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Vivemos um momento singular da história criativa. Nunca foi tão fácil produzir imagens, textos, ilustrações, composições visuais e conteúdos gráficos de aparência mais ou menos rebuscada ou sofisticada. Bastam alguns comandos escritos (prompts), algumas palavras-chave bem formuladas,como as que fiz para o cartaz que ilustra este artigo, e a inteligência artificial devolve, em segundos, aquilo que antes exigia talento, anos de estudo, prática e amadurecimento artístico. Esta facilidade, porém, levanta uma questão essencial: estaremos a assistir à democratização da criatividade ou à sua banalização, como se todos possamos ser artistas criativos e talentos, mesmo que prática sejamos incapazes de desenhar o ovo.
A proliferação de conteúdos gráficos gerados por inteligência artificial, nomeadamente através de plataformas como a popular ChatGPT e outros sistemas generativos, está a inundar as redes sociais, mas não só. A estética passa a sobrepor-se à intenção, o impacto imediato substitui o processo reflexivo, e a originalidade dilui-se numa repetição algorítmica de padrões já existentes. O resultado é um mar de conteúdos visualmente apelativos, mas, no geral, sob um ponto de vista artístico, vazios ou de gosto merdoso. Na realidade e na essência, esses processos usam trabalhos e obras de terceiros, sendo que a verificação é quase impossível, logo igualmente impossível reclamar direitos.
A arte sempre foi, antes de mais, um exercício de consciência, sensibilidade e risco. O verdadeiro talento nasce da inquietação, do erro, da dúvida, do conflito interior e da tentativa constante de traduzir emoções, experiências e visões únicas do mundo. A criação artística é um percurso, não um produto instantâneo. Quando este processo é substituído por uma resposta automática, sem qualquer custo, perde-se a essência da expressão humana, até mesmo a imperfeição que torna cada obra irrepetível.
A vulgarização surge precisamente neste ponto: quando a produção massiva esvazia o significado. O acesso fácil a conteúdos gerados por IA promove uma cultura de consumo rápido, onde o valor da obra é medido pela sua capacidade de gerar cliques, partilhas e reações imediatas. Neste cenário, o tempo da contemplação, da interpretação e da crítica é reduzido ao mínimo. A arte transforma-se num mero artefacto visual, descartável e substituível. Desconfio que a curto prazo vamos ficar enjoados de tanta fartura visual, de imagem ou vídeo, de mais do mesmo, mas se algum dia a situação será revertida, já não acredito.
Muito preocupante, ainda, é o impacto deste fenómeno sobre os criadores humanos. Ilustradores, designers, fotógrafos, escritores e artistas em geral veem o seu trabalho competir com produções instantâneas, gratuitas e ilimitadas. A desvalorização económica acompanha inevitavelmente a desvalorização simbólica. Quando tudo pode ser criado em segundos, o esforço, a formação e a experiência tornam-se invisíveis, quase irrelevantes aos olhos de um mercado que privilegia velocidade e volume.
Defender o valor da criação artística não significa rejeitar o progresso tecnológico, mas sim exigir uma utilização consciente, ética e culturalmente responsável dessas ferramentas. A arte não deve ser reduzida a um produto estatístico baseado em probabilidades; deve continuar a ser um espaço de subjectividade, de identidade e de questionamento.
Num mundo cada vez mais saturado de vídeos e imagens perfeitas e textos impecáveis, talvez o verdadeiro acto revolucionário seja preservar o imperfeito, o inacabado, o singular. Porque é precisamente aí, na falha, na hesitação e na tentativa, que reside o que nos torna genuinamente humanos.
Não obstante, convenhamos, a reversão ou mesmo moderação, serão já uma utopia. Uma impossibilidade.