nos nas mãos uma ilustração, assim, sem mais nem menos.

Pior do que isso, é, todavia, a lata de quem os toma como seus e deles faz negócio. O mal está tão espalhado que já não sei se há solução. Pode ser que um dia, bem mais à frente, se volte a dar mérito e pagamento ao verdadeiro talento, àquele que sai das mãos, da cabeça e do coração, mas cheira-me que para já e pr muito tempo o caminho é a descer, como num poço. Terá fim?

25.09.25

Onde pára a flotilha?


a. almeida

A flotilha activista, humanitária, turística, mediática e afins, já aportou em Gaza? 

Com preguiça, perguntei a um assistente de IA qual a distância marítima entre Barcelona e Gaza e que tempo demora a viagem utilizando um barco médio. Do que respondeu, com as diferentes variáveis, presume-se que a viagem demoraria 3 a 4 dias. Que fossem 7 ou 8.

Neste andar, vai demorar tanto tempo como o Vasco da Gama na viagem marítima para a Índia no séc. XV. De resto, era previsível. Quanto mais tempo, mais dura a coisa, o suspense, como nos antigos folhetins radiofónicos e nas modernas novelas. É disto que se trata, uma novela! 

 

1. Distância aproximada

A rota mais curta entre Barcelona (Espanha) e Gaza (Faixa de Gaza) pelo Mediterrâneo, em linha reta (rota ortodrômica), é de cerca de 3.000 a 3.200 km (≈ 1.600–1.700 milhas náuticas).

2. Velocidade de um barco médio

Isso depende do tipo de embarcação:

Veleiro de cruzeiro: 5 a 7 nós (9–13 km/h).

Iate a motor médio: 15 a 20 nós (28–37 km/h).

Navio de carga/ferry: 18 a 22 nós (33–41 km/h).

3. Tempo estimado de viagem

Veleiro (6 nós) → ~270 horas = 11 dias (navegando direto, sem paradas).

Iate a motor (18 nós) → ~90 horas = 3,5 a 4 dias.

Navio de carga (20 nós) → ~80 horas = 3 a 3,5 dias.

24.04.25

Quando o ChatGPT responde como um qualquer labrego.


a. almeida

"Mandou bem demais! Bora lá transformar esse antivírus num app estiloso e funcional de verdade. Vamos lá organizar isso por partes pra facilitar o entendimento e ir testando conforme avançamos. Diga se curte assim."

Num dia destes, está a responder com calão da rua e com caralhadas à mistura, quiçá com umas bocas foleiras e machistas sobre gajas boas!

Estará a baixar o QI? Será de confiança, tanto mais que ainda ontem quando lhe perguntei dos países que receberam a visita do papa Francisco e na lista não constava Portugal (que visitou por duas vezes) e considerava a Inglaterra (que não foi visitda) ?

05.03.25

2+2=22


a. almeida

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Há dias, precisamente em 15 de Fevereiro de 2025, num grupo público de Facebook sobre o concelho de Santa Maria da Feira, alguém partilhou uma publicação de 15 de Fevereiro de 2017, em que era feita referência aos 34 anos sobre a data em que nesse concelho, e certamente noutros, caiu um forte nevão, coisa que, não sendo invulgar naquela região, é rara.

Apesar disso, e da clara ou escarrapachada referência da notícia datada de 2017, por isso perfeitamente compreensível a indicação dos 34 anos, algumas pessoas vieram logo rectificar que não foi há 34, mas sim há 42 anos. Apesar de a autora da partilha da publicação de 2017 ter vindo a explicar e justificar, chamando a atenção para a data da notícia, continuaram os comentários a fazer o reparo como se as explicações tivessem caído em saco roto.

Ou seja, de um modo geral, mas também e sobretudo pelo Facebook, as pessoas não sabem ler nem interpretar e, por conseguinte, leem e interpretam apenas o que querem. Ora, alguém pretender justificar e esclarecer essa gente, é chover no molhado e perda de tempo, porque, para muitos e muitas, 2+2 não são 4, mas 22.

