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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

15.05.24

Sporting, sempre!


a. almeida

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Num certo Domingo à tarde, em pleno Verão. Por cá já muitos emigrantes em merecido período de férias, a ajudar a encher as estradas, os restaurantes e as esplanadas.
Nunca fui emigrante mas percebo e compreendo que esta nossa mania portuguesa dos saudosismos leva-nos a querer encher o corpo e a alma, revendo pessoas, lugares e coisas, mal se cruze a fronteira. Ora se o Casimiro esteve três dias a banhos no Gerês e quando regressou a casa sentiu-se como estivesse ausente três anos, não surpreende que o Manel da Zira, depois de um ano longe de Guidães, logo que chegado à aldeia, mesmo antes de rever a família, passe por Espinho, para ver e sentir o mar e embriagar-se daquele ar salgado e sentir no rosto as frescas nortadas, as mesmas das idas à praia em solteiro. Já o Chico do Albertino, logo que arrumadas as trouxas vai direitinho à Tasca da Aida encostar-se ao balcão e beber o melhor "paralelo" do mundo e arredores, incluindo a Suiça. A Fernanda do Neves, essa faz questão de ir a Fátima agradecer a Nossa Senhora e aos pastorinhos. No regresso faz paragem na Mealhada, tão sagrada quanto a da Cova da Iria, e ver regalada na travessa um rosário de pedaços dourados de tenro leitão, seja no Virgílio, no Pedro, na Meta ou no Rocha (este já na estrada do Luso). Cá vai! Amém!

Ora o Zé Canadas, chegado da Suiça, nesse Domingo à tarde, encheu o carrão com a mulher e os filhos e foi de abalada até Castelo de Paiva e na Rua da Boavista, apontada à praça dominada pelo austero conde lá do sítio, entrou na tão afamada quanto concorrida Adega Sporting, lugar de antigas petiscadas e pela qual, nos domingos cinzentos entre La-Chaux-des-Fonds e Le Locle, tanto suspirou, imaginando o doce sabor acanelado das rabanadas, o picante das moelas ou o vinhadalho do bucho.

Depois de alguma espera, porque ali o espaço é pequeno para tanta fama, lá arranjou uma mesa corrida e os cinco instalaram-se. - Então, o que vai ser? Para mim quero moelas e no final uma rabanada. E para vós? Quereis uma rabanada, bucho, moelas, rojões, orelha? E tu Nandinha? Vai uma punheta de bacalhau? Gostavas delas! Não querem nada?!!! - Encolheu o beiço. - Mau...
Que nada. Nem xus-nem-bus. Nem a filharada nem a esposa, ela de calcinha branca, medrosa de se salpicar do vinhão tinto, eles estranhadiços naquele ambiente de tasca, dvam mostras pelas expressões de qualquer interesse na petiscada. O Canadas percebeu o recado de tantos narizes torcidos e logo esmoreceu. Envergonhado e rendido, pediu apenas uma rabanada e "uma malga" de verde tinto. O empregado recolheu as toalhas e os talheres dos putativos comensais. Toda aquela mesa ocupada de gente para comer uma rabanada, terá questionado, intrigado e surpreso.

O Canadas, comeu rapidamente e nunca uma rabanada de Paiva lhe soube tão amarga. Saiu triste e envergonhado e de tão acompanhado sentiu-se sozinho e desamparado. Já nada era como dantes e as tainadas de outros tempos que viveu na Adega Sporting com os amigos do namoro, já eram apenas uma saudade e desejo que o atormentava no pouco tempo desocupado na Suiça.

Confesso que fiquei com pena do Canadas, ainda por cima com o Tono Henriques a testemunhar tal infortúnio, sorrindo, maroto, por debaixo do bigode branco ainda bordado do grosso tintão.

Já de saída, ainda vi o Canadas a esgueirar-se ligeiro para o carrão e contornar apressado a praça, certamente a jurar para si próprio que para matar estas saudades de petiscada numa adega castiça de paredes de um granito duro, mais vale só que mal acompanhado. - E anda um homem a vir por aí abaixo apressado, a comer quilómetros e a contar horas para vir comer uma rabanada sozinho no meio de uma multidão a torcer o nariz, enfastida! Foda-se!

