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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

29.01.26

Perspectiva teatral


a. almeida

Tal como quando aconteceu com o apagão, parece ficar claro que o primeiro-ministro, visto por uma certa perspectiva, não tem estofo para somar pontos com  o que no país corre mal e com a tragédia, seja de origem técnica, humana ou causada pelas indomáveis forças da natureza. Deveria fazer como todos fazem? Aparecer com os discursos do costume, falar ao país às 20 horas com ar pesaroso, vestir camuflados, fardas de bombeiros, colocar capacetes, óculos e luvas e dar mostras que está no terreno, no teatro de operações? Exactamente no teatro, como uma personagem teatral a interpretar um papel de figura zelosa e interessada?

Para o bem e para o mal, por inércia, personalidade ou cálculo, tem lidado com estas situações de um modo diferente da norma estabelecida, fora de tempo e da luz dos holofotes e das câmaras. Todavia, nesta sua forma de ser, estar e agir, o país da opinião, dos opinion makers, os dão notas como professores, não lhe perdoa em tudo quanto é palco de comunicação. Eu próprio, com tanta má nota,  fico sem saber qual das versões me agradaria, se a teatral se a outra, a discreta, menos presencial e espalhafatosa. Como no meio estará a virtude, talvez entre as duas, até porque percebo que nas horas de tragédia temos de nos agarrar a algo e a alguém, como a tomar uma pastilha Melhoral, que não fará bem nem mal.

Somos de percepções e algo falha quando não as recebemos de alguém. Nessa perspectiva teatral tem falhado o nosso primeiro e volta agora a falhar.

28.01.26

Debate inócuo


a. almeida

Assisti ao debate, em cerca de 75%. Não vi o resto porque tornou-se demasido monótono e previsível. Ambos nos seus estilos bem definidos e reforçados pelo que vão anunciando as sondagens. A espaços, o debate remeteu-me para 1986, mas com as posturas trocadas. Seguro a fazer de Freitas do Amaral, sorridente, educado, e Ventura no papel de Soares, caceteiro, manhoso, a bater nas feridas, a pintar diabos em quadros cinzentos. 

António José Seguro, como uma equipa de futebol que ao intervalo está a vencer por margem folgada, não arriscou, optando por trocar a bola no meio campo e até com passes ao guarda-redes, para não se desgastar, num jogo cínico, esperando apenas o fim  do apito. André Ventura a tentar bater onde mais doerá a Seguro, mas sem grandes efeitos porque o adversário já sente que a sua carapaça tem a resistência suficiente. De resto, por ser o patinho feio do PS, envergonhadamente apoiado nesta candidatura, tem sentido que o seu prejuízo pela ligação ao PS é inócuo, mesmo com o Ventura sempre a tentar a fazer essa ligação, como se o homem fosse o António Costa ou o Pedro Nuno Santos.

Em suma, por mim considero que o debate foi mais show-off do que susbtância. Seja como for, no essencial Ventura tem razão: Será mais do mesmo e teremos um presidente decorativo, muito honesto, educado, moderado mas sem rasgos ou abanões que sacudam o sistema que, entre uns e outros, vigora de há 50 anos. 

Não obstante, se Ventura tem razão na substância, falta-lhe a solidez de uma pessoa adulta e pragmática, que possa transmitir confiança ao eleitorado para lá dos zangados com o rame-rame de sempre.

Venha a eleição, mas já sem qualquer pinta de suspense ou interesse. Mesmo os que defendem que está em causa a democracia, já terão percebido que fizeram figuras ridículas.

26.01.26

Holocausto blogosférico


a. almeida

Como já sabido, a plataforma Sapo Blogs, continua em estado de forte caganeira, sem cura, e como tal, usando um daqueles eufemismos modernaços, vai ser descontinuada, tal como a MEO Cloud. Pior do que isso,  é o holocausto blogosférico que se seguirá, a partir de 30 de Novembro, uma vez que nem mesmo o arquivo será mantido. Será, pois, uma extinção em massa e tudo, presumo, em nome da massa. Mesmo os processos de exportação não são garantia de compatibilidades com outras plataformas. Das tentativas que fiz, todas falharam.

