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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

25.11.25

Espelho meu, qual o 25 mais importante?


a. almeida

Ausência do PCP na cerimónia do 25 de Novembro? Como diria o Asterix, óh pá, fazem tanta falta como uma viola num enterro. 

Quanto à discussão sobre qual data tem mais importência, se o 25 de Abril se o 25 de Novembro, é chover no molhado. Ambas tiveram importância, cada uma no contexto próprio. É como discutir o sexo dos anjos ou se é mais importante para a vida a água ou o ar.

Ambas devem ser celebradas. Se uma nos devolveu a liberdade e a mudança de regime, a outra cimentou-a e livrou-nos de uma nova ditadura, dessa feita, pendida à extrema esquerda.

11.06.25

A lengalenga da pureza


a. almeida

A celebração do 10 de Junho é um momento para alguns políticos e alguns ilustres convidados, proferirem uns discursos mais ou menos líricos, filosóficos e existencialistas que, em bom rigor, a poucos interessam. Até a Lídia Jorge veio ao púlpito filosofar. Há quem diga mais por menos e, como disse Saramago, a pessoa mais sábia que tinha conhecido em toda a sua vida não sabia ler nem escrever.

Confesso que esta história do sermos - enquanto portugueses - puros ou não, como se estivéssemos a falar do pedigree de cavalos, cães ou gatos, seja lá o que isso queira significar, é uma boa e grande treta e desde logo porque é questão que sinto que nunca se colocou na nossa sociedade. Colocaram-na os nazis e sabe-se o resultado.

Quero lá saber se os meus mais recuados antanhos foram pretos ou brancos, amarelos ou vermelhos, senhores, criados ou escravos, castigadores ou castigados, africanos ou asiáticos, do pólo norte ou do sul?

Do que, pelas minhas pesquisas genealógicas, já recuei nas raízes dos meus, mais coisa menos coisa, tirando alguns que andaram pelo Brasil, como quase todos, não encontrei ninguém que fosse dado como extraterrestre, de Marte ou mais além. Escravos, sim, foram todos, do trabalho pela susbistência de si próprios e dos seus, porque a Nação, a Pátria, o Estado, nunca foram de dar, antes de subtrair.

Este tema que dominou os discursos do 10 de Junho, creio que nem interessaria a Camões. A mim, fosse da caminhada de quase 15 km por montes e vales, do ar de trovoada que se sentia ou efeitos do Quinta da Companhia, um fantástico verde, que se rematou com um bom punhado de cerejas de Resende, deu-me sono.

Importante, seria, que mais que os discursos fossem acções e que mais que a gente ilustre seja dada importância, valor e reconhecimento aos portuguêses comuns, aos que no dia a dia trabalham com dignidade, cumpriram e cumprem as suas obrigações, mesmo que o Estado seja mau reconhecedor e mestre na desconsideração. Neste leque, de gente que perdeu a vida ou ficou com ela mutilada nas coisas da tropa e da guerra. Felizmente, por mim, nem uma coisa nem outra, regressei vivo e inteiro mas maracdo e saí de lá de bolsos vazios em que a paga de dois anos de serviço obrigatório não deu sequer para pagar os quartos de bilhete num comboio lento e manhoso de norte para sul e retorno. O Estado, que tanta coisa nos faz de forma automática, como emitir a nota de cobrança do imposto de IMI, ou executar qualquer dívida pelo atraso no seu pagamento, sem apelo nem agravo, não se dignou a automatizar esse meu tempo de tropa na contagem dos anos para a reforma, obrigando-me, e aos interessados, a submeterem-se à burocracia, a preencher requerimentos, a fazer o pedido e esperar o favor do deferimento por um qualquer director afilhado do partidarismo.

Posto isto, quanto ao discurso e tema, balelas de uma escritora inspirada e do popularucho da nação, que nada acrescentam. Um desperdício de tempo e dinheiro. 

05.05.25

Dia Mundial da Língua Portuguesa - Borá lá! Let's go!


a. almeida

Celebra-se neste 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa.  Servirá de pouco no que toca à sua defesa e promoção, porque desvalorizada e desconsiderada, mesmo por quem tem a maior responsabilidade de o fazer, os próprios portugueses e as suas instituições.