09.05.24

Alinhamento dos astros


a. almeida

O Roberto nasceu numa qualquer pacata aldeia, ali pelo início de 1960 e volvidos poucos meses rumou com os pais para África, onde assentaram vida no Lobito - Angola. Dizem que por lá viviam relativamente bem, com negócio próprio, mas chegou a revolução de Abril de 1974 e dali a nada, com muitos milhares de conterrâneos foram expulsos a toque de catana e metralhadora, trazendo consigo apenas a roupa que tinham no corpo. No decurso de uma descolonização selvagem, perpetrada e consentida por Soares e companhia, chegaram com o estigma de retornados, sem eira nem beira e o país, ainda a fumegar no calor da revolução e na efervescência da panela do PREC, nada teve para lhes dar, para os acolher como cidadãos próprios.


Muitos não tiveram outro remédio senão ocupar à margem da lei casas, edifícios e propriedades, que não lhes pertenciam. Outros, como o Roberto e seus pais, voltaram à velha casa da aldeia de onde tinham partido e com caridade dos que haviam ficado, lá voltaram a assentar o que restava das suas vidas. Mas por pouco tempo porque entretanto, aos poucos, e porque a peça da vida tem que continuar em qualquer palco, lá foram para uma terra vizinha e recomeçaram tudo do zero como chegados novamente ao Lobito.

Anos mais tarde, porque o Roberto estudara, empregou-se na Câmara Municipal onde foi fiscal e pelo meio, mesmo sem ser engenheiro ou arquitecto, fazia projectos e como todos os fiscais do município, fazia aprovar os seus à frente dos outros e mesmo que mamarrachos aprovados e edificados contras as mais elementares regras da urbanização. Eram, o Roberto e os seus colegas fiscais, autênticos Taveiras e Soutos Mouras a aviar projectos com a certeza certinha de que aprovados seriam, mesmo que fossem contornados berbicachos que as regras estorvavam.

O Roberto, assim a facturar duplamente, passou a viver bem, casou, fez casa, tudo nos conformes. Mas um dia, vá lá saber-se por que motivo, a mulher quis fazer outra vida e a separação foi inevitável. Porque a amasse ou por qualquer outra forte e insondável razão, o certo é que o Roberto a partir daí nunca mais foi o mesmo e rapidamente, afogado em tabaco e outras coisas que ajudam a esquecer, desencontrou-se de si, dos outros e até da vida. Já não cumpria as suas obrigações no emprego e o pouco que fizesse era desastre e prejuízo para a casa. Não atendia aos clientes dos projectos, de quem recebia sem nada fazer, nem coisa nenhuma. Teve que ser suspenso do emprego e por caridade deixaram-no marcar o ponto e receber durante algum tempo, mesmo que sem nada fazer, até que foi mesmo à sua vida com uma qualquer invalidez ou pré-reforma.
Durante a sua vida e seu emprego, pelo seu bom trato e empatia granjeou amizades e simpatias mas num resto de vida desconcertada e errante, que a todos surpreendia, perdeu tudo, a casa e o que tinha poupado e, mais do que isso, até a dignidade que lhe restava.

Passou, por gentileza de alguém, a viver numa espécie de garagem de uma habitação social e do que fora passou a ser uma triste e miserável amostra. Soube agora que faleceu. Até o cartão feito pela funerária está condizente com o seu resto de vida, com uma foto desfocada e com um sorriso triste. Vai a sepultar amanhã. 

Não sei que raio de alinhamento dos astros é o que revira assim a vida de um homem, que o faz andar num sobe e desce, numa agitação, numa viagem do céu ao inferno. Existindo estes, é provável que esteja no céu, porque de inferno já teve por cá a sua dose.


Paz à sua alma!

10.04.24

Os lápis de cor


a. almeida

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Era uma vez um rapazinho de família pobre e humilde que gostava muito de desenhar, mas só tinha um simples lápis, de cor cinzento, que o seu pai, que era carpinteiro, lhe emprestava.

Gostava ele de desenhar cães e gatos que o seu avô lhe ensinava à noitinha, à luz da vela, enquanto a sua mãe preparava o simples jantar.

