Naquele bocado de terra perdida no mapa, onde o tempo passa lentamente e os galos cantam como quem desfia segredos antigos, ergue-se Pateiras — uma aldeia pequena de corpo, mas larga de língua, onde todos se conhecem, poucos se aturam e ninguém perdoa.
Foi ali, entre o repique diário do sino da igreja e o tilintar dos copos na tasca do Felisberto, que o Julião fincou pé, depois de uma vida feita mais de manha que de suor, como ele próprio se gaba. Dizem que anda feliz, e que a vida lhe tem sorrido. Mas a verdade, murmuram as paredes e as velhas nas soleiras, é que ele soube foi onde dar a dentada.
Duplamente reformado, de lá, do Luxemburgo, e de cá, da função pública, de um cargo que, dizem — porventura as más línguas — chulou até ao tutano, goza agora as delícias da velhice, entretido entre netos, criação de coelhos e cultivo de nabos, nabiças e outras hortaliças na sua horta de estimação.
Nascido e criado na freguesia de Carregães, de origens pobretanas, filho de pai incógnito e da Micas da Estrela, deu à costa na aldeia de Pateiras num dia de festa à Senhora do Amparo, e de um namorico morno, insípido mas fecundo, acabou, qual raposa, a assaltar o galinheiro da abastada e rendida casa dos Figueiras, casando com um dos seus "pitos ricos".
Cometeu, porém, a imprudência de se ausentar do galinheiro, ainda morno da segunda galadura, emigrando por uma boa dúzia de anos, pelo que desde cedo tem marrado que baste à custa desta sua "galinha chocadeira", mas isso são outras histórias.
Apesar desta sua boa posição, com chorudas reformas da estranja e do Estado, o Julião viveu quase sempre ao lado da vida, vivências e convivências da aldeia, fugindo como do diabo da Cruz a tudo o que cheirasse a cargos, canseiras e responsabilidades.
Confraria ou comissão de obras ou de festas que lhe batesse à porta, levava a esmola, sempre de tostões, mas não sem ouvir o responso, o pai-nosso e o sermão. Estava sempre na linha da frente do escárnio e maldizer, do bota-abaixo, sempre no seu ar de pimpão, vestido da mais elevada moralidade.
Em suma, era um figurão de Pateiras, mas não passava disso mesmo: um figurão vazio, cheio de nada. Um burro carregado de libras, como o considerava muito do povo da terra.
Não surpreendeu, pois, que, um dia destes, ao balcão da tasca do Felisberto, já com uns copos de tinto Malaquias a transbordar, o Júlio tenha tomado a voz do grupo, em que — por um destes acasos de conversas de café — veio à baila a importância do Julião para a terra, para, com a voz já avinhada, sentenciar:
— O Julião é mas é um grande filho-da-puta! E corno, ainda por cima! Faz cá tanta falta como uma viola num enterro!
Ficaram todos de boca aberta, mudos e calados, num silêncio de arrebatamento e concordância por tão acertada descrição.
O Julião podia ser um figurão, mas o Júlio, esse sim, era um artista que, com uma paleta de coloridos palavrões, dissolvidos a vinho verde, pintava, qual mestre do mais puro realismo, os juliões da aldeia. Para além de verde ou maduro, branco ou tinto, apreciava e comia galinha de capoeiras sem galo, como a do Julião — ao que dizem, à fartazana — que nem canja dada a mulher parida.