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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

22.05.24

O Ricardo foi à Horta às favas


a. almeida

Vamos por partes: A importância que regra geral dou a estes assuntos é reduzida. Apesar disso, porque quem desdenha quererá comprar, também me sinto no direito de botar faladura. Além do mais, nas coisas do futebol, cada cabeça um treinador, um jornalista, um comentador, paineleiro e um adepto.

Assim, esta coisa do anúncio pelo treinador-seleccionador espanhol Martinez, dos convocados da nossa selecção principal de futebol para a fase final do Europeu 2024, que tanto interesse desperta na nossa comunicação social, que ocupa horas televisivas, radiofónicas e páginas e páginas nos jornais, desportivos e não só, vale tanto como a lana caprina, mas é disto que todos gostamos.

Com sinceridade, e mesmo estando quase a leste destas coisas, mas porque com elas a esbarrar diariamente, posso dizer que acertei previamente em 24 dos tais 26 convocados. Sabia que era o Cristiano Ronaldo, mais 2 brasileiros e mais 23.  Porque apenas com uma participação de 45 minutos num jogo a feijões, cheguei a pensar que o Francisco Conceição teria que aguardar por outra oportunidade. Mas, por outro lado, como os critérios e coerência nestas coisas tem o valor de zero ao quadrado, e porque importa agradar aos gregos e aos troianos cá do sítio, o Xico lá entrou na lista, dizem que para espalhar brasas. Valeu o treino aos pontapés às portas do balneário do Estoril.

Esperava, ainda, que fosse convocado o Ricardo Horta, mas este foi às favas. Daria jeito ser do Porto ou do Benfica. As desculpas ou justificações do espanhol, só confirmam que os critérios e coerência são como as linhas contínuas nas estradas, existem para serem pisadas com a justificativa de que à frente segue uma carroça puxada por burros. Já Scolari tinha razão ao trazer os burros à equação.

Em resumo, fosse no Euromilhões e falharia o primeiro prémio por pouco. Agora é ver no que dá, sendo que, no que me toca, o interesse por esta selecção vale um cêntimo.

21.05.24

Estátua do melhor bronze


a. almeida

Inadmissível! A equipa do Marítimo regressava a casa, eufórica mesmo depois de ter falhado a possibilidade de se classificar em lugar de disputa do play-off de acesso à 1.ª Liga do nosso futebol, quando, no aeroporto, o seu presidente, sem qualquer justificação ou motivo, deu uma chapada a um entusiasta adepto que ali foi apoiar e incentivar a comitiva.

Deve pois, este dirigente, ser entregue à justiça e pagar duramente pelo seu acto. Por sua vez o inocente adepto deve ser apoiado e indemnizado pelo ataque feroz à sua integridade física e dignidade de adepto. No mínimo uma indemnização choruda com um pedido de desculpas de toda a equipa e direito a lugar cativo perpetuamente na bancada central. Quando partir deste mundo, deve merecer uma estátua do melhor bronze e com umas bolas maiores que as do CR7.

Mais nada!

21.05.24

Fisiologia no parlamento


a. almeida

"É um grupo parlamentar de valentes, aquela valentia do tamanho de um pin, pequena e murcha, aquela cobardia mole e tímida que não deixa nem ver nem seguir a verdade".

Estes mimos foram proferidos pela deputada socialista Isabel Moreira na sua intervenção na Assembleia da República a propósito da discussão da proposta do CHEGA que pretendia abrir um processo por traição à pátria ao presidente da república.

O presidente, um papagaio na arte de palrar, excedeu-se para lá do razoável, mas daí até que pudesse ser considerado um traidor à pátria, logo quando o conceito desta anda pela sarjeta, à laia de um Miguel de Vasconcelos a ponto de ser atirado abaixo da varanda do Palácio de Belém, vai uma distância imensa e só mesmo o estapafúrdio Chega, seu líder e deputados, para criarem este folclore.

