Creio que já publiquei por aqui algo mordaz sobre o folclore à volta dos modernos casamentos, mais precisamente no que diz respeito à festa, mas, porque voltei a ser atingido, volto ao tema.
São cada vez mais raros os casamentos, nomeadamente pela Igreja. A minha aldeia, de pouco mais que um milhar e meio de criaturas, não foge à regra.
Pelos bons e velhos costumes e critérios de alguma coerência, ou mesmo decência, uma boa parte deles já nem se fariam, mas os tempos são de modernidade e importa muita tolerência e inclusividade.
Pessoalmente considero que, mesmo os de família, para além dos momentos mais significativos, como o da cermónia religiosa, que valorizo e ainda me emociona, no geral, é um folclore e um exercício de paciência, sobretudo para os os que, como eu, são do tempo em que a boda começava logo a seguir à cerimónia, e no restaurante, em mesas corridas, começava-se e acabava-se de comer, de seguida e sem levantar. Os aperitivos estavam defronte dos lugares, vinha um prato de peixe (salada russa ou bacalhau à Zé do Pipo), depois, sem corta-sabores, um prato de carne (cozido à portuguesa ou assado misto, com vitela ou lombo ou vitela e cabrito). Depois a fruta e alguns doces, incluindo o bolo da noiva. Pelas 17 ou 18 horas ja se estava em casa com os pés de molho.
De jogos e brincadeiras, quando muito, o leilão da gravata do noivo ou o bater dos talheres nas bordas dos pratos para o beijo do casal e padrinhos, mas já era um abuso em que nem todos alinhavam.
Música e bailaricos, eventualmente nos salões dos casamentos de senhores doutores e engenheiros, porque, no geral, não havia espaço na sala.
Hoje em dia a coisa pia fino, tanto para ricos como para pobres ou remediados, porque pagam os convidados: Um almoço acaba em jantar e o jantar em ceia. O dia começa de manhã cedo e acaba na madrugada alta do seguinte. Nos dias próximos, como efeitos da ressaca, ainda ecoarão aquelas músicas de partir telha.
Os convidados, e até mesmo o jovem casal, andam a toque de caixa da larga equipa de fotógrafos, dos animadores e mestres de cerimónias. Agora assim, agora assado, agora venham para aqui, depois para ali e mais tarde para acolá. Há brincadeiras idiotas e passatempos palermas onde alinham solteiros e solteiras e alguns mal casados.
As madames, das mais novas às maduras, vestem-se (ou despem-se) e tudo é glamoroso, chique.
Para os recém casados, gente nossa, muita saúde, harmonia, bem estar e muitos filhos, pois a freguesia e o país precisam. Além do mais, são gente boa, humilde, sem peneiras!
Que este dia, significativo para o casal, mas uma seca de todo o tamanho no que diz respeito à parte festiva, pelo menos para mim, que dispensava de bom grado, seja para eles inesquecível e que a felicidade os acompanhe, e mesmo nos momentos menos bons, que os há inevitavelmente, que tenham em conta o compromisso agora assumido.
Mesmo sabendo que todos estes filmes muitas vezes descambam em divórcios precoces, mesmo que sem qualquer pingo de vergonha pelos papéis desempenhados perante a Igreja, o padre e uma ou duas centenas de convidados, familiares e amigos, transmito parabéns e fica-se à espera das Bodas de Prata.
Se houver próximos casórios, oxalá que sim, sou capaz, a não ser por força maior, de me ficar apenas pela cerimónia na igreja ou na capela, se a houver. O resto, dispensa-se, mesmo que não o carinho e desejos de felicidade para quem casa de forma séria e responsável e não apenas porque é coisa bonita para a fotografia e vídeo.
Mas, relevem, porque, na certa, é apenas um problema meu. Efeitos da idade e avesso a entrar em rebanhos e a andar a toque de caixa.