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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

27.06.25

O canto da terra


a. almeida

Não sou músico nem poeta
De Orfeu e Homero não recebi lar
Por isso, deles o que faça,
Haverá de ser coisa feia.

Mas, se até a um perneta
Não se nega o direito a caminhar,
Mesmo que pobre, sem graça,
Hei-de cantar minh´ aldeia.

Merece ser toda e bem cantada,
Mesmo que pelos grilos e aves,
O negro melro, o rouxinol, o pisco,
Numa sinfonia em entoação.

O poema pode ser a terra lavrada
Pela charrua em versos suaves,
O semeador a desenhar um risco
Donde brotará o fruto do pão.

25.06.25

O Júlio e o Julião


a. almeida

Naquele bocado de terra perdida no mapa, onde o tempo passa lentamente e os galos cantam como quem desfia segredos antigos, ergue-se Pateiras — uma aldeia pequena de corpo, mas larga de língua, onde todos se conhecem, poucos se aturam e ninguém perdoa.
Foi ali, entre o repique diário do sino da igreja e o tilintar dos copos na tasca do Felisberto, que o Julião fincou pé, depois de uma vida feita mais de manha que de suor, como ele próprio se gaba. Dizem que anda feliz, e que a vida lhe tem sorrido. Mas a verdade, murmuram as paredes e as velhas nas soleiras, é que ele soube foi onde dar a dentada.
Duplamente reformado, de lá, do Luxemburgo, e de cá, da função pública, de um cargo que, dizem — porventura as más línguas — chulou até ao tutano, goza agora as delícias da velhice, entretido entre netos, criação de coelhos e cultivo de nabos, nabiças e outras hortaliças na sua horta de estimação.
Nascido e criado na freguesia de Carregães, de origens pobretanas, filho de pai incógnito e da Micas da Estrela, deu à costa na aldeia de Pateiras num dia de festa à Senhora do Amparo, e de um namorico morno, insípido mas fecundo, acabou, qual raposa, a assaltar o galinheiro da abastada e rendida casa dos Figueiras, casando com um dos seus "pitos ricos".
Cometeu, porém, a imprudência de se ausentar do galinheiro, ainda morno da segunda galadura, emigrando por uma boa dúzia de anos, pelo que desde cedo tem marrado que baste à custa desta sua "galinha chocadeira", mas isso são outras histórias.
Apesar desta sua boa posição, com chorudas reformas da estranja e do Estado, o Julião viveu quase sempre ao lado da vida, vivências e convivências da aldeia, fugindo como do diabo da Cruz a tudo o que cheirasse a cargos, canseiras e responsabilidades.
Confraria ou comissão de obras ou de festas que lhe batesse à porta, levava a esmola, sempre de tostões, mas não sem ouvir o responso, o pai-nosso e o sermão. Estava sempre na linha da frente do escárnio e maldizer, do bota-abaixo, sempre no seu ar de pimpão, vestido da mais elevada moralidade.
Em suma, era um figurão de Pateiras, mas não passava disso mesmo: um figurão vazio, cheio de nada. Um burro carregado de libras, como o considerava muito do povo da terra.
Não surpreendeu, pois, que, um dia destes, ao balcão da tasca do Felisberto, já com uns copos de tinto Malaquias a transbordar, o Júlio tenha tomado a voz do grupo, em que — por um destes acasos de conversas de café — veio à baila a importância do Julião para a terra, para, com a voz já avinhada, sentenciar:
— O Julião é mas é um grande filho-da-puta! E corno, ainda por cima! Faz cá tanta falta como uma viola num enterro!
Ficaram todos de boca aberta, mudos e calados, num silêncio de arrebatamento e concordância por tão acertada descrição.
O Julião podia ser um figurão, mas o Júlio, esse sim, era um artista que, com uma paleta de coloridos palavrões, dissolvidos a vinho verde, pintava, qual mestre do mais puro realismo, os juliões da aldeia. Para além de verde ou maduro, branco ou tinto, apreciava e comia galinha de capoeiras sem galo, como a do Julião — ao que dizem, à fartazana — que nem canja dada a mulher parida.

24.06.25

S. João em noite de trovão


a. almeida

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Na melhor tradição, cá por casa houve noite de S. João. Longe da confusão, do meio da multidão, mas em família. Houve, como de costume, sardinha assada com salada de pimentos assados, costeletas de porco grelhadas para os mais esquisitos, que os mais novos não são de espinhas, arroz de feijão, caldo verde, vinho branco e tinto, broa caseira, azeitonas e tudo o resto, o que, desta maneira, ficou por meia dúzia de patacos por cabeça, enquanto que fosse na tasca da festa, pagar-se-ía "couro e cabelo".

Houve tempo para a sobremesa, com bolo, cerejas, ameixas-de-s.joão e até para a largada de um balão. Como se não bastasse, virada ao mar, nuvens negras com relêmpagos, como se fora fogo de artifício de borla. Porém, se choveu não foi por cá.

Já dizia a minha bisavó, "melhor festa faz quem em sua casa em paz". 

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24.06.25

Esta mania de generalizar...


a. almeida

Confesso que fico arreliado quando, em parangonas, vêm dizer-nos que a RTP é a canal de televisão que os portugueses mais confiam. O mesmo quando dizem que o JN é o jornal em que os portugueses mais confiam ou que os veículos da Toyota são os de mais confiança. E assim com outras marcas, dependendo de quem as faz, e parece que são várias as entidades ou empresas interessadas com a opinião dos consumidores portugueses.