É isso e o acreditar piamente em tudo quanto se publica, tomando como verdades e coisas sérias, autênticas trapaças e contos do vigário. Basta que o assunto pareça coisa fundamentada e até meta criancinhas e adolescentes, supostamente desaparecidos, para se dar crédito e alinhar na replicação, vezes sem fim, servindo na perfeição o isco lançado pelos autores.

Enfim, cada vez mais, cada vez menos critério e escrutínio. Não paramos para analisar, escrutinar e reflectir. Ora, esta situação, já num contexto de banalização da IA – Inteligência Artificial, tende a agravar-se, porque, num repente, a ordem geral das coisas, do conhecimento e da informação fidedigna é subvertida e facilmente comemos gato por lebre e, gulosos, repetimos a dose.

Tempos fantásticos estes, com todas estas potencialidades, mas, simultaneamente, estranhos e perigosos e com pasto para arder à fartzana.

Mas, tal como à autora da atrás referida partilha, é tempo perdido pretender esclarecer, justificar e argumentar, porque a capacidade de ver para além do que aparenta ser, é coisa difícil. Eu próprio já tenho tentado fazer reparos e chamar a atenção em certas publicações nitidamente enganosas e sensacionalistas, mas tem sido tempo perdido e os que facilmente alinham nestas trapaças, continuam a ser fiéis consumidores e seguidores.

É o que é!

[foto: Arquivo da Biblioteca  Municipal de Santa Maria da Feira]

20.02.25

Conversa de caca


a. almeida

É mesmo uma conversa de caca, mas também é ciência, e para estas coisas a IA também pode dar um contributo. No caso do Chat GPT, à questão de que quantidade de fezes um homem produz em média ao longo da vida, a resposta não deixa de surpreender, pois realmente é muita bosta. Na mesma linha desta curiosidade biológica, calcula que de urina um homem produza 41 mil litros. 1/60 avos de uma piscina olímpica.

Para além de tudo, a IA parece divertir-se com, a coisa pois no remate juntou uns emojis a condizer.

Sempre a aprender!

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30.01.25

E porque não água e sabão macaco?


a. almeida

Como realmente já me falta a paciência para certos temas, a propósito de um certo produto em comercialização, dito de fragrância para a parte íntima da mulher,  pedi ao Deepseek para fazer um texto sobre a coisa. Poupa-me algumas calorias e sempre será mais fofinho e politicamente correcto do que na realidade eu teria escrito. Mas, foi mesmo soft, pois não fez qualquer referência ao cheiro a bacalhau de molho, tão característico do pipy, incluindo o da sua criadora. E logo vindo dos chineses, que metem a boca em tudo o que mexe mesmo que a cheirar a ovos podres.

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Brisa Íntima: O Perfume da Hipocrisia

No maravilhoso mundo do consumismo, onde cada insegurança é uma oportunidade de negócio, surge mais uma pérola do marketing: a fragrância íntima para mulheres. Sim, porque aparentemente, o corpo feminino não é apenas um templo, mas um campo de batalha contra odores que a natureza, em sua imensa sabedoria, decidiu criar. E como a indústria da beleza nunca perde a chance de transformar um detalhe biológico em um problema lucrativo, agora temos mais um frasco de insegurança engarrafada.

O discurso, claro, vem embalado em promessas sedutoras. "Sinta-se fresca o dia todo!" "Uma explosão de confiança!" "Diga adeus ao desconforto!" Tudo cuidadosamente elaborado para que a mulher, já bombardeada por padrões inalcançáveis, acredite que sua própria essência precisa ser mascarada por notas florais e toques de baunilha. Porque, afinal, o cheiro natural do corpo feminino não pode simplesmente... existir.

Curiosamente, ninguém sugere que os homens borrifem lavanda nos bolsos da cueca. Mas a mulher? Ah, ela precisa estar sempre pronta, sempre perfumada, sempre adaptada ao gosto alheio.

E assim, entre slogans açucarados e embalagens cor-de-rosa, vendem-se mais do que produtos: vendem-se medos, vendem-se inseguranças, vendem-se padrões irreais. Mas a verdadeira fragrância que paira no ar não é de rosas nem de jasmim — é o cheiro da velha e disfarçada misoginia.