Quando completou 6 anos, entrou o menino para a escola primária e a sua família, mesmo com muitas dificuldades, conseguiu pagar os livros onde aprenderia a ler, os cadernos onde escreveria, uma lousa onde faria as contas, um afiador de lápis, uma borracha para safar os erros, e ainda uma bela caixinha com 6 lápis de cor.

Foi uma alegria para esse rapazinho quando recebeu a caixinha com 6 belos lápis, pois já podia fazer os seus desenhos com as suas 6 cores.

Os seus cães, até ali cinzentos, passaram a ser castanhos, verdes, vermelhos, azuis, amarelos e lilás. Às vezes até os pintava às bolinhas e às riscas.

Os gatos eram verdes e vermelhos conforme a sua imaginação.

Mas um dia, o menino pobre conheceu outro menino da sua classe, que era filho da professora, por isso um menino rico.

Ora o rapazinho pobre descobriu que o rapazinho rico tinha também uma caixa de lápis-de-cor mas maior, não apenas com 6 mas com 12 lápis.

Lá estavam entre outras cores, os lápis cor-de-laranja, cor-de-rosa, verde claro, verde-escuro. Tinha, pois, mais 6 lápis com cores diferentes das suas.

Então o menino pobre ficou um pouco triste e ficou a imaginar que com todas aquelas 12 cores conseguiria fazer cães e gatos de cores diferentes e até mesmo desenhar o arco-íris, que aprendera que tinha 7 cores.

Mas tudo se resolveu, pois o menino rico tornou-se amigo do menino pobre e sempre que na escola a professora lhes mandava fazer um desenho, eles partilhavam os lápis e assim fizerem belos desenhos, bem coloridos com todas as cores.

O menino pobre ensinou então o menino rico a desenhar belos cães e lindos gatos e assim ambos viviam naquela amizade bonita e colorida, que durou toda a escola primária.

Ainda hoje, já homens crescidos, são amigos.

Moral da história: Haverá sempre meninos pobres e meninos ricos, mas todos serão felizes, menos pobres e mais ricos se partilharem entre si os seus bens, mesmo que seja apenas uma simples caixa de lápis de cor.

09.04.24

A Ti Amélia


a. almeida

Nascida, criada e casada no terrão viçoso que é a aldeia de Guidães, a Ti Amélia já marcha a caminho dos noventa, com oitenta e sete bem feitos, precisamente no dia da festa de S. Miguel, patrono da terra. Nasceu, pois, ali mesmo debaixo da latada de americano que bordejava a ribeira dos Pousados, de onde já pendiam gordos cachos de bagos bem pintados.

A sua saudosa mãe, então habituada pelo parir de uma rebanhada de filhos, levara até à última a gravidez e quando se lhe rebentaram as águas andava ela por entre o milho alto a regar numa manhã bem fresca desse Julho, sarapintada pela caruma do pendão das bandeiras. Sentindo aquele manancial a rebentar dentro de si, só teve tempo de se aninhar num largo lençol que trouxera, não fosse o diabo tecê-las, que abriu sobre e erva ainda orvalhada, e mandar recado urgente pelo Minguitos, que trouxera consigo a vigiar três ovelhas a pastar. Que fosse depressa, bem ligeiro, a correr à Leirosa a casa da Ti Bernarda. Que lhe viesse ajudar!

O rapazito, que se entretinha com o rodízio de bogalhos na borda do rego da água, percebeu a aflição da mãe e como um galgo disparou veloz pelo caminho em direcção ao cimo do lugar e dali a pouco chegava já acompanhado da velha, parteira experimentada da freguesia e arredores, levezinha, de mãos finas, parece que já talhadas por Deus para penetrar naquelas nascentes quentes. Talvez por isso gozava da alcunha de “mãozinhas” o que não a incomodava pois bem sabia da importância que tinha para aquele rebanho de mulheres parideiras da aldeia.

Mas isto é a gente a contar, porque a Ti Amélia, tal como a sua mãe, que Deus já a tem, nunca teve em tamanha conta o dar à luz fora da cama. De resto nem era novidade na freguesia e num tempo em que os cuidados de saúde não eram tidos nem achados por aquelas e outras bandas, as mulheres pariam com os mesmos cuidados que os animais. Aceitavam essa condição sem qualquer esmorecimento porque lhes era instintivo. Além do mais, viam nela a mesma naturalidade com que assistiam ao nascimento dos filhotes das vacas, dos porcos e das ovelhas.

