15.09.25
Romaria de Santa Eufêmia em terras de Castelo de Paiva
a. almeida


Hoje, dia 15 de Setembro, fui comprir uma tradição pessoal já com muitos anos. Fui à romaria de Santa Eufêmia que se realiza anualmente nos dias 14, 15 (dia grande) e 16 de Setembro, na freguesia de S. Pedro do Paraíso, concelho de Castelo de Paiva. Porque muita gente aproveitou o Sábado e o Domingo, hoje verificou-se menos romeiros do que é habitual, quando a meio da semana. Mesmo assim, muita gente, capela repleta para a missa e as barracas dos bifes apinhadas, como sempre.
Porque intemporal, reescrevo, com ligeiras actualizações, o que já escrevi num outro blog.
Esta santa, tem muita tradição em Portugal e a ela, sensivelmente por esta data, são dedicadas festas e romarias em algumas das nossas aldeias.
Por cá, das grandes romarias da nossa região e arredores, nomeadamente a Senhora da Saúde, em Carvalhos-Pedroso-Vila Nova de Gaia, S. João no Porto, Senhor da Pedra, em Gulpilhares - Vila Nova de Gaia, a Senhora da Saúde, em Gestoso -Vale de Cambra, S. Cosme, em Gondomar, S. Simão, em Urrô - Penafiel, S. Domingos da Queimada, Raiva - Castelo de Paiva, Senhora das Amoras, em Oliveira do Arda, Castelo de Paiva, Festa das Colheitas, em Arouca (pelo final de Setembro) e Festa das Fogaceiras, em Santa Maria da Feira (a 20 de Janeiro) e outras mais, pessoalmente considero que a romaria de Santa Eufêmia, na freguesia do Paraíso, em Castelo de Paiva, será aquela que ainda conserva as características quase genuínas, herdadas e transmitidas de há muitas décadas, relatadas pelos nossos avós e bisavós. A contribuir para isso, o facto de se situar numa região relativamente interior, ainda muito caracterizada pela agricultura e também pela localização do arraial, que, ao contrário do que é normal, não está no alto de um monte (como S. Domingos da Queimada) mas sim num baixio encravado entre duas vertentes da serra e desenvolve-se em vários sucalcos ladeados de ruas estreitas. Os acessos no recinto são estreitos.
Por conseguinte, a parnefália de enormes e ruidosos divertimentos, roulottes de vendas e grandes tendas comerciais, desde africanos a chineses, ciganos e marroquinos, que fazem parte da mobília das festas e romarias actuais, ali não têm lugar nem espaço, apenas nas imediações, e os vendedores tradicionais ocupam os lugares desde há várias décadas. Raramente, pode existir uma pequena pista de carrinhos, quase sempre parada, e uma ou outra tenda de ciganos a vender roupas, mas no essencial todo o restante negócio está revestido das tais características tradicionais, assumindo plano de destaque a venda de doces, onde a primazia e a excelência recaíam nos afamados doces de Serradelo, de fabrico familiar numa vizinha aldeia, próxima do Monte de S. Domingos da Queimada, mas há alguns anos com actividade encerrada por desinteresse de continuidade por parte dos herdeiros. Restam os doces de Entre-Os-Rios, Sardoura e Pedorido, tudo aldeias ribeirinhas do rio Douro. Também marcam presença as tendas de cestaria, frutas, com destaque para uvas e melão de “pele-de-sapo”, castanhas, das grandes, enchidos, presunto e fumeiro, artesanato e brinquedos. Também ali já é possível beber o primeiro “vinho-doce” e comer as primeiras castanhas assadas
Apesar de tudo, a tradição e a fama da romaria de Santa Eufêmia assenta na devoção à santa, com pagamento de promessas, na actuação de duas bandas de música (neste ano as bandas dos Mineiros do Pejão - Castelo de Paiva e a Marcial do Vale, de Santa Maria da Feira), e também nas afamadas barracas de comes-e-bebes, onde o enorme bife de carne de vitela da raça arouquesa é rei, mas também a vitela estufada, dobrada ou feijoada. Normalmente são seis ou sete grandes barracas e quase sempre a abarrotar de gente esfaimada. Tanto na véspera como no dia, são milhares os forasteiros que chegam do concelho, Castelo de Paiva, mas também dos municípios vizinhos como Arouca, Santa Maria da Feira, Gondomar, Penafiel e não só.
Noutros tempos, recordo-me de nas imediações do proprio arraial se efectuar a matança de gado e mesmo ali, crucificadas num pinheiro, as rezes eram esquartejadas e cortadas em grandes bifes que depois eram fritos e acompanhados com batata e cebolada bem frita. Hoje em dia já não se mata ali o gado mas mata-se a mesma fome e a qualidade da carne é a de sempre, bem como os modos de a preparar e servir. Impressiona, de facto, ver todo o movimento (durante o dia e pela noite fora) à volta das barracas improvisadas e numa luta com os enormes bifes bem regados com o grosso vinho verde da região de Paiva. Os clientes não conhecem idades nem classes sociais e misturam-se na mesma fartura os senhores doutores e engenheiros, vindos das cidades e vilas próximas (já por lá vi governadores civis, presidentes de câmaras e vereadores) com os operários e lavradores. Perante aquele quadro de abundância, seria difícil fazer alguém acreditar que, seja em que ano for, estamos numa época de crise e falta de esperança no futuro.
Vê-se também muita gente e casais de idosos, que cumprem religiosamente votos, promessas e hábitos de décadas e para eles a Santa Eufêmia é um dia tão grande e alegre como um Natal ou Páscoa. Na freguesia é ponto de reunião de famílias que improvisam mesas onde os bifes serão a premissa da amizade fraternal. Os romeiros pagam as promessas, acendem velas e participam na missa e na procissão. Pelos músicos dos Mineiros do Pejão, destacou-se uma peçada de música e os ouvintes ficam com olhos enublados pelas emoções e sons da “1812” de Tchaikovsky, que não compreendem mas sentem. De seguida, já com a alma e o coração lavados, estendem uma ampla toalha no chão, à sombra de um carvalho, oliveira ou plátano, e espalham o farto farnel caseiro, com a panela do arroz envolto em jornais passados, ainda a fumegar de quente e bom, este sim, de comer e chorar por mais. Na véspera são muitos os peregrinos que em ritmo de fé sobem as encostas do Douro e do Arda e chegam a pé, ainda por devoção e promessas, percorrendo várias dezenas de quilómetros, vindos de aldeias vizinhas ou bem mais afastadas.





