Tanto quanto saiba, não dei para esse peditório, não fui ouvido nem achado. Pelo contrário, não tenho alguma confiança nesses dois órgãos de comunicação social. Na RTP até me confrange saber ser contribuinte obrigado. Quanto à Toyota, nunca conduzi e alguns amigos até dizem que já foi chão que deu uvas.

Não obstante, sabemos que é assim que as coisas funcionam, como nas sondagens. Abordam-se telefonicamente umas poucas centenas de pessoas, colhem-se as respostas, tantas vezes canalizadas para o alvo, e depois, voilá, dá-se o resultado como se corresponda de facto a todos os portugueses, tanto os de Lisboa como os de Curral das Freiras ou os de Vila Cova à Coelheira. As marcas, claro, aproveitam essas deferências como medalhas e não perdem tempo a anunciá-las aos portugueses, como se realmente todos eles tivessem dado opinião.

Esta mania de generalizar...

23.06.25

O respeitinho já não é coisa bonita


a. almeida

Não sei como vai ser decidido o mediático caso que opõe judicialmente a dupla musical "Anjos" e a humorista Joana Marques, que por estes dias vai entretendo quem vive destas coisas.
Não sou apreciador do estilo musical da dupla dos irmãos Rosado nem da humorista. Em suma, seja qual for o resultado da decisão do tribunal, nem me aquece nem me arrefece, mas não teria qualquer pena se a Joana tivesse que pagar algum do valor reclamado pelos cantores, ainda que simbólico, porque na realidade, mesmo que a dupla se pusesse a jeito, naquele interpretação sui géneris do nosso hino, não há dúvidas que a humorista manipulou a coisa. Também não me custa acreditar que de facto os músicos sofreram com a situação.

Em todo o caso, o que me parece, é que alguns dos humoristas na nossa praça frequentemente brincam com coisas e valores muito sérios para muita gente, com toda a impunidade, em muito pela tolerância dos mesmos mais do que pelas regras judiciais e código penal. Mais do que piadas e humor inteligente e equilibrado, coisa rara, é frequente a boçalidade, a javardice, a ofensa gratuita o desrespeito intrínseco de pessoas e instituições, roçando tantas vezes o inaceitável, debaixo da larga e subjectiva capa da liberdade de expressão. 

Humoristas como a dita Joana Marques, Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, etc, estão no leque de quem acha que vale tudo, mesmo atingir a dignidade pessoal e valores pessoais dos outros. Porque há sempre idiotas a rirem-se, por tudo e por nada, e mesmo do mal dos outros, entende essa gente que tem clientes, palco e legitimidade para serem desrespeitosos, sem quaisquer limites. A velha máxima de que o respeitinho é muito bonito, já não diz nada a esta gente.

Como diz o ditado, "pimenta no cu dos outros é refresco no nosso" e por isso, de cu fresquinho, lá vão brincando os nossos desengraçados humoristas, usando e abusando sem limites, sem linhas vermelhas.

Infelizmente, os tribunais já com défice nos julgamentos de coisas sérias, ao contrário de outros países (veja-se agora no Brasil), tendem a não dar crédito a quem se queixa por tais ofensas. Cheira-me, por isso, que os Anjos foram anjinhos e dali não vão levar nada de jeito e se assim for, ficam mais legitimados os humoristas, com via aberta, na certeza de que a partir daqui valerá mesmo de tudo.

Com isto, quem vier a sentir-se lesado e ofendido neste país com humoristas, procure resolver as coisas de outra forma, talvez mais cara-a-cara.Talvez, das consequências o tribunal os desculpe, porque na defesa da honra.

20.06.25

J. Rentes de Carvalho - Mais uma "honraria", tardia


a. almeida

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É um dos meus autores preferidos, a par de Miguel Torga, e como já escrevi aqui, tive há algum tempo o privilégio de ter estado na sua presença, no seu retiro transmontano, em Estevais, bem como de receber de suas mãos alguns dos seus livros, e tantos que me autografou.

José Rentes de Carvalho, tal como o reconhecimento tardio da sua obra entre nós, recebeu agora o que chama de mais uma "honraria", por parte da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, concedendo-lhe, aos 95 anos e picos, medalha de honra que lhe confere o título de Cidadão Honorário de Vila Nova de Gaia.

De facto, como diz "pertinho do fim". Sendo que pertinho do fim andamos todos nós na roleta da vida, é verdade que a pouco anos do centenário, não deixa de haver alguma ironia nestes reconhecimentos tardios. Diz o povo que "mais vale tarde que nunca", e assim é, e sobretudo com valorização por ainda em vida, mas de algum modo é a sina destinada a muitos e muitas deste país, o reconhecimento atrasado e antes dele até o desconhecimento ou desconsideração.

Não precisava disto o Rentes de Carvalho e até admito que esteja a equacionar da importância de aceitar e se fazer representar, e desde logo pelas limitações que 95 anos emprestam a um homem. Qualquer decisão será boa, porque a sua, mas aceitando a "honraria", faltando ou estando presente, já nada acrescenta ou diminui o seu nome e a sua obra porque já não necessitam de acrescentos e deferências. 

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