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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

24.10.25

Semeando ventos, colhedo tempestades


a. almeida

Na linha do anterior post, ou em complemento, são, de facto, cada vez mais correntes os episódios de agressões de filhos, mesmo de crianças, aos pais, de alunos aos professores, dos bandidos às forças de segurança e autoridade. No limite, como ainda agora esta semana, a notícia chocante de um filho adolescente, com 14 anos, em Vagos, a assassinar a mãe à queima-roupa, por motivos completamente fúteis. Paralelamente parece registar-se uma onda de suicídios de gente jovem, como ainda ontem na minha comunidade, com um jovem de 25 anos a pôr termo à vida.

O que estará a contecer? Estamos a colher os frutos do que temos vindo a semear enquanto sociedade, que, com políticas centrais erradas e permissivas, tem vindo a desleixar ou mesmo a perder valores, como a importância da família, da autoridade e da disciplina?

Algumas reflexões e possíveis causas:

- Crise de sentido e de valores:

É certo! Vivemos numa época de grande incerteza — moral, social e emocional. As referências tradicionais (família, religião, comunidade, escola) perderam quase toda a sua autoridade e coesão, porque lha retiraram. Muitos jovens crescem sem uma orientação clara, sentindo-se perdidos, sem propósito ou esperança.

- Má influência das redes sociais e da cultura digital

As redes sociais têm tido um impacto enorme na autoestima, na perceção da realidade e nas relações humanas.

Comparação constante: Os jovens comparam-se com vidas "perfeitas" e sentem-se inferiores e insatisfeitos com a vida que têm.

Desumanização: O excesso de interações virtuais ajudar a diminuir a empatia e aumentar comportamentos agressivos.

Banalização da violência e morte, nas redes sociais, na televisão, no cinema, nos jogos, etc.

Isolamento: Apesar da hiper-conectividade, há solidão e sensação de desconexão real. Tão próximos e tão distantes.

- Famílias fragilizadas e ausência emocional

A família convencional está cada vez mais desestruturada. Os divórcios são coisa vulgar com todos os problemas inerentes quanto ao enquadramento dos filhos. Em muitas famílias, há pais ausentes (mesmo que fisicamente presentes); falta de diálogo e escuta; sobrecarga emocional e económica; inversão de papéis (filhos com demasiado poder, pais sem autoridade).

O amor sem limites e a ausência de estrutura podem ser tão prejudiciais quanto o autoritarismo e a falta de afecto.

- Pressão psicológica e saúde mental

A ansiedade, a depressão e outros distúrbios emocionais estão a aumentar de forma alarmante entre jovens. As causas incluem: exigência de sucesso constante (escola, aparência, popularidade); insegurança quanto ao futuro; falta de espaço para lidar com a frustração e o erro.

Muitos jovens não aprenderam a gerir emoções — e quando a dor se torna insuportável, alguns dirigem-na contra si próprios (suicídio) ou contra os outros (violência).

- Contexto social e cultural mais amplo

Vivemos num mundo marcado por desigualdade e sensação de injustiça; consumo como valor central (o ter a ser mais importante que o ser); perda da confiança nas instituições; percepção de insegurança e descrédito das entidades que a deviam controlar;  discurso público agressivo e polarizado.

Tudo isso cria um ambiente emocional tóxico, onde a empatia e o respeito pelos outros, incluindo próximos, parecem estar em falta.

- Para uma pergunta de100 milhões de euros para a resposta certa, o que se pode fazer, sabendo-se que as coisas já não se resolvem apenas no seio familiar mas com medidas de carácter geral que envolva a sociedade e o próprio Estado, no que parece ser uma impossibilidade de inversão do combóio em movimento?

20.10.25

O "investimento" a dar frutos


a. almeida

Da imprensa - RTP: "APAV. Mais de 2.800 pais pediram ajuda por violência dos filhos nos últimos três anos.
O número de progenitores agredidos pelos filhos que pediram ajuda à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima aumentou mais de 27% nos últimos três anos, ultrapassando as 2.800 pessoas, uma média de 2,6 casos por dia.

Segundo as estatísticas da APAV sobre "Filhos/as que agridem Os Pais/As Mães", a que a Lusa teve acesso, entre 2022 e 2024, o número de vítimas aumentou de ano para ano, registando-se 815 casos no primeiro ano, 962 no ano seguinte e 1.036 em 2024.

Significa que, no global, há um aumento de 27,1% e que, em média, a APAV ajudou cerca de 78 pessoas por mês, 18 por semana e 2,6 por dia.

Em declarações à Lusa, Cynthia Silva, criminóloga na APAV, apontou que este aumento "pode significar que há mais vítimas a procurarem o apoio da APAV", o que é um "aspeto positivo", mas chamou a atenção para outra percentagem, a das pessoas que ficam em silêncio."

Uma conclusão:
Tempos houve em que a ordem e disciplina na casa eram impostas com mão dura e castigos pesados. Nunca fui dos mais travessos e por isso menos atingido, mas numa casa com 10 filhos, o meu pai também impunha a ordem, mesmo sem severidade extrema. Na vizinhança, raro era o casal que não tinha pelo menos meia dúzia de filhos e até era normal o dobro disso. A tónica comum era mesmo a disciplina rigorosa. Aprendiam uns pelos outros.