Desse nascimento térreo, agreste, quase animal, impregnado de pólem do milho e dos aromas das uvas e da erva fresca, a Amélia foi sempre vigorosa, saudável, mesmo que atingida com as habituais maleitas que, como o sol, quando vinham era para todos e todas, como o sarampo, a varicela, o tesourelho e outras que tais, mas nada que as rezas, talhaduras e mezinhas da avô Tomásia não remediassem. Era a farmácia viva de Guidães e no tecto de soalho da loja da sua casita escura pendiam ramos secos de tudo quanto era erva curadeira. Lá estavam a erva-de-s.roberto, o louro, a cidreira, o limoneto, a cavalinha, a gilbardeira, as urtigas, as malvas, a camomila, o hipericão, etc, etc.

A todas essas pragas a Amélia resistiu e de cada uma saía mais forte, corada e viçosa. Na escola, então apenas para alguns rapazes, mal teve tempo de aprender a escrever o seu nome e as aulas tinha-as no campo e à volta da casa com as lições bem administradas pelo pai Belmiro e pela mãe Teresa. As disciplinas eram várias e seguiam os critérios das estações e das lides do campo. Cavar, sachar, mondar e regar , eram pai-nossos de todos os dias para além das lides da casa como limpar, arrumar, remendar, costurar, tecer, fazer as camas, tratar do gado, ordenhar vacas e ovelhas, matar galinhas e tudo quanto no galinheiro mexesse e tivesse bico. Todas as lições de cada dia conduziam a uma finalidade única e básica , a de semear para colher ou de sobreviver para viver.

Mulher assim, bem licenciada nas coisas da terra, ainda por cima de boa estampa, trigueira de pele, de uns profundos e brilhantes olhos castanhos e cingida de cabelo farto, cedo foi colhida pelo Hilário dos Azevedos e ainda não contava vinte primaveras quando uniram as mãos e as vidas defronte do padre Tobias. Seriam sombra um do outro, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Dessa vida, que continuou ligada à terra, os trabalhos e canseiras duplicaram porque o Hilário não dava descanso aos instintos progenitores e a Amélia não os recusava pelo que conforme a natureza assim o consentisse, os filhos foram nascendo daqueles entranhas a um ritmo certinho e como se não bastasse até gémeos teve, o António e o Miguel.

O tempo foi passando e somadas as festas ao S. Miguel e os foguetes que a ele estouravam eram também para a Amélia.

Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! Apesar dessa constante labuta para manter a casa e os filhos sadios e limpos, com canseiras e sacrifícios para que nada lhes faltasse, mesmo em tempo de vacas magras, o tempo foi passando, ela o Hilário envelhecendo e perdendo o vigor do tempo primeiro e os filhos a crescer e a abandonar a casa, para eles próprios continuarem aquele ciclo bíblico do crescei e multiplicai-vos. Como amostra da dúzia da prole, ficou a Cacilda, uma das mais velhas que, avessa a rapazes, foi ficando por casa como galinha choca e é quem agora vai cuidando da mãe Mira. Ainda, dedicada, cuidou do pai, mas este, teimoso em não largar o tabaco, acabou por partir bem cedo, pouco depois dos sessenta, mirrado dos pulmões.

Chegada aqui, vive pois, a Ti Amélia naquele casarão velho que herdou dos pais, ajudada por uma filha pouco mais nova que ela. Mas vive em constante sofrimento e em todas as orações e terços que reza de fio a pavio, invoca todos os santos e santinhos, a começar pelo da porta, o S. Miguel, para que Deus a leve deste mundo porque já nada mais tem nele a produzir ou, pior do que isso, já nada mais poder fazer. Bem se tenta a ir pelo menos à horta mexer nas couves, nas favas, alfaces e tomates, ou ao jardim endireitar os crisântemos, mas as pernas e todos os ossos de tão castigados por uma vida dura de casa, campo e mato, que parecem os gonzos gastos e desconchavados das portas velhas dos aidos, não ajudam ao calvário dos tempos derradeiros e até suplicam por descanso. Mas com esta idade e artroses até o descanso cansa. Toma a horas certas uma mão cheia de diferentes comprimidos, para todos os males antigos e modernos e já não tem, de há muito, a avô Tomásia para lhe valer com as velhas medicinas. Agora é viver e gemer até quando Deus quiser e tomara que não se atrase na decisão.

