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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

08.03.24

À mulher


a. almeida

MULHER.jpg

Na minha modéstia de pobre poeta
Desejei fazer um poema à mulher,
Ainda que breve, simples, condensado,
Com todo o sentido, peso e medida,
Numa essência pura, verso a verso.

Mas não o conseguirei, pela certa,
Não por o não querer, tentar sequer,
Mas porque ficará sempre inacabado,
Impossível fazer na forma resumida,
Porque no olhar não cabe o universo.

05.03.24

Tempo fugaz


a. almeida

Ando eu aqui desvairado
A revirar as páginas do dia
Na procura vã do tempo perdido;
Afinal, é apenas passado
E o que passei não perdia
Porque só o viver fazia sentido.

Como água que a mão não retém
O tempo é assim, fluido, fugaz,
Como o dizer na partida a alguém:
- Fica comigo! Não te vás!

29.02.24

Desejado fruto


a. almeida

FLOR_PESSEGUEIRO.jpg

Olha, vê amor,
Os pessegueiros já a florir
Num dia assim, ameno, enxuto;
Com tempo e calor
Em cada flor há-de ressurgir
O esperado, desejado fruto.

Vê que singeleza,
O rosado das flores,
Em sabores prometidos;
Há nelas a certeza
Da leveza das cores,
Do peso dos sentidos.

29.02.24

Onde habita o segredo


a. almeida

Para lá das portas onde habita o segredo
Há labirintos intrincados, imaginários;
Teu corpo é prisão que me tem em degredo,
Onde vou penando por pecados solitários;

Não sei quantos quartos tens fechados
E neles quantas camas já remexidas,
Com lençóis húmidos de corpos suados
Onde se encontraram ou perderam vidas.

Mas há em mim esta constante tentação
De te ter toda aberta, acolhedora, pura,
Possuir a chave mestra da fechadura,
Aceder à profundidade do teu coração.

Não sei que segredos guardas, zelosa,
Como a mais bela pérola a rude ostra,
Como espinhos a envolver a suave rosa,
Como seguro jogador a fazer a aposta.

Não sei que segredos tens escondidos
Nem em que gavetas e cofres encerrados,
Tão pouco se os tens, porque já perdidos,
Ou se apenas, sem pena, desencontrados.

27.02.24

Poema à minha mãe


a. almeida

Eu queria fazer um poema 
À minha mãe, à sua vida,
Da infância, que não teve,
Do fulgor da juventude
À fraqueza na velhice.

Uma vida lógica, teorema
A provar a verdade vivida,
Sem temer porque não deve
Nada à riqueza ou saúde,
Nem mal que Deus visse.

Foi somente mulher de luta
Mãe de filhos que tantos são
Na diária freima da labuta
De lhes dar de si  amor e pão.

No fim de tudo, tudo é vitória,
Numa vida vivida com sentido,
Na prostração, oração e glória,
De todo o modo, dever cumprido.

24.02.24

Escreve bem (mas tão chato)


a. almeida

Há dias alguém me confidenciava que uma certa figura pública da nossa praça, escrevia tão bem e de forma tão sensível que nos tocava profundamente, que era capaz de exprimir por palavas escritas o que de facto sentimos na alma ou mesmo no corpo, e no caso em concreto porque muitos desses escritos não eram apenas meras filosofias, destas que, como diria o nosso povo, "arrancadas do cú com um gancho",  mas retratos minuciosos do estado de alma de pessoas concretas. Não ainda sobre coisas de lana caprina que no geral nos enchem as redes sociais e revistas cor-de-rosa, nem de lugares comuns e pensamentos talhados para impressionar, mas da angústia e dores de quem sofre por problemas de saúde e mobilidade e ainda pelas falhas e limitações do nosso sistema de saúde que apesar de muitos e bons profissionais ainda padece da falta de humanidade ou mesmo de poesia.

Mas essa confidência e essa constatação vinha acompanhada de um senão, de um mas...a de que apesar disso, escrevia ele muito, demasiado, no que resultava em textos longos e por isso "aborrecidos" de ler e que assim quase sempre ficava-se pelos primeiro ou segundo parágrafos.  

O pior de tudo é que dou comigo a pensar que porventura será mesmo assim que uma larga maioria de pessoas analisa essa escrita, em particular, mas tantas outros no geral, e muitos até concordarão que de facto escreve bem, de forma sensível, e até atalham a timbrar com um gosto ou um comentário curto quando publicados esses escritos nas redes sociais, mas em boa verdade passam ao lado de toda a história.

Efectivamente as pessoas não têm paciência para ler coisas extensas mesmo que reais e sentidas. São capazes de devorar revistas cor-de-rosa a saber do dia-a-dia daquelas pessoas que por regra são fúteis, ou mesmo a reler romances inventados, ficção pura e dura, mas quando se trata das dores de pessoas concretas a coisa pia mais fino. Tendemos a ficar pelo lado de fora das coisas e das ideias porque cada vez mais vamos sendo afunilados no gosto fácil e rápido. A paciência, no sentido puro, é um valor que está em vias de extinção. Assinamos de cruz e colocamos o visto nas condições de contratos sem as ler.

Passemos à frente!

19.02.24

Um mundo ao contrário


a. almeida

Tenho um mundo todo meu, imaginário
Por onde vagueio absorto, dormente;
Tudo nele é estranho, ao contrário,
Nasce-se da terra, morre-se no ventre.

É de nuvens macias a casa onde moro,
Os regatos e os rios nascem no mar,
As fontes são olhos em eterno choro,
As flores têm lábios e sabem beijar.

Mas nesse mundo estranho, imperfeito,
Vives a meu lado nessa igual desarmonia,
A envolver-me como amante em seu leito
À luz do sol, porque o luar só nasce de dia.

Tenho um mundo só meu, imaginário,
Por onde corro livre, sem destino;
Sou actor de uma peça sem cenário,
Onde nasci velho e morrerei menino.