10.12.25
Paradoxos - Entre o luxo, a fome
a. almeida
Creio que já o escrevi por aqui, mas volto ao assunto. Reparo que na televisão, particularmente nos canais da Star, os blocos de publicidade são um autêntico massacre. Continuo sem perceber por que razão há tanta publicidade em canais que, afinal, são pagos. Quanto a isso, esperam que comamos e calemos. Eu vou comendo, mas não calo. Na próxima renovação do serviço talvez dispense o pacote e me fique apenas pelos canais em sinal aberto. Talvez.
Mas o que me traz verdadeiramente aqui é o paradoxo que se desenrola nesses blocos publicitários. Entre anúncios a relógios de luxo, perfumes e comida premium para gatos, cujo preço ao quilo ultrapassa o do bife e, seguramente, o do frango, perú ou febras de porco, têm o descaramento de nos mostrar apelos da UNICEF para combater a fome em África. Entre gatos brancos, peludos e tratados como realeza, surgem crianças esqueléticas que precisam de cuidados de saúde básicos e, sobretudo, de comida.
Choca-me esta banalidade. Este contraste brutal que a sociedade consumista já parece aceitar sem pestanejar. Dentro das minhas possibilidades, contribuo regularmente para a UNICEF, porque ainda me inspira confiança, mesmo que não me envie recibos das doações. Mas confesso: este paradoxo fere. Pela contradição entre o supérfluo e o essencial. Pela forma quase ofensiva como convivem, no mesmo intervalo, o luxo e a fome.