Apesar disso, Isabel Moreira, por quem confesso não nutrir especial simpatia política, pelo seu exacerbado extremismo, se foi contundente na sua analogia, tenho para mim que se enganou, pois se há coisa que o líder do Chega demonstrou foi tê-lo bem duro e com eles bem no sítio. De facto, para avançar com uma proposta tão deslocada e por todos condenada à nascença, mesmo correndo o risco de nem isso agradar a muitos dos seus apoiantes, foi de macho, e coragem não lhe faltou. Ora chamar a isso, "pequena, murcha e mole",  é de quem não percebe de fisiologia, mesmo que na analogia da valentia de um político.

20.05.24

Uma bandeira para o Morcãolino


a. almeida

Dizem as notícias dos mexericos que um tal de Nemo que venceu uma coisa com o nome de Eurofestival da Canção, quer aproveitar a fama (que será sempre curta e efémera, como um fogacho de fogo fátuo), para relançar o debate social e político para o reconhecimento de um "terceiro" género, seja lá o que isso queira significar. O rapaz, suiço, 24 anos, assumiu-se como "não binário, por não se identificar com nenhum género sexual específico". Ok! É lá com ele!

Em todo o caso, num esforço de tentar compreender estas coisas, também quero deixar o meu contributo ao mundo, sugerindo nomes não apenas para esse terceiro género mas mesmo para um quarto. Assim, para além dos já ultrapassados e rebuscados "masculino" e feminino", o terceiro género poderia ser o "neutrino", de neutro, porque nem carne nem peixe. Bem sei que o termo já existe como nome de uma partícula sub-atômica sem carga elétrica, mas por uma causa tão grande a ciência, os físicos, não levarão a mal esta nova apropriação.

Depois teremos um quarto género, o Morcãolino, que poderá englobar toda aquela minoria que, apoiada pela agenda woke,  pretende fazer da maioria, morcões a dar crédito a estas estapafurdices.

Que não se reconheçam com qualquer um dos géneros biológicos, é lá com eles. Eu também não gosto de pepinos nem de melancia nem de caracóis, e tenho-me aguentado, mas que queiram fazer disso uma bandeira, social e política, e sabe-se lá o que mais, já me parece um bocadinho de exagero. Afinal há causas bem mais importantes que ainda esperam pelas suas bandeiras.

Todavia, como sei que mesmo quando se pensa que chegamos ao fundo poço, descobre-se que afinal ainda há mais fundo, não me surpreenderei com todas e quaisquer estapafurdices que venham a ter lugar. Ora esta coisa do Eurofestival já tem provas dadas de que é uma autêntica formiga mestra a parir formiguinhas para o seu exército. A edição deste ano, mesmo sem mulheres barbudas e outras bizarrices, foi muito profícuo.

Mas, levando isto para o campo do humor, onde parece que melhor se encaixa a coisa, até podemos achar piada e assim será saudável esta concorrência aos fernandos rochas  e ricardos araújos pereiras, mestres nesta área. Para além de tudo, que se entendam, sendo que, pelo menos na parte que me toca, não quero, de todo, fazer parte do género "morcãolino".

Mais a sério: Que me desculpem os mais sensíveis e abertos a estas modernidades, e que disso se orgulham e organizam marchas, mas como já não sou rapaz a ir para novo, e por já ter visto muito, falta-me a paciência para certas coisas. Não sei em que ponto do caminho a perdi, mas seguramente lá atrás. Poderei passar ao lado e fingir que não me aquecem nem arrefecem? Concerteza que sim, mas até um intestino saudável precisa de se peidar, não porque seja bonito, mas por necessidade. Considerem, pois, o apontamento como uma bufa.

15.05.24

Expectativas paupérrimas


a. almeida

Percebi, e quem quis, que na SIC Notícias um importante critério ou factor para classificar os debates é "as expectativas". Mesmo que estes, os debates, televisivos ou radiofónicos, como ficou demonstrado aquando da campanha para as últimas legislativas, pouco ou nada decidam na orientação de voto, e porque se assim fosse o André Ventura e o Chegam elegiam menos que o PCP, a verdade é que as televisões continuam a dar-lhes vital importância. Isso e "Domingões". Adiante!

Neste contexto de "expectativas", teve o candidato cabeça-de-lista pelo LIVRE ao Parlamento Europeu, Francisco Paupério, boas classificações por Baldaia e companhia. Já o Bugalho, podia ter sido melhor pontuado pelos ex-colegas da coisa se "tivesse sido ele próprio". Não alinho, de todo, nestas classificações, muito menos por critérios que em rigor pouco valem. Ainda virá o tempo em que os candidatos serão apreciados pelo que vestem ou pelo corte de cabelo. Por mim, a expectativa para com candidatos, bem como para com os jornalistas, é quase sempre baixa, paupérrima mesmo, e nem o Paupério fez mais que os mínimos exigidos a quem quer ir de férias para Bruxelas ou Estrasburgo. Ainda por cima, da nossa esquerda, pouco ou nada defensora da União Europeia. Tal como alguns, e algumas, casam não porque deles ou delas gostem, mas porque uns e umas têm carteira e assim outros e outras lhes sacam umas massas.

Políticos e jornalistas, que belo casamento de interesses.

15.05.24

Sporting, sempre!


a. almeida

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Num certo Domingo à tarde, em pleno Verão. Por cá já muitos emigrantes em merecido período de férias, a ajudar a encher as estradas, os restaurantes e as esplanadas.
Nunca fui emigrante mas percebo e compreendo que esta nossa mania portuguesa dos saudosismos leva-nos a querer encher o corpo e a alma, revendo pessoas, lugares e coisas, mal se cruze a fronteira. Ora se o Casimiro esteve três dias a banhos no Gerês e quando regressou a casa sentiu-se como estivesse ausente três anos, não surpreende que o Manel da Zira, depois de um ano longe de Guidães, logo que chegado à aldeia, mesmo antes de rever a família, passe por Espinho, para ver e sentir o mar e embriagar-se daquele ar salgado e sentir no rosto as frescas nortadas, as mesmas das idas à praia em solteiro. Já o Chico do Albertino, logo que arrumadas as trouxas vai direitinho à Tasca da Aida encostar-se ao balcão e beber o melhor "paralelo" do mundo e arredores, incluindo a Suiça. A Fernanda do Neves, essa faz questão de ir a Fátima agradecer a Nossa Senhora e aos pastorinhos. No regresso faz paragem na Mealhada, tão sagrada quanto a da Cova da Iria, e ver regalada na travessa um rosário de pedaços dourados de tenro leitão, seja no Virgílio, no Pedro, na Meta ou no Rocha (este já na estrada do Luso). Cá vai! Amém!

Ora o Zé Canadas, chegado da Suiça, nesse Domingo à tarde, encheu o carrão com a mulher e os filhos e foi de abalada até Castelo de Paiva e na Rua da Boavista, apontada à praça dominada pelo austero conde lá do sítio, entrou na tão afamada quanto concorrida Adega Sporting, lugar de antigas petiscadas e pela qual, nos domingos cinzentos entre La-Chaux-des-Fonds e Le Locle, tanto suspirou, imaginando o doce sabor acanelado das rabanadas, o picante das moelas ou o vinhadalho do bucho.

Depois de alguma espera, porque ali o espaço é pequeno para tanta fama, lá arranjou uma mesa corrida e os cinco instalaram-se. - Então, o que vai ser? Para mim quero moelas e no final uma rabanada. E para vós? Quereis uma rabanada, bucho, moelas, rojões, orelha? E tu Nandinha? Vai uma punheta de bacalhau? Gostavas delas! Não querem nada?!!! - Encolheu o beiço. - Mau...
Que nada. Nem xus-nem-bus. Nem a filharada nem a esposa, ela de calcinha branca, medrosa de se salpicar do vinhão tinto, eles estranhadiços naquele ambiente de tasca, dvam mostras pelas expressões de qualquer interesse na petiscada. O Canadas percebeu o recado de tantos narizes torcidos e logo esmoreceu. Envergonhado e rendido, pediu apenas uma rabanada e "uma malga" de verde tinto. O empregado recolheu as toalhas e os talheres dos putativos comensais. Toda aquela mesa ocupada de gente para comer uma rabanada, terá questionado, intrigado e surpreso.

