09.05.25
A tralha da vida
a. almeida

Quando temos algum tempo livre e estamos por casa, há sempre a tentação de deitar mãos à obra e mexer em velhas papeladas — dando o devido destaque a umas, organizando outras e queimando outras tantas.
Com esta minha velha mania de guardar caixas, embalagens e outros papéis (e ainda bem, porque, graças a isso, tenho cadernetas de cromos dos anos 70 que valem 500 euros ou mais, e cromos a valerem 5 euros por unidade), acabamos por tropeçar na caixa do telemóvel Nokia 6600, na da máquina fotográfica Sony DSC-P71, no CD da Sapo ADSL, numa coleção do suplemento “Bits & Bytes” do Jornal de Notícias, na coleção da revista PC Guia dos anos 90, em revistas dos anos 70 como a Tele Semana e a Crónica Feminina, etc., etc. Coisas e tecnologias que, há duas ou três décadas, eram a cereja no topo do bolo — e que hoje parecem as velhas mocas dos homens das cavernas.
As coisas são como são. Nem sempre é saudável remexer no estrume com que plantámos e fizemos crescer as nossas vivências e convivências, mas, verdade se diga, tudo o que somos hoje — para o bem e para o mal — é fruto dessas árvores.
E, dito isto, porque guardados, damos de caras com os cadernos diários dos primeiros tempos de escola dos nossos filhos, com os seus desenhos inocentes, e percebemos que, como num flash, passaram vinte anos. Duas décadas.
E o lugar-comum de que “ainda parece que foi ontem” torna-se, de facto, realidade.
Ficamos assim presos nesta dicotomia: o que será mais certo? Guardar tudo aquilo que um dia nos pode dar um murro no estômago, ao revivermos em imagens o tempo passado? Ou, pelo contrário, queimar tudo à primeira oportunidade e transformar as memórias e testemunhos apenas em cinza que o vento leva?
Tem que se lhe diga. E se há quem queime os vestígios do seu passado sem o mínimo de esmorecimento, há também quem, como eu, teime em guardar tudo o que um dia possa abrir uma janela para o passado — mesmo que isso nos faça chorar. Seja de dor, de saudade ou de vergonha, pouco importa.
Mas, verdade seja dita: com tanto já vivido e tanto incerto quanto ao que virá, pouco importa mudar agora a agulha, como num velho gira-discos. O sulco já é demasiado profundo.