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Diário de quem já não vai para novo

...porque as palavras são a voz da alma.

Diário de quem já não vai para novo

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02.04.24

Português ordinário


a. almeida

Faleceu Adolfo Dido. Tinha 95 anos. De origens modestas, filho de um pai carpinteiro e de uma mãe lavradeira, era o mais velho de onze irmãos. Ainda iniciou a escola primária mas bem antes do exame da quarta classe já tinha sido instalado como aprendiz de trolha de um tio paterno. Da escola aprendeu a escrever o nome e a soletrar algumas frases.

Assim, muito cedo começou a ter contacto com o cimento, areia, cal e ladrilhos. Logo depois de amargar na tropa, onde lhe aproveitaram os dons de trolharia para conservar tudo o que era paiol e camarata, abalou até terras de França onde com muitas dificuldades lá arranjou trabalho na construção civil. Depois, casou, teve filhos, netos e bisnetos. Com a idade da reforma regressou à sua aldeia, em terras transmontanas e continuou a ser um comum cidadão, um português ordinário como milhões de outros.

Em face da importância deste português comum, o Governo mandou cumprir três dias de luto nacional e a Junta da aldeia vai erguer-lhe um busto na praça central. De todos os quadrantes da sociedade local e nacional, são inúmeros os testemunhos quanto à importância deste português ordinário pelo seu contributo para a sociedade portuguesa.

Foi o Adolfo Dido um mestre da argamassa e do assentamento de azulejos, sempre à frente do seu tempo, inovador quanto baste, sem renegar o conservadorismo da arte da trolharia e no uso da colher e talocha. Para além disso, destaque pela sua luta contra o regime do Estado Novo, principalmente quando viu um seu painel de azulejos com estrelas vermelhas, martelos e foices, removido da casa de banho de uma escola da freguesia por ser considerado subversivo, por fugir aos tradicionais padrões de flores e passarinhos.

É bom ser-se um português comum, ordinário. Pena que apenas um simples trolha. Fosse desportista e ganhasse uma medalha numa qualquer prova e iria ao palácio de Belém receber um abraço e até uma condecoração por serviços relevantes ao nome da nação valente e imortal. Mas não, porque apenas um português ordinário, assentador de ladrilhos, e destes não reza a história.

 

[nota: estas coisas hoje em dia não se ensinam na escola, mas o termo "ordinário"  significa apenas coisa simples, sem relevância, comum, sem qualidade, modesta, etc.. Não se considere, pois, que o português ordinário, é uma pessoa de maus fígados, mal-educada, ofensiva, reles, etc.]