Por parte deste simples blog, a perda é pouca, reconheço, porque ainda novo por aqui, e basicamente com espuma dos dias, mas para quem de facto anda por cá com amor e paixão há muitos anos, alguns desde o princípio, mais do que escrevendo criando amizades e ligações, a coisa pia mais fino e o desapontamento, do que tenho lido, é maior e geral.

Seja como for, nada é eterno e duradouro e sabemos que “It’s just business.”

Posto isto, terminará, entretanto, esta aventura, pelo que agradeço aos que por cá têm passado com regularidade, mesmo aqueles queridos que apenas para desdizer e maldizer. Vou ter saudades.

Por agora não tenho intenção de pedir asilo noutra plataforma. Se o decidir até à data da exterminação programada, direi qualquer coisinha.

26.01.26

Exageradamente exagerado - Hoje como em 1986


a. almeida

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Anda tudo extremado! Não é novidade! Também a eleição presidencial, agora resumida a dois candidatos, parece-me que está bem no meio desse caminho, muito por responsabilidade da comunicação social que já não conhece a ética, deontologia e isenção, valores do verdadeiro jornalismo. Mas este há muito que está defunto. O que faz já é à descarada, sem pingo de vergonha.o Público, entre todos, é um exímio exemplo de campo inclinado.

Também eu me considero moderado, e a votar no próximo dia 8 de Fevereiro procurarei ter isso em conta, mesmo que as opções sejam medíocres. Não obstante, colocar-se a questão como de uma luta ou batalha em que está em causa a democracia, só porque com duas personalidades com diferentes pontos de vista e posicionamentos, é exageradamente exagerado e um atestado de menoridade aos portugueses no geral. Desde logo porque estamos nela, na democracia, e a eleição será democrática e os eleitores é que decidirão. Ou não queremos que sejam os eleitores a decidir?. Afinal a democracia não é isso? Respeitar a decisão da maioria do povo, mesmo que contrária às nossas posições e a favor de candidatos ou partidos com quem não alinhamos? Ou somos ou não somos!

No fundo, o discurso que agora faz a comunicação social canhota e o próprio Seguro, é o agitar da bandeira de 1986 pelo trapaceiro do Soares e inimigo mais amigo Cunhal. Então Freitas era o diabo a abater, e tanto era diabo e fascista que anos mais tarde até fez parte do governo socialista. A política rasca e os velhos métodos não se esquecem, mas reinventam-se a servem-se quando dá jeito, mesmo que 40 anos depois.

Face ao leque de opções, posso escolher Seguro, sem taticismos porque não sou figura pública, mas preferia que a sua vitória assentasse apenas nas virtudes que possa ter e não por medo de diabos que, por mais feios que se pintem, não vejo de todo.

Escolham, pois, o Seguro, mas deixem-se de merdas! 

23.01.26

Haja a justiça


a. almeida

O caso da queixa do Primeiro-Ministro sobre um utilizador na rede social X, um Volksmerdas qualquer, por acto de desinformação, é perfeitamente justa e compreensível. Por mais voltas que dê o utilizador na sua justificação, não passa de um mau argumento. Nada do que escreveu e como escreveu é garantidamente perceptível como uma sátira ou humor. Bastará que um em cada 100 utilizadores não perceba a diferença para a publicação estar a ser enganosa. 

A toda esta gente, nomeadamente os "activistas", falta sentido de responsabilidade e respeito, agindo numa cultura de que por liberdade de expressão pode valer tudo. Não vale! Ora quando esses limites são ultrapassados, desrespeitados, do outro lado há alguém que também vê desrespeitados os seus direitos. Face a isto, nada mais justo e merecido que entre a tratar do assunto a alçada da justiça e da responsabilização.

Onde é que está a dificuldade em compreender isto?

22.01.26

Num tempo da merdificação


a. almeida

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Vivemos um momento singular da história criativa. Nunca foi tão fácil produzir imagens, textos, ilustrações, composições visuais e conteúdos gráficos de aparência mais ou menos rebuscada ou sofisticada. Bastam alguns comandos escritos (prompts), algumas palavras-chave bem formuladas,como as que fiz para o cartaz que ilustra este artigo, e a inteligência artificial devolve, em segundos, aquilo que antes exigia talento, anos de estudo, prática e amadurecimento artístico. Esta facilidade, porém, levanta uma questão essencial: estaremos a assistir à democratização da criatividade ou à sua banalização, como se todos possamos ser artistas criativos e talentos, mesmo que prática sejamos incapazes de desenhar o ovo.

