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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

04.07.25

O seu a seu dono


a. almeida

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Chegam manhã cedo, nos seus bons carros, bem equipados e calçados, com bons aparelhos de GPS, computadores de pulso, mochilas com despensa de bebidas energéticas e alimentos de absorção rápida, e percorrem a serra em corridas mais ou menos apressadas, de olhos no chão e nos relógios, a contar minutos e segundos. Da paisagem, nessa pressa, fica apenas um ar geral, porque pouco tempo há para a saborear. Mas depois, em prosas épicas, alguns falam das experiências como se fossem domadores de feras ou conquistadores de uma terra tão bela quanto agreste.

Mas, em muito, é conversa da treta, mera lengalenga para impressionar seguidores e redes sociais. E resulta. Quem teria direito e legitimidade para certas prosas — que dariam livros — seriam apenas os que, por lá, em aldeias mais ou menos remotas e quase abandonadas, ainda persistem, alguns, a viver ou mesmo a sobreviver. E se os actuais ainda gozam de alguns confortos da modernidade, apoios do Estado Social, ou de meios que lhes permitem encurtar distâncias, por transporte ou telecomunicação, há 50, 100 ou mais anos, o isolamento era quase completo, puro e duro, e o simples contacto com a aldeia mais próxima implicava jornadas extenuantes de horas ou dias por trilhos de fragas. Caminhar por esses caminhos ou carreiros de cabras era uma fatal necessidade, não um entretenimento de horas vagas.

Era, por isso, épico sobreviver nessas duras e agrestes condições — esses sim, respeitavam as singularidades das serras, sabiam o que elas lhes podiam dar ou tirar, e o respeito ou a maldição que mereciam. Mas as coisas mudam, e, para além da imponência — que agora é motivo de testemunhos pungentes de gente que poucas ou nenhumas dificuldades teve na vida —, o certo é que pouco se tirava de alguma terra arada em irregulares leiras, à custa de sangue, suor e lágrimas. Mesmo para os animais, cabras e outro gado, tudo era difícil e áspero, na mesma comunhão de destino entre natureza, homem e animal, num ciclo repetido entre o tempo de geadas e neves e a inclemência do calor abrasador dos verões.

Mas haverá sempre quem ache que correr por desporto ou lazer é que é coisa de importância, a merecer loas e crónicas de grandes feitos, como qualquer conquistador do século XV.
É o que é! No geral, até se compreende, porque mesmo assim, reconheça-se, mesmo que por divertimento, não é fácil subir e descer montes inclementes e ásperos — mas convenhamos que é quase uma brincadeira, face aos que nelas, as serras, viveram ao longo de gerações, e ainda para os poucos, os mais velhos, que teimam em sobreviver. Nunca se confunda a necessidade com o recreio e o entretenimento. Respeitem-se as diferenças, porque o seu a seu dono.

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