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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

15.05.24

Sporting, sempre!


a. almeida

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Num certo Domingo à tarde, em pleno Verão. Por cá já muitos emigrantes em merecido período de férias, a ajudar a encher as estradas, os restaurantes e as esplanadas.
Nunca fui emigrante mas percebo e compreendo que esta nossa mania portuguesa dos saudosismos leva-nos a querer encher o corpo e a alma, revendo pessoas, lugares e coisas, mal se cruze a fronteira. Ora se o Casimiro esteve três dias a banhos no Gerês e quando regressou a casa sentiu-se como estivesse ausente três anos, não surpreende que o Manel da Zira, depois de um ano longe de Guidães, logo que chegado à aldeia, mesmo antes de rever a família, passe por Espinho, para ver e sentir o mar e embriagar-se daquele ar salgado e sentir no rosto as frescas nortadas, as mesmas das idas à praia em solteiro. Já o Chico do Albertino, logo que arrumadas as trouxas vai direitinho à Tasca da Aida encostar-se ao balcão e beber o melhor "paralelo" do mundo e arredores, incluindo a Suiça. A Fernanda do Neves, essa faz questão de ir a Fátima agradecer a Nossa Senhora e aos pastorinhos. No regresso faz paragem na Mealhada, tão sagrada quanto a da Cova da Iria, e ver regalada na travessa um rosário de pedaços dourados de tenro leitão, seja no Virgílio, no Pedro, na Meta ou no Rocha (este já na estrada do Luso). Cá vai! Amém!

Ora o Zé Canadas, chegado da Suiça, nesse Domingo à tarde, encheu o carrão com a mulher e os filhos e foi de abalada até Castelo de Paiva e na Rua da Boavista, apontada à praça dominada pelo austero conde lá do sítio, entrou na tão afamada quanto concorrida Adega Sporting, lugar de antigas petiscadas e pela qual, nos domingos cinzentos entre La-Chaux-des-Fonds e Le Locle, tanto suspirou, imaginando o doce sabor acanelado das rabanadas, o picante das moelas ou o vinhadalho do bucho.

Depois de alguma espera, porque ali o espaço é pequeno para tanta fama, lá arranjou uma mesa corrida e os cinco instalaram-se. - Então, o que vai ser? Para mim quero moelas e no final uma rabanada. E para vós? Quereis uma rabanada, bucho, moelas, rojões, orelha? E tu Nandinha? Vai uma punheta de bacalhau? Gostavas delas! Não querem nada?!!! - Encolheu o beiço. - Mau...
Que nada. Nem xus-nem-bus. Nem a filharada nem a esposa, ela de calcinha branca, medrosa de se salpicar do vinhão tinto, eles estranhadiços naquele ambiente de tasca, dvam mostras pelas expressões de qualquer interesse na petiscada. O Canadas percebeu o recado de tantos narizes torcidos e logo esmoreceu. Envergonhado e rendido, pediu apenas uma rabanada e "uma malga" de verde tinto. O empregado recolheu as toalhas e os talheres dos putativos comensais. Toda aquela mesa ocupada de gente para comer uma rabanada, terá questionado, intrigado e surpreso.

O Canadas, comeu rapidamente e nunca uma rabanada de Paiva lhe soube tão amarga. Saiu triste e envergonhado e de tão acompanhado sentiu-se sozinho e desamparado. Já nada era como dantes e as tainadas de outros tempos que viveu na Adega Sporting com os amigos do namoro, já eram apenas uma saudade e desejo que o atormentava no pouco tempo desocupado na Suiça.

Confesso que fiquei com pena do Canadas, ainda por cima com o Tono Henriques a testemunhar tal infortúnio, sorrindo, maroto, por debaixo do bigode branco ainda bordado do grosso tintão.

Já de saída, ainda vi o Canadas a esgueirar-se ligeiro para o carrão e contornar apressado a praça, certamente a jurar para si próprio que para matar estas saudades de petiscada numa adega castiça de paredes de um granito duro, mais vale só que mal acompanhado. - E anda um homem a vir por aí abaixo apressado, a comer quilómetros e a contar horas para vir comer uma rabanada sozinho no meio de uma multidão a torcer o nariz, enfastida! Foda-se!

30.03.24

Cá em casa a cheirar a pastelaria


a. almeida

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É sempre assim: Natal ou Páscoa, cá em casa cheira a pastelaria. Tudo feito como deve ser, a começar pelos ovos vindos da capoeira ao fundo do quintal. Bem sei que a patroa por vezes queixa-se que assim não tem tempo de ir arranjar o cabelo, artificializar as unhas e preparar a lingerie. - Deixa lá, querida, isso é para gente moderna, que já compra tudo feito. O prazer de comer e saborear as coisas que fazemos de forma ritual, quase sacramental, fica-lhes à porta. Do lado de fora! Não se pode ter tudo, pois não?

17.02.24

Trilho PR13 - Na senda do Paivô - Revisita


a. almeida

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Segunda visita ao trilho do PR13 "Na Senda do Paivô", um dos vários em território de Arouca. Ponto de partida na aldeia de Regoufe, encastelada na encosta sul dos montes onde noutros tempos a extracção de volfrâmio deu uma vida inusitada a esse local ermo. Terminada a Guerra, o minério deixou de ter o interesse, abandonaram-se as galerias e as máquinas e a aldeia voltou à sua pacatez de antanho, aos campos e aos rebanhos.

