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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

07.07.25

Apenas um português comum


a. almeida

Faleceu o Eduardo A. 30 anos, num acidente de mota, como tantos outros a que os jornais dão conta em cada dia, como numa vertigem estúpida e sem sentido, de velocidade furiosa e incumprimento de muitas das regras de trânsito e de segurança e, também, de má sorte ou destino.

Sózinho, em despiste, numa rua local. Ninguém compreende como, e se o estrondo do impacto foi ouvido, ver, ninguém viu, e as pedras de muro, salpicadas de sangue, não falam.

O acidente foi cá na terra mas ele é de uma freguesia vizinha. Deixou a comunidade consternada e um filho órfão. Mas foi apenas mais um. Terá cerimónias fúnebres normais e o pároco despachará a coisa em pouco mais de meia hora.

É um cidadão comum, ordinário como se diz, e de figura pública nada tinha e mesmo na zona nem todos o identificaram quando os habituais cartazes de obituário foram sendo afixados nos lugares de estilo e publicados nas redes sociais.
Não terá, pois, o bispo da Diocese e presidir às exéquias nem sequer um seu auxiliar. Não foi notícia nos jornais nem nas televisões. Não houve páginas nem horas de notícias nem os repórteres fizeram do local um acampamento.

Não souberem, pois não, e mesmo que sim, não houve lamentos do presidente da república nem do primeiro ministro, nem, que se saiba, do presidente da Câmara, mesmo que já em campanha. O da Junta, por um certo dever de proximidade, deverá estar presente, do resto, nem pensar, que as agendas não se compadecem com um português ordinário. Fosse famoso, bem na vida, cantor, desportista ou jogador da bola, a coisa seria diferente, com substância e manchetes de encher o olho.
Vai, pois, a enterrar, o Eduardo A., 30 anos, um português comum, na indiferença de uma sociedade que vive de critérios de notoriedade. Condenado, como a larga maioria, à indiferença, ao anonimato.

De positivo, sobra apenas uma faúlha a poder despoletar alguma chama de reflexão, ou nem isso.

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