Ainda assim, decorridos todos estes anos, sinto que cada castigo que me foi aplicado mostrou-se necessário e pedagógico e porventura até com algum défice. Todos os restantes irmãos não se livraram disso e todos deram homens e mulheres a sério. Mas, claro que havia excessos, muitos, porque em boa parte era cultural, e se houvesse queixinhas pelo rigor da professora na escola, a dose dobrava em casa. Era certinho e direitinho.

No entretanto os tempos mudaram e, bem à portuguesa, depressa se passou do 8 para o 80, com todos os exageros. Agora não se pode falar alto ou dar um tabefe a um filho ou a um aluno, por mais merecido que seja, por ser o mais rufia, indsciplinado e até ofensivo para os pais, professores ou colegas. Estamos no tempo do absurdo e dele não escapam as instituições. Em muitos casos são os pais a ofenderem-se que os professores os substituam no dever da educação que, no geral, é nenhuma. Indignam-se com uma repreensão. É motivo de queixa e, tantas vezes, de esperas ameaçadoras no final das aulas

Assim, estas notícias de que já não são os pais os agressores dos filhos, mas o contrário, e os números revelados serão apenas a pontinha do icebergue, tenho cá para mim que para muitos pensadores, estes sinais são de progresso. No fim de contas, a política do desleixo e da permissividade a todo o custo, em que a disciplina e a ordem são coisas para relevar ou mesmo proibidas, está já a dar frutos. Devem, pois, estar muito satisfeitos todos os arautos e defensores de que as criancinhas não devem ser submetidas ao processo da educação e da disciplina, mesmo que isso implique levantar-lhes a voz, dizer-lhes que não, e mesmo a aplicação de uns bons  tabefes se necessários.

Em suma, é sempre bom quando o "investimento" começa a resultar.

Deitem foguetes!

13.06.24

Infantilidades


a. almeida

Li na imprensa de ontem, que o "trabalho artístico está a aumentar entre as crianças", sendo cada vez maior o número de solicitações, sobretudo para actores e músicos e que, consultados os especialistas da coisa, estes mostram-se preocupados com a "pressão mediática" e tudo o mais que mexa com o natural desenvolvimento dos infantis. Os pais, esses querem é que os petizes sejam todos famosos e assim de pequeninos lhes vão torcendo os pepinos.

Como também tenho direito à opinião, considero que tudo isto é uma enorme hipocrisia de uma sociedade e leis que fazem distinção entre o trabalho, não colocando todas as suas áreas no mesmo plano de igualdade e dignidade, como se um actor, músico ou futebolista sejam diferentes de um pedreiro, mineiro ou agricultor. Logo é permitido trabalho infantil nas ditas áreas "artísticas" mas não noutras actividades, mesmo que compatíveis com as possibilidades físicas de cada idade, e muitas seriam capzes de também "instruir e formar". E digo-o eu, com a autoridade de quem começou a trabalhar numa fábrica ainda com 12 anos incompletos e não deixou, por isso, de estudar de noite e trabalhar de dia, comprar terreno, construir casa, ter filhos, educá-los e dar-lhes formação superior, sem ajuda de ninguém nem do Estado. Não é para todos? Pois não, é que isso implica trabalho e sacrifício constantes, e privações sim (bons carros, férias e viagens), e por ora ninguém gosta desta sobremesa.

Mas é disto que a casa gasta e assim vamos tendo nas escolas matulões e matulonas, sem nada fazer, sem aproveitamento escolar, ou pelo sistema a serem empurrados para a frente porque importa mostrar resultados, limitando-se a ocupar e a gastar recursos, a serem pesados encargos para os pais, na generalidade sem possibilidades, e para o Estado, como quem diz, para todos nós. Mas andam por ali.

Com tudo isto, não sou a favor, de todo, do trabalho infantil, porque o senti na pele, mas também não sou a favor desta hipocrisia geral e distinção entre o trabalho, quando no fundo andamos todos para aqui a berrar direitos e igualdades. Mas não me faria espécie que a idade de escolaridade obrigatória fosse revista e ficasse pelo nono ano e que a partir daí estude quem queira com vontade e empenho e tenha objectivo aproveitamento escolar, não simulado, e comece a trabalhar, efectivamente, em áreas adequadas às idades ou com formação mais técnica e manual com vista à subsequente integração no mercado de trabalho. 

Não sendo assim, andamos, sem meios para tal, à procura de uma sociedade onde todos possam ser doutores e engenheiros e a promover trabalho infantil para uma classe de actores e cantores, a preencher elencos de telenovelas e realities shows. Depois, para o resto, que venham os imigrantes desqualificados para nos plantar as batatas, colher os tomates e mirtilos, pescar as sardinhas e carapaus, construir as casas e fazer estradas, servir-nos nos restaurantes ou limpar o lixo que deixamos nas ruas.