A proliferação de conteúdos gráficos gerados por inteligência artificial, nomeadamente através de plataformas como a popular ChatGPT e outros sistemas generativos, está a inundar as redes sociais, mas não só. A estética passa a sobrepor-se à intenção, o impacto imediato substitui o processo reflexivo, e a originalidade dilui-se numa repetição algorítmica de padrões já existentes. O resultado é um mar de conteúdos visualmente apelativos, mas, no geral, sob um ponto de vista artístico, vazios ou de gosto merdoso. Na realidade e na essência, esses processos usam trabalhos e obras de terceiros, sendo que a verificação é quase impossível, logo igualmente impossível reclamar direitos.

A arte sempre foi, antes de mais, um exercício de consciência, sensibilidade e risco. O verdadeiro talento nasce da inquietação, do erro, da dúvida, do conflito interior e da tentativa constante de traduzir emoções, experiências e visões únicas do mundo. A criação artística é um percurso, não um produto instantâneo. Quando este processo é substituído por uma resposta automática, sem qualquer custo, perde-se a essência da expressão humana, até mesmo a imperfeição que torna cada obra irrepetível.

A vulgarização surge precisamente neste ponto: quando a produção massiva esvazia o significado. O acesso fácil a conteúdos gerados por IA promove uma cultura de consumo rápido, onde o valor da obra é medido pela sua capacidade de gerar cliques, partilhas e reações imediatas. Neste cenário, o tempo da contemplação, da interpretação e da crítica é reduzido ao mínimo. A arte transforma-se num mero artefacto visual, descartável e substituível. Desconfio que a curto prazo vamos ficar enjoados de tanta fartura visual, de imagem ou vídeo, de mais do mesmo, mas se algum dia a situação será revertida, já não acredito.

Muito preocupante, ainda, é o impacto deste fenómeno sobre os criadores humanos. Ilustradores, designers, fotógrafos, escritores e artistas em geral veem o seu trabalho competir com produções instantâneas, gratuitas e ilimitadas. A desvalorização económica acompanha inevitavelmente a desvalorização simbólica. Quando tudo pode ser criado em segundos, o esforço, a formação e a experiência tornam-se invisíveis, quase irrelevantes aos olhos de um mercado que privilegia velocidade e volume.

Defender o valor da criação artística não significa rejeitar o progresso tecnológico, mas sim exigir uma utilização consciente, ética e culturalmente responsável dessas ferramentas. A arte não deve ser reduzida a um produto estatístico baseado em probabilidades; deve continuar a ser um espaço de subjectividade, de identidade e de questionamento.

Num mundo cada vez mais saturado de vídeos e imagens perfeitas e textos impecáveis, talvez o verdadeiro acto revolucionário seja preservar o imperfeito, o inacabado, o singular. Porque é precisamente aí, na falha, na hesitação e na tentativa, que reside o que nos torna genuinamente humanos.

Não obstante, convenhamos, a reversão ou mesmo moderação, serão já uma utopia. Uma impossibilidade.

22.01.26

Em terra de "cegos" quem tem Visão...


a. almeida

O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos.

No jornalismo não basta invocar palavras nobres — “independência”, “qualidade”, “liberdade” — para que estas recuperem automaticamente o sentido que perderam. Há marcas que se gastam. Há títulos que se tornam resíduos simbólicos. E há redacções que, por acção ou por omissão, atravessam processos históricos decisivos sem jamais prestarem contas do papel que desempenharam. A revista Visão é hoje um desses casos.

A campanha de angariação de fundos lançada por um grupo de jornalistas da Visão, apresentada como um gesto de resistência cívica e defesa do jornalismo independente, assenta numa premissa falsa e num exercício de amnésia selectiva: a ideia de que a Visão é, ou foi recentemente, um bastião de jornalismo livre, crítico do poder e imune a agendas. Não foi. E não é.

Fonte e resto do artigo: Página UM

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