A Cacilda e os demais filhos bem que a andam a azucrinar com a ideia de que ela estaria bem melhor no Lar de Idosos da vila, que teria companhia de gente como ela, estaria bem cuidada e com médico e enfermeira a fazerem a ronda diariamente. Mas que não, que nem pensem em tal coisa. Seria melhor que a atirassem ao fundo da ponte do Padrão onde a esperavam os penedos lavados pela ribeira.

Os filhos bem tentam fazê-la compreender que seria melhor para ela, e naturalmente para eles porque não têm vida para fazer de anjos da guarda dia e noite, mas a Amélia apesar de entender para si o acerto dessas recomendações, porque mesmo que com uns lapsos de memória que dizem ser de um tal alzheimer, ainda não perdeu de todo o juízo, mas vai-lhes dizendo que será por pouco tempo e que já não chegará aos noventa, como chegaram os avós, como se não acreditasse na robustez das cepas ancestrais.

Não sabemos como acabará a história da Ti Amélia de Guidães, e sempre que por ela perguntamos à Cacilda, responde que está a sumir-se de dia para dia. A ser assim, um dia sumir-se-á de vez, que mais não seja pela fatalidade da lei da vida, mas sabemos que o que não faltam por aí, sobretudo pelas nossas aldeias, são muitas Amélias, que desde que paridas em condição felina, cresceram e viveram de forma arreigada às canseiras da casa, da família, dos animais, do campo e do mato. Nunca tiveram outra realidade para além desse horizonte e mesmo já no fim da curva do caminho da existência, rendidas à incapacidade do corpo e da tristeza da alma, não querem abandonar as paredes que durante uma vida confinaram a sua existência, nem renegar a essa condição primordial, a de que a morte deve estar em harmonia com o que foi a sua vida. Dura e penosa, mas digna até ao fim.

Nós, os mais novos, os filhos e filhas das Ti Amélias, porque já nascidos noutras palhas e crescidos em menos apertos, e mesmo com mentalidades moldadas pela formação e modos de vida modernos, não estamos com a vela bem virada ao vento que empurra o barco dos nossos pais quando velhinhos e decrépitos e vemos nessa forma de ser apenas uma teimosia e casmurrice que atrapalham as nossas vidas, mas sem sabemos lá o que verdadeiramente lhes vai na alma. Para o compreender temos ainda que percorrer e subir o caminho que falta até ao miradouro de onde é possível alcançar esse pleno vislumbre. Mas, que mais não seja, por imperativos da ordem natural das coisas, será fatalmente sempre tarde para acertar as agulhas. A vida não se compadece com preciosismos ou desacertos de ritmos na dança.

A morte, com mais ou menos aparato, virá sempre resolver os dilemas e fechar contas, que mais não seja pela forte razão de que, como diz o ditado, o que não pode ser resolvido, resolvido está.

05.04.24

O "rapa-orelhas""


a. almeida

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Há dias confidenciou-me o Ti Manel do Mouco, sem qualquer assomo de cristandade e crédito ao ensinamento evangélico da necessidade de perdoar 70 vezes 7, que se houver juízo e sentido de justiça no Além, deve estar a arder nas labaredas do inferno, desde há cinquenta e tal anos, a besta quadrada que a ele e a outros mártires ensinou a ler, a escrever e a fazer contas na pobre e única escola da aldeia. Era o professor o terror da criançada e era entre ela conhecido como o "rapa orelhas", já que com a negra cana de bambu, colhida do canteiro que mantinha na horta só para o abastecer desse apetrecho disciplinador, lhes ceifava sem dó nem piedade as orelhas ou o que restava delas. E daí, quem se surpreende por alguns dos nossos mais velhos da aldeia apresentarem-se com orelhas caídas como de perdigueiros ou calejadas de cicatrizes?