O complexo mineiro à entrada da aldeia, noutros tempos de paredes de branco caiadas, são agora esqueletos graníticos cinzentos, abandonados, apenas como figurantes de fotografias dos muitos forasteiros que à procura de aventura ou para matar curiosidades ou encaminhados por roteiros, ali vão parar de olhos no chão na esperança de encontrarem um resto do pesado e negro minério.

Lá em baixo, débeis pelo estio, correm os ribeiros da Várzea e da Sardeira, dando de beber aos verdes milheirais, para logo abaixo, perto do caminho que conduz a Drave, se unirem para dar lugar à ribeira de Regoufe, que por sua vez lá mais para baixo se encontra com as águas mais impetuosas do Paivô, que já traz as águas frias do rio de Frades.

O trilho segue quase todo definido por pesadas lajes de granito ali arrumadas por mãos e braços fortes de gente valente. Praticamente em plano e descida, chega-se à bonita aldeia de Covêlo de Paivô, uma espécie de irmã de sorte e destino de Regoufe, mais fresca, porque a uma menor altitude e banhada pelo Paivô.

Junto à ponte da estrada que conduz a Rio de Frades, Bouceguedim e Ponte de Telhe, oferece-nos, ao lado de um velho moinho em ruína, um local aprazível de águas cantantes, convidando à merenda antes de pôr os pés ao caminho de volta, que ao contrário da vinda, há-de agora ser em subida e por isso bem mais duro o regresso até porque o "forno" já aqueceu mais uns graus. Felizmente, dois ribeiros generosos da margem direita da ribeira de Regoufe resistem ao calor do Verão e dão as suas águas límpidas e frescas às bocas sequiosas.

Já em Regoufe, espera-nos o restaurante "O Mineiro" e a simpatia e simplicidade da proprietária, que dividindo a azâfama entre as suas cabras e as suas hortas e o restaurante, anda numa roda viva mas no final encontra uns minutos para alguns dedos de conversa. Poucos o percebem, e da "cidade" muitos nela apenas veem uma camponesa vigorosa e simpática, a quem fazem perguntas inocentes, mas esta professora aposentada é pessoa de cultura e de boas relações e amiga de políticos e nomes grandes do concelho.

Creio que com esta foi a terceira vez que ali retemperamos forças do desgaste dos trilhos e já está à vista uma próxima, depois de mais um trilho marcado para aqueles montes tão imponentes quanto inclinados. Havemos de descer ao Paiva, calcorrear Janarde, Meitriz, Deilão e Fragoselas, entre outros locais encrustados naquelas encostas.

Abaixo alguns dos muitos olhares.

 

[Junho de 2021]

 

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15.02.24

Sim, chef!


a. almeida

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Hoje em dia, convenhamos, estamos rodeados e dominados pelos chefs, que cozinheiros é designação parola. Ele é chefs em tudo quanto é lado. Há canais e programas de televisão só com palco para os chefs. Há chefs, masterchefs, competições, concursos, mostras, demonstrações, etc, etc. Até a nossa RTP, com uma partezinha dos meus impostos, ali na dita Praça da Alegria, paga a chefs, rodeados de gente feliz, a darem ideia de que neste país das maravilhas ninguém trabalha, para mostrarem em pouco mais de cinco minutos o milagre de cozinhar chanfanas ou cozidos, sejam à portuguesa, do Barroso ou transmontano.
Estou por aqui com chefs.

Concerteza que sempre houve bons cozinheiros, a começar pela minha mãe e a acabar na minha esposa, mas a coisa está transformada numa praga e onde quer que se vá esbarra-se com chefs e quase todos com a sua boa dose de pretenciosismo e os preços a condizer. Qualquer niclezinho de ir à boca custa um balúrdio. Mas num mundo aberto a experiências, com gente disposta a soltar os cordões à bolsa para a excentricidade, porque as redes sociais e os egocentrimos pedem sempre novidades, não há como valorizar uma experiência da cozinha de qualquer chef, com ou sem estrelas, qual Cristo no milagre da multiplicação dos peixes e dos pães e com um fio de azeite, um quilo de bifes, dois ramos de agrião e três pozinhos de perlimpimpim, e pouco mais conseguem aviar uma dezena de comensais com cada vez mais minúsculas porções perdidas nos cada vez maiores pratos.

E é merecido! Que o digam quem trabalha em miniaturas. O fazer coisas pequeninas, minúsculas, com ares de coisas grandes, mesmo que nos tachos e panelas, é trabalhoso e só para colocar a folhinha mais miúda do ramo de agrião ou a baga mais brilhante do cacho da groselha a rematar uma lasca de lombo de bacalhau ou de uma lâmina de bife barrosã ou arouquês, é obra e não se compadece com tremideiras.


Posto isto, lidar com um cozido à portuguesa deve ser um castigo para os chefs do minimalismo, inventores das modernas rodas e pólvoras, tão habituados a montar montinhos. É que um bom cozido ou é ou não é, e o melhor do mundo e arredores, como o que sai de quando em vez cá por casa, e ainda nesta Terça-Feira Gorda, dita de Carnaval, tem tanta chicha em quantidade, qualidade e variedade que num daqueles restaurantes chics dava para aviar um casamento, desde que, cá está, preparados à chef.

Boas comezainas!

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