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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

13.08.25

Oh, quem me dera


a. almeida

flores pessegueiro.jpg

Nestes dias em que o fogo vocifera,
Num manto denso de chamas vorazes,
A tragar o verde, a vomitar carvão,
Oh, quem me dera, sim, quem me dera
Que minhas lágrimas fossem capazes
De extinguir a braseira deste Verão.

Cansado, dolente, já desejo a frescura
De um Maio de fragrâncias adocicadas,
De brisas frescas que a manhã nos traz,
Ou de um Outono doce de fruta madura,
A prometer neblinas, manhãs de geadas,
Um aconchego morno que só tu me dás.

Oh, quem me dera, sim, quem me dera!

12.08.25

Os contos do José da Xã


a. almeida

Acabei de ler os dois livros que simpaticamente me ofereceu o José da Xã

Li com todo o gosto, e no geral apreciei bastante. Sendo que gostei mais de alguns contos do que de outros, o que é normal, em todos consegui captar emoções, sentimentos e mensagens.

A escrita do José é envolvente, descritiva, e coloca-nos facilmente nos diferentes ambientes,  juntos e mesmo na pele das personagens — quase como se estivéssemos a assistir in loco.

Dentro dos meus gostos pessoais, e cada leitor tem as suas manias, senti que alguns finais ficaram com algo em aberto, como se a pedirem um desfecho mais forte, mas, ainda assim, na maioria, sintomáticos e mesmo a deixarem uma introspecção, quase como a convidar o leitor a concluir de acordo com a mensagem que extraíu de cada história, pelo que cada final pode ter diferentes conclusões.

Fico agradecido ao José pela oferta e deixo o meu incentivo para que continue a escrever — porque, com essa capacidade narrativa pode facilmente entrar em algo mais ambicioso.

31.07.25

Agora que a tempestade passou


a. almeida

cabelo flores.jpg

De nada vale viver entre feridas
Profundas, cruéis, dolorosas,
Quando apenas o amor interessa
Se vivido em abraço pleno.
Porquê, então, desperdiçar vidas
Em labutas desesperançosas,
Em constante e cansada pressa,
A transformar o grande em pequeno?

Agora que a tempestade passou,
O vento não é mais que brisa
A fazer dançar o teu cabelo
Todo entrançado em flores.
Agora que já descobri o que sou
A minh´alma mais nada precisa
Do que amar-te com desvelo
E seguir-te p´ra onde fores.

27.06.25

O canto da terra


a. almeida

Não sou músico nem poeta
De Orfeu e Homero não recebi lar
Por isso, deles o que faça,
Haverá de ser coisa feia.

Mas, se até a um perneta
Não se nega o direito a caminhar,
Mesmo que pobre, sem graça,
Hei-de cantar minh´ aldeia.

Merece ser toda e bem cantada,
Mesmo que pelos grilos e aves,
O negro melro, o rouxinol, o pisco,
Numa sinfonia em entoação.

O poema pode ser a terra lavrada
Pela charrua em versos suaves,
O semeador a desenhar um risco
Donde brotará o fruto do pão.

25.06.25

O Júlio e o Julião


a. almeida

Naquele bocado de terra perdida no mapa, onde o tempo passa lentamente e os galos cantam como quem desfia segredos antigos, ergue-se Pateiras — uma aldeia pequena de corpo, mas larga de língua, onde todos se conhecem, poucos se aturam e ninguém perdoa.
Foi ali, entre o repique diário do sino da igreja e o tilintar dos copos na tasca do Felisberto, que o Julião fincou pé, depois de uma vida feita mais de manha que de suor, como ele próprio se gaba. Dizem que anda feliz, e que a vida lhe tem sorrido. Mas a verdade, murmuram as paredes e as velhas nas soleiras, é que ele soube foi onde dar a dentada.
Duplamente reformado, de lá, do Luxemburgo, e de cá, da função pública, de um cargo que, dizem — porventura as más línguas — chulou até ao tutano, goza agora as delícias da velhice, entretido entre netos, criação de coelhos e cultivo de nabos, nabiças e outras hortaliças na sua horta de estimação.
Nascido e criado na freguesia de Carregães, de origens pobretanas, filho de pai incógnito e da Micas da Estrela, deu à costa na aldeia de Pateiras num dia de festa à Senhora do Amparo, e de um namorico morno, insípido mas fecundo, acabou, qual raposa, a assaltar o galinheiro da abastada e rendida casa dos Figueiras, casando com um dos seus "pitos ricos".
Cometeu, porém, a imprudência de se ausentar do galinheiro, ainda morno da segunda galadura, emigrando por uma boa dúzia de anos, pelo que desde cedo tem marrado que baste à custa desta sua "galinha chocadeira", mas isso são outras histórias.
Apesar desta sua boa posição, com chorudas reformas da estranja e do Estado, o Julião viveu quase sempre ao lado da vida, vivências e convivências da aldeia, fugindo como do diabo da Cruz a tudo o que cheirasse a cargos, canseiras e responsabilidades.
Confraria ou comissão de obras ou de festas que lhe batesse à porta, levava a esmola, sempre de tostões, mas não sem ouvir o responso, o pai-nosso e o sermão. Estava sempre na linha da frente do escárnio e maldizer, do bota-abaixo, sempre no seu ar de pimpão, vestido da mais elevada moralidade.
Em suma, era um figurão de Pateiras, mas não passava disso mesmo: um figurão vazio, cheio de nada. Um burro carregado de libras, como o considerava muito do povo da terra.
Não surpreendeu, pois, que, um dia destes, ao balcão da tasca do Felisberto, já com uns copos de tinto Malaquias a transbordar, o Júlio tenha tomado a voz do grupo, em que — por um destes acasos de conversas de café — veio à baila a importância do Julião para a terra, para, com a voz já avinhada, sentenciar:
— O Julião é mas é um grande filho-da-puta! E corno, ainda por cima! Faz cá tanta falta como uma viola num enterro!
Ficaram todos de boca aberta, mudos e calados, num silêncio de arrebatamento e concordância por tão acertada descrição.
O Julião podia ser um figurão, mas o Júlio, esse sim, era um artista que, com uma paleta de coloridos palavrões, dissolvidos a vinho verde, pintava, qual mestre do mais puro realismo, os juliões da aldeia. Para além de verde ou maduro, branco ou tinto, apreciava e comia galinha de capoeiras sem galo, como a do Julião — ao que dizem, à fartazana — que nem canja dada a mulher parida.

13.06.25

Bonança


a. almeida

Pintou-se de negro o céu,
Tão negro como de carvão,
Numa paleta enfarruscada,
Em promessa de tempestade.

Daí a nada, rasgou-se o véu
Num súbito e denso clarão,
Irrompendo dele a trovoada
Caindo, raivosa, em liberdade.

Portas e janelas fechadas,
Gente e bichos nos buracos,
Porque a fera mete medo
Do mais velho à criança

Mas de nuvens já clareadas,
No céu aberto em farrapos,
Espreita o sol em segredo
Num aviso de há bonança.

Portas e janelas já abertas,
Os bichos, esses todos fora,
Aves no sossegado chilreio,
O sol todo janelas adentro.

Há assim, em horas incertas,
O saber que tudo tem hora
E que algures, lá pelo meio,
Há o equilíbrio, o centro.

Não há mal que sempre dure
Nem bem que não se acabe,
Diz, de sabida razão, o povo;

Talvez a doença até nos cure,
O final do mal, quem o sabe,
Seja o bem a nascer de novo.