Mesmo que não quisesse dar crédito ao azedume ou mesmo ódio do Ti Manel ao "rapa orelhas", devia ter sido mesmo verdade, a ter em conta outros iguais testemunhos de quem teve tão duras lições nessa velha escola. Eram as orelhas, eram as mãos, a cabeça e tudo quanto fosse carne e osso a merecerem os impiedosos castigos do irado professor, com tareias acompanhadas de "elogios" que mais pareciam uma lista de todos os animais domésticos e selvagens, desde o burro e porco ao urso e ao camelo. Até nessa lengalenga era uma lição de fauna a que aqueles pobres coitados aprendiam de cor e salteado de tanto ser repetida.

As crianças faziam de tudo para fugir à escola, como fingir que estavam doentes, chegando mesmo a ferir-se e a emborcar azeite para ficarem de caganeira, mas em regra pouco compaixão encontravam nos pais que não raras vezes aos castigos do professor somavam outras tantas tareias em casa. Por isso queixas era melhor não as fazer quanto mais queixinhas.

Tempos duros esses, com exageros. Nem todos os professores eram assim, mas em boa verdade, quase todos. Deviam ter em comum a disciplina de como bem arriar na canalha. Hoje em dia os absurdos são outros e o barco deu uma volta de 180 graus e são agora os alunos a pôr em sentido os professores e se preciso for vão lá alguns dos pais acrescentar a disciplina a quem a devia administrar.

Estará, pois, a arder, desde há mais de meio século o professor franzino mas de mãos e braços duros e implacáveis na arte de ensinar à moda antiga e de como matar piolhos à canada e por sentença do Ti Manel do Mouco continuará a arder por mais uns séculos. Mas haverá mesmo inferno? Chegou a arrepender-se? Ou, em vez de estar a arder nas labaredas alimentadas a enxofre e alcatrão anda por lá a pôr o diabo em sentido e também a castigá-lo nas orelhas e nos chifres? É que sempre ouvi dizer que certas pessoas são tão más que nem o diabo consegue lidar com elas.

02.04.24

Português ordinário


a. almeida

Faleceu Adolfo Dido. Tinha 95 anos. De origens modestas, filho de um pai carpinteiro e de uma mãe lavradeira, era o mais velho de onze irmãos. Ainda iniciou a escola primária mas bem antes do exame da quarta classe já tinha sido instalado como aprendiz de trolha de um tio paterno. Da escola aprendeu a escrever o nome e a soletrar algumas frases.

Assim, muito cedo começou a ter contacto com o cimento, areia, cal e ladrilhos. Logo depois de amargar na tropa, onde lhe aproveitaram os dons de trolharia para conservar tudo o que era paiol e camarata, abalou até terras de França onde com muitas dificuldades lá arranjou trabalho na construção civil. Depois, casou, teve filhos, netos e bisnetos. Com a idade da reforma regressou à sua aldeia, em terras transmontanas e continuou a ser um comum cidadão, um português ordinário como milhões de outros.

Em face da importância deste português comum, o Governo mandou cumprir três dias de luto nacional e a Junta da aldeia vai erguer-lhe um busto na praça central. De todos os quadrantes da sociedade local e nacional, são inúmeros os testemunhos quanto à importância deste português ordinário pelo seu contributo para a sociedade portuguesa.

Foi o Adolfo Dido um mestre da argamassa e do assentamento de azulejos, sempre à frente do seu tempo, inovador quanto baste, sem renegar o conservadorismo da arte da trolharia e no uso da colher e talocha. Para além disso, destaque pela sua luta contra o regime do Estado Novo, principalmente quando viu um seu painel de azulejos com estrelas vermelhas, martelos e foices, removido da casa de banho de uma escola da freguesia por ser considerado subversivo, por fugir aos tradicionais padrões de flores e passarinhos.

É bom ser-se um português comum, ordinário. Pena que apenas um simples trolha. Fosse desportista e ganhasse uma medalha numa qualquer prova e iria ao palácio de Belém receber um abraço e até uma condecoração por serviços relevantes ao nome da nação valente e imortal. Mas não, porque apenas um português ordinário, assentador de ladrilhos, e destes não reza a história.

 

[nota: estas coisas hoje em dia não se ensinam na escola, mas o termo "ordinário"  significa apenas coisa simples, sem relevância, comum, sem qualidade, modesta, etc.. Não se considere, pois, que o português ordinário, é uma pessoa de maus fígados, mal-educada, ofensiva, reles, etc.]

