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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

01.01.25

Mais do mesmo


a. almeida

Mais um ano, mais do mesmo. 

A contagem regressiva ecoa em uníssono nos canais de televisão, que cobrem a coisa como se de algo transcendente se tratasse, dando tempo, imagem e voz a gente anónima, de copo na mão – mas muitos brasileiros –, fosse em Lisboa, Viseu ou Covilhã, como se numa qualquer Copacabana.

Uma tamanha atenção televisiva, como se marcar e passar a meia-noite tivesse qualquer relevância cósmica ou transcendente. Em todo o lado, do Minho ao Algarve, da Madeira aos Açores, até mesmo na mais recôndita aldeia ou lugarejo interior, houve fogo de artifício a riscar e a enevoar de fumo o céu – explosões de cores tão previsíveis quanto vazias. Cada estalo, para além do dinheiro estoirado, foi uma celebração da repetição, um espectáculo projectado para desviar o olhar do facto inevitável: o mundo continua exactamente como era às 23:59 horas.

Cá na aldeia há uma empresa de venda de pirotecnia. Passei por lá por volta das 18:00 horas e havia fila para comprar as últimas baterias, os últimos cartuchos. 

Nos hotéis, salões de festas, praças e ruas lotadas, as pessoas abraçam-se com um entusiasmo vazio, prometendo a si mesmas que "o novo ano será diferente". Um brinde colectivo ao auto-engano. As resoluções são proclamadas com fervor – dietas que não começarão, planos que nunca sairão do papel, versões melhores de nós mesmos que se evaporarão antes do final de Janeiro.

As rotinas são sempre as mesmas. A ceia é um desfile de excessos: pratos absurdamente caros e cuidadosamente ornamentados para as redes sociais, discursos insossos sobre saúde, paz, amor, gratidão e optimismo. Os lugares-comuns de sempre.

A superficialidade não está apenas na festa, mas na crença de que o virar de um calendário pode consertar o que a humanidade insiste em ignorar. Seguimos na mesma toada, a celebrar rituais ocos enquanto evitamos enfrentar os nossos erros colectivos. Enquanto isso, há guerra na Europa, com perigo de propagação crescente; há guerra no Médio Oriente, em África, e por aí fora. Há fome, há crianças dela a morrer a cada segundo, a cada estouro de fogo-de-artifício.

2025 surge por cá numa noite gelada, a indiciar um mau ano, de dificuldades e incertezas, mas toda a gente festeja e gasta como se não houvesse amanhã. Mas há!

Então, brindemos, como sempre, à ilusão de um "novo começo". Sejamos uma roda dentada da engrenagem que gera um ciclo automatizado, repetido à exaustão, onde o maior espectáculo não é o fogo de artifício, mas a nossa capacidade de fingir que algo vai mudar, quando bem sabemos que não.

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