29.05.24

Falar mal, escrever pior


a. almeida

Falamos mal e escrevemos pior porque na realidade não praticamos nem exercitamos de forma continuada e proactiva. E se quanto ao falar, a isso somos obrigados, nem que seja para pedir pão na padaria e carapaus na peixaria, já o escrever, nem por isso. Mesmo que o analfabetismo seja apenas residual e nas gerações mais idosas, por motivos compreensíveis, a verdade é que substancial é o analfabetismo funcional no que se refere à escrita, mas não só. Para além de dificuldades de oralidade e escrita, há a somar muita incapacidade de ouvir e de perceber o que se diz e escreve.

Acontece que a proliferação e generalização das redes sociais e das mensagens de texto vieram de algum modo obrigar-nos a recorrer à escrita, e aí é que a porca tem torcido o rabo porque, expostos, os maus exemplos de mal escrever são mais que muitos, mesmo que em textos curtos, muitas vezes numa simples frase. Mas ninguém sente pudor por isso, quanto menos vergonha, a ponto de se auto-instruir e melhorar. Siga!

Claro que podem dizer que mesmo escrevendo mal se fazem entender, ou que escrevem mal porque os dedos, finos ou grossos não tocam nas letras certas do ecrã do telemóvel, mas isso não desresponsabiliza quem reiteradamente escreve mal e porcamente e dá testemunho disso, não com pudor mas até com um certo orgulho espertalhão como se o escrever mal seja uma naturalidade e com a desculpa de que  "...para o que é, serve". De resto, uma gralha, a falha de uma ou outra vogal, é perceptível, mas  como desculpa do mau escrever, não pega de todo. Mas lá vamos rindo e cantando usando abreviaturas e onomatopeias e emojis, dando chutos no cu das pontuações, como se vírgulas e pontos sejam coisas de somenos importância na nossa língua.

Assim, quem escreve mal, de um modo geral não procura instruir-se, voltar a pegar nos livros de gramática e aumentar o seu vocabulário. Em suma, ler e escrever mais, não apenas curtas frases mas textos com algum significado e estrutura. É a ler, boa literatura, e a escrever, que melhor se pode falar e bem escrever. 

Há estudos que referem que em Portugal mais de 60% da população não lê um único livro durante cada ano, quando muito vai lendo as "gordas" dos jornais ou dos roda-pés dos noticiários televisivos, estes nem sempre bons professores porque tantas vezes com erros e gralhas. Por aqui percebe-se muito do estado das coisas a que chegamos. 

Assim, ainda de um modo geral, mesmo entre os nossos "amigos" das redes sociais, são raros aqueles que se aventuram a publicar textos, opiniões, ideias ou pensamentos com  mais que duas ou três linhas. Temos, pois, uma comunidade que escreve apenas de forma reactiva e raramente activa. Para esses os donos das redes sociais até criaram os tais botões de likes e emojis para com um simples boneco se poder expressar sentimentos e reacções. Somos, definitivamente, reactivos. E percebe-se o porquê de uma grande parte dos utilizadores recorrerem aos ditos memes e partilha de catrefadas de textos e mensagens em vez de os produzirem de sua própria autoria.

Não surpreende que neste contexto a malta da escrita, os opinion makers, quase não se encontrem pelas redes sociais, nomeadamente no Facebook. Mesmo em outras contas que frequento, esses autores são raridades e invariavelmente ao fim de algum tempo ausentam-se porque sentem que estão a ser chuva no chão molhado, deslocados como um adepto rival no meio da bancada do clube da casa. Quem os quiser ler e seguir tem que ir aos seus próprios espaços, como blogs ou em artigos de jornais online. Não nas redes sociais. Mas, verdade seja dita, quem os segue ou procura ler, não é quem fala e escreve mal. Esses gostam, no geral, de coisas curtas, divertidas, frases feitas, nada de muito substancial, e num repente um simples "peido" colhe centenas de likes enquanto que um interessante artigo passa ignorado. Não falo por mim, porque sei do que a casa gasta, mas é mesmo assim num sentido geral. É, afinal de contas, a cultura da banalização, se quisermos, da vulgaridade exponenciada.

Em suma, frequentar as redes sociais pode ser interessante para manifestarmos os nossos egos, exibir as nossas habilidades, os nossos recordes nas corridas, mostrar o que comemos, o que vestimos, o desporto que praticamos, os sítios que visitamos, expondo-nos, a nós e aos nossos, mais do que na justa medida, mas em rigor pouco aprendemos sob um ponto de vista de partilha de ideias e raramente damos valor a quem as expressa de forma estruturada, mesmo que não concordemos com elas. E desse modo não deixa de ser paradoxal que em ferramentas capacitadas ou ideais para isso, as usemos de forma desadequada, quase em sentido contrário, um pouco como usar uma moto-serra para cortar cabelo ou luvas de boxe para segurar agulhas.

Mas, como diria alguém, é a vida, e na diversidade é que está a riqueza, mesmo que o nivelamento, pelo que se vê,  se vá fazendo por baixo. 

Este é apenas um ponto de vista muito pessoal, susceptível de contraditório. Não é, pois, uma homilia, mas, todavia, como remata o padre no fim dela, "- Que assim seja!".