O Canadas, comeu rapidamente e nunca uma rabanada de Paiva lhe soube tão amarga. Saiu triste e envergonhado e de tão acompanhado sentiu-se sozinho e desamparado. Já nada era como dantes e as tainadas de outros tempos que viveu na Adega Sporting com os amigos do namoro, já eram apenas uma saudade e desejo que o atormentava no pouco tempo desocupado na Suiça.

Confesso que fiquei com pena do Canadas, ainda por cima com o Tono Henriques a testemunhar tal infortúnio, sorrindo, maroto, por debaixo do bigode branco ainda bordado do grosso tintão.

Já de saída, ainda vi o Canadas a esgueirar-se ligeiro para o carrão e contornar apressado a praça, certamente a jurar para si próprio que para matar estas saudades de petiscada numa adega castiça de paredes de um granito duro, mais vale só que mal acompanhado. - E anda um homem a vir por aí abaixo apressado, a comer quilómetros e a contar horas para vir comer uma rabanada sozinho no meio de uma multidão a torcer o nariz, enfastida! Foda-se!

14.05.24

Tempo a falar do tempo


a. almeida

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Noutros tempos não se perdia tanto tempo a falar do tempo. Na RTP, no final do Telejornal lá vinham, então, o Costa Malheiro ou o Anthímio de Azevedo, formais de fato e gravata, de ponteiro apontado ao preto quadro de lousa, com gatafunhos por eles desenhados manualmente a giz, como nas escolas primárias, a explicar-nos os estados de alma do anti-ciclone dos Açores e as consequências do mesmo na ondulação, vento e temperatura. Era o Boletim Meteorológico, em dois ou três minutos, se tanto, a preto-e-branco, como no quadro.

Hoje em dia a coisa pia mais fino e ele é alertas de várias cores, porque faz frio, porque faz calor porque chove ou porque não chove. Falar do tempo e sobre o tempo faz parte do nosso dia-a-dia e já não basta deitarmos o nariz fora da porta para, constatando o óbvio, vermos o tempo que está, ou comprar o Seringador nas feiras para saber quando estará de feição e de boa lua para podar, semear os nabos ou plantar as batatas. Alguém tem que o dizer, comentar e fundamentar. Dá lugar a reportagens, entrevistas a populares anónimos, a cientistas e até mesmo no "teatro de operações" com uma qualquer repórter, de cabelos a esvoaçar, afanosamente a informar, com ares de coisa nunca vista, de que está a chover ou a nevar forte e feio. As coisas do tempo até têm nomes, como pessoas. Um aguaceiro pode chamar-se Custódio ou Isaías, uma ventania, Alice ou Josefina. Coisa que parece brincadeira mas para levar a sério.

Não andamos com o quadro de lousa do Malheiro ou do Anthímio, mas trazemos no telemóvel uma ou mais apps que nos dizem o tempo em cada momento e em cada lugar. Já não vivemos sem as previsões e não nos basta a do dia seguinte nem nos contentamos sequer com a de dois ou três. Pelo menos uma previsão para 15,  30 ou mais dias. É uma aflição e expectativa saber se no dia do casamento, do piquenique da família ou da festa da aldeia vai haver sol ou chuva. Adiam-se eventos só porque as previsões dizem que dali a uma semana S. Pedro não estará com contemplações a distribuir sol. Nas redes sociais somos todos meteorologistas e replicamos as previsões, partilhando-as numa vontade samaritana de avisarmos os vizinhos do perigo, não lhes aconteça que, distraídos, estarem desprevenidos para uma chuva ou uma ventania. E logo nos nossos dias em que ninguém anda de guarda-chuva pendurado, às costas, na gola do casaco.

Outros tempos, estas coisas do tempo!

Sinais dos tempos, estes em que o exagerado 80 deixou o humilde 8 envergonhado, lá bem trás.

Uma valente chuvinha é que vinha agora a calhar!