15.02.24

Aceitação


a. almeida

Quando chegados a uma certa idade, em que com autoridade já podemos dizer a alguns, muitos, que poderíamos ser seu pai ou avô, uma das coisas a que não conseguimos fugir é o reviver de momentos, episódios, situações com que algures, em tempos mais viçosos, fomos confrontados.

O Alberto, entrado nos sessenta, mas conformado com o que a vida lhe deu e tem, não encontra nela grandes remorsos ou arrependimentos, tão simplesmente porque convencido está que isso, como água passada, já nada virá alterar. Mas de quando em vez, como quem faz rewind numa velha cassete do tempo, recorda alguns namoricos e casos sentimentais, ou oportunidades deles, que teve antes de, cansado deles, decidir-se a enlaçar-se com aquela que lhe pareceu ser mais parte de si, a sua Fátima.

Numa dessas viagens ao passado, em que tudo se vê de olhos cerrados, viu-se fresco e viçoso, mesmo na altura em que fora convocado ao serviço militar por onde lá pelas lisboas marchou durante dois anos certinhos. Travara, por essa altura, conhecimento com a Celeste, ainda mais fresca do que ele, quase a transpor a maioridade mas ainda menor.

Durante alguns poucos meses encontravam-se e namoravam sem o saber, em longas ou curtas conversas, em que por vezes falavam mais os olhos que as bocas, e dizia mais o olhar que as palavras. Pelo meio, algumas cartas trocadas, sem subterfúgios ou ideias disfarçadas na semântica. De tão ingénuas e transparentes, poderiam ser cartas de irmãos. E se o Alberto enredava na escrita uma qualquer segunda intenção, só a Celeste a poderia decifrar.

Apesar disso, o Alberto era um rapaz na força da vida e tinha naturalmente desejos de poder colher e saborear aquela frescura rubra de cereja a baloiçar no ramo, que se lhe oferecia, e também o percebia nas feições e palavras da Celeste. Mesmo naquela ocasião em que se viram sozinhos na casa da tia dela, numa tarde de chuvinha macia, ficaram tão perto que o silêncio os cobriu e as mãos tocaram-se numa tímida hesitação. Jovem mas maduro o suficiente para saber o como as coisas se complicam, sabia da diferença de idades e do facto dela ser menor e quando lhe veio a tentação de aproximar os seus lábios dos dela, que lhe pareciam convidativos e serenos como porto seguro, estremeceu e recuou enquanto disse uma qualquer banalidade sobre o tempo. A Celeste enrubesceu e respirou fundo como que a acordar de um sonho de segundos.

Continuaram amigos por mais algum tempo e pouco depois cada um seguiu o seu rumo. Ela emigrou, casou, dizem que ainda não teve filhos. Viam-se, esporadicamente, pelo verão, uma ou outra vez, por circunstância, mas a ele parecia-lhe já distante aquele Celeste, maneirinha, fresca, cabelo comprido, olhos negros e lábios de cereja que ele bem poderia ter saboreado.

Cumpriu a tropa, casou e teve filhos. Sente-se pleno e feliz e nem esta ou outras parecidas situações lhe trazem angústias ou arrependimentos. De resto, para além do medo das consequências, no fundo hesitou e recuou porque jamais poderia lidar com a recusa. Pareceu-lhe que naquele passado momento a Celeste também o convidava, mas nunca se sabe o que vai na alma das mulheres e até mesmo uma rapariga naquele silêncio morno e na brisa do respirar denso da excitação poderia despertar e dizer, não!

Se de tudo aquilo algum dissabor deixou ao Alberto, apenas a incerteza. Como teria sido se deixasse o corpo seguir o seu instinto? Com que consequências para si, para a Celeste ou para ambos?

Não! Não importa imaginar cenários e desfechos. Afinal, a incerteza é sempre um essência da nossa vida. Porque atalhamos pela esquerda e não pela direita ou porque não recuamos ou seguimos em frente? A água, mesmo que desviada, procura sempre caminho. Se fôssemos a dar palco às incertezas, a nossa vida ficaria de tal modo assoberbada que não restaria tempo para a viver. E tão curta que ela é….