É apenas um pintelho de amostra, mas ainda ontem à tarde, quando assistia pela televisão ao desfile do Dia da Flor, na Madeira, uma espécia de Carnaval II, o acompanhamento musical era com canções em inglês. Não soubesse do que se tratava, poderia pensar que era um qualquer musical na Broadway. Mas não! Bem sei que por ali estariam muitos camones, que de avião ou de navio cruzeiro vieram trazer pilim à economia local, mas não havia necessidade de tanta internacionalização, até porque, presumo, que os bons turistas pagam precisamente para verem cultura e tradições locais, incluindo a língua e a cultura musical.

Mas os atropelos, a parolice, são mais que muitos, tanto nos média como em tudo o que seja evento, desportivo, cultural ou musical, com uso e abuso de termos em inglês. Ainda há dias um amigo, que restaurou um velho curral de cabras junto a um ribeiro e o preparou para lojamento local, deu-lhe o pomposo nome de Little House River. Uma qualquer prova de corridas, que são mais que muitas,  pode ter designações como Summer Trail, Triangle Trail, Epic Trail, Ultra Trail, Ultimate Trail, Run Challenger, etc, etc, mesmo que realizadas nas mais recônditas aldeias serranas e entre milhares de participantes não se encontrar um estrangeiro.

Mesmo os média, como dizia, não dispensam o uso e abuso de inglesismos, nem dispensa os pingarelhos como Got Talent, The Voice of, Master Chef, etc, etc.

De facto, não há amor próprio pela nossa língua. Quando assim é, é o que é.

Bora lá que este tipo cenas são curtidas! Oh yeah, let's go!

25.04.25

O 25 de Abril, o velho, o rapaz e o burro


a. almeida

Não assisti à cerimónia do 25 de Abril que decorreu na Assembleia da República (tinha mias que fazer), mas passando os olhos pelas "gordas da comunicação social, parece que a Esquerda desancou no Governo a propósito do adiamento da parte festiva da comemoração. Era o expectável.

Independentemente de o Governo se pôr ou não a jeito, e acho que se pôs, sejamos pragmáticos: A Esquerda, perante um Governo de Direita, ontem, hoje ou amanhã, mesmo que já em transição para novas eleições, e por isso em pleno período de campanha eleitoral, criticaria sempre, fosse pelo que fosse, por ter cão ou não ter, muito ao jeito da fábula de "O velho, o rapaz e o burro". Por conseguinte, apeado, em cima da besta sozinho ou com o rapaz, o Governo nunca se livraria das queixas e acusações. Faz parte do cardápio e das regras estar sempre contra, seja lá pelo que for — e, se não houvesse motivos, inventavam-se!

Não obstante, para o bem ou para o mal, o povo no geral, já os topou ao longe e já sabe do que a casa gasta pelo que, como se diz por cá, "vêm de carrinho".

21.03.25

Dia Mundial da Poesia


a. almeida

As cores e o poeta

Tantas vezes é o poeta um pintor
Que só usa a paleta de cinzentos,
Ainda com as cores por descobrir.
Nas suas telas há angústia, há dor,
Como se todos os seus fundamentos
Assentem no vislumbre de nos ferir.

E, contudo, mais que tudo, há o céu,
Há montes e vales, flores a pedir cor,
O sol a nascer, romper de luz o breu
Da noite escura dos olhos do pintor.

Não quebrou, o poeta, a corrente, o elo
Que o liga à cor das coisas, do mundo,
Mas apenas pinta conforme o fantasia;
O azul, o vermelho, o verde e amarelo
São cores que tem num olhar profundo
Mas guardadas só para pintar a alegria.

21.01.25

Evocação a Torga


a. almeida

Passou-me despercebida a data, mas ainda a tempo de a evocar, a passagem dos 30 anos sobre a sua morte. Miguel Torga, vulto maior da nossa literatura, poesia e pensamento deixou-nos em 17 de janeiro de 1995.

torga1 (1).jpg

Foi no seu reino encantado,
Parido na dureza do granito,
Na aspereza das colinas famintas
Onde o vento agreste ceifa fundo.

Mas logo que feito, despontado,
Num assomo de homem, rapazito,
Galgou mares, ao destino fez fintas
E tornou-se pleno homem do mundo.

Fez-se doutor, a dor a mitigar
Aos corpos rudes, à alma, ao país
Sem liberdade, como ferida aberta;

Deu por perdida a luta de se encontrar,
Um homem a não querer dar-se por feliz,
Mas se sim, na liberdade, no ser poeta.