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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

12.08.25

Os contos do José da Xã


a. almeida

Acabei de ler os dois livros que simpaticamente me ofereceu o José da Xã

Li com todo o gosto, e no geral apreciei bastante. Sendo que gostei mais de alguns contos do que de outros, o que é normal, em todos consegui captar emoções, sentimentos e mensagens.

A escrita do José é envolvente, descritiva, e coloca-nos facilmente nos diferentes ambientes,  juntos e mesmo na pele das personagens — quase como se estivéssemos a assistir in loco.

Dentro dos meus gostos pessoais, e cada leitor tem as suas manias, senti que alguns finais ficaram com algo em aberto, como se a pedirem um desfecho mais forte, mas, ainda assim, na maioria, sintomáticos e mesmo a deixarem uma introspecção, quase como a convidar o leitor a concluir de acordo com a mensagem que extraíu de cada história, pelo que cada final pode ter diferentes conclusões.

Fico agradecido ao José pela oferta e deixo o meu incentivo para que continue a escrever — porque, com essa capacidade narrativa pode facilmente entrar em algo mais ambicioso.

21.05.24

No país do esquecimento


a. almeida

Homenagem J Rentes de Carvalho.jpg
Uma justa homenagem a um grande escritor que apesar da sua obra e da sua idade e do reconhecimento que já vai tendo, ainda, no geral, muito esquecido pelo mundo da escrita e de quem com o dever de a defender, valorizar e divulgar. Arrisca-se que tal reconhecimento, como é norma neste torrão, surja depois da sua morte que, apesar da bonita idade, se deseja que  ainda tarde.

Tenho programado um passeio, neste próximo fim-de-semana por Trás-os-Montes e do roteiro espero passar por Estevais-Mogadouro. É pena que, com uma semana de antecedência não tenha a oportunidade de assistir a este evento. Além do mais, estará lá o Mário Augusto, de quem tenho o prazer de já ter privado e a honra de ter estado presente na apresentação de um meu livro. Gente boa, gente da escrita e do pensamento.

Mas fica aqui um abraço ao J. Rentes de Carvalho. Com jeitinho, ainda o encontrarei por Estevais no próximo Domingo. Pelo sim e pelo não, levarei comigo alguns dos seus livros. Quem sabe se não colherei um autógrafo.

22.04.24

Cortejo do politicamente correcto


a. almeida

O tão grande quanto ainda desconhecido J. Rentes de Carvalho, titula o pensamento como Maquilhagem. Eu, tomo a liberdade de o titular como "Cortejo do politicamente correcto". Em véspera dos 50 anos sobre o 25 de Abril de 1974, ajusta-se como um retrato em 4K, em alta definição.

"A arte de existir, se arte se lhe pode chamar, está na paciência de sofrer o desânimo, no ver semicerrando os olhos, no respirar fundo e depois, lentamente, deixar que com o sopro escape também a náusea e a desilusão.
Porque tudo é teatro, adereços, bastidores, maquilhagem. São tantos os actores como os pontos que lhes sussurram as palavras a dizer, as atitudes a tomar, lhes mostram o caminho do proveito e os escolhos em que se tropeça.
Actores, pontos, os que tocam a música, vão todos em fila, que é o mais seguro, debitando a monótona ladainha da aceitação, confortados por igualdades e direitos que imaginam, por certezas que lhes garantem tão seguras como o nascer do Sol.
O remédio é entrar no cortejo e ir também, cantar com eles, bater palmas, mostrar entusiasmo quando o arauto anunciar a passagem do rei e o esplendor do seu manto."

 

[J. Rentes de Carvalho - in Tempo Contado]

15.02.24

Mas para quê?


a. almeida

"Para quê tanto berro? Que querem vocês? Que adianta esse atirar de lama e insultos? Gritam que governe quem governar nada mudará, só as moscas serão outras. Pensaram bem? Então nestes anos todos escapou-lhes que as moscas são sempre as mesmas e cresce a estrumeira onde elas engordam?

Por que esperam? Um redentor? Já não há. Revoltas e revoluções também não. Aliás, é sempre melhor que as faça quem sabe, pois das dos amadores resulta o que temos.

Berram vocês na internet, exigindo mudanças e melhorias, mas a internet não é praça pública, nem tribuna, nem sequer o café. É um nevoeiro. E um blogue poderá dar-vos a ilusão de ser trombeta, mas nem chega a apito, é um murmúrio.

Passam por lá dez, cem, mil visitantes? Dois mil? Pois passam. Espreitam, farejam, lêem umas linhas, esquecem. Os mentecaptos – linda palavra doutro tempo – aproveitam para vomitar ódio nos comentários. Parece movimento e é só vento. Uma pequenina, triste, por vezes cómica sarabanda, diversão púbere, mau grado as doutas e menos doutas análises políticas, económicas, sociais, as profecias de desastres e misérias que não se levam a sério. Porque é só falação, entretenimento, a aragem a fingir de ciclone.

Mas a realidade – contenho-me para não dizer, a triste realidade – é que o tempo passa. O meu já passou, mas vocês têm quê? Vinte e cinco? Trinta? Quarenta anos? Na força da vida e sem genica, sem ideal, sem sonhos, aos berros de que isto está mau e vai piorar?

Ninguém vos ouve, o vosso berreiro nem sequer faz eco."

 

[J. Rentes de Carvalho - Tempo Contado]