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Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

Diário de quem já não vai para novo

...e sem paciência para seguir o rebanho.

10.12.25

Paradoxos - Entre o luxo, a fome


a. almeida

Creio que já o escrevi por aqui, mas volto ao assunto. Reparo que na televisão, particularmente nos canais da Star, os blocos de publicidade são um autêntico massacre. Continuo sem perceber por que razão há tanta publicidade em canais que, afinal, são pagos. Quanto a isso, esperam que comamos e calemos. Eu vou comendo, mas não calo. Na próxima renovação do serviço talvez dispense o pacote e me fique apenas pelos canais em sinal aberto. Talvez.

Mas o que me traz verdadeiramente aqui é o paradoxo que se desenrola nesses blocos publicitários. Entre anúncios a relógios de luxo, perfumes e comida premium para gatos, cujo preço ao quilo ultrapassa o do bife e, seguramente, o do frango, perú ou febras de porco, têm o descaramento de nos mostrar apelos da UNICEF para combater a fome em África. Entre gatos brancos, peludos e tratados como realeza, surgem crianças esqueléticas que precisam de cuidados de saúde básicos e, sobretudo, de comida.

Choca-me esta banalidade. Este contraste brutal que a sociedade consumista já parece aceitar sem pestanejar. Dentro das minhas possibilidades, contribuo regularmente para a UNICEF, porque ainda me inspira confiança, mesmo que não me envie recibos das doações. Mas confesso: este paradoxo fere. Pela contradição entre o supérfluo e o essencial. Pela forma quase ofensiva como convivem, no mesmo intervalo, o luxo e a fome. 

07.12.25

De que se queixam os do costume?


a. almeida

A propósito da greve geral, pensada há meses e já marcada para o próximo dia 11, caso se concretize, parece-me que o Governo não deveria recuar uma vírgula na sua proposta de lei laboral. É uma greve puramente com propósitos políticos e ideológicos, sem razões de fundo. A economia cresce, o desemprego baixa, até dizem que precisamos de emigrantes por falta de gente para trabalhar. Afinal de que se queixam os do costume?

Por outro lado, o Governo deveria dar tolerância de ponte a todos, excepto aos grevistas e seus mandantes.

04.12.25

Todos iguais? Só nas letras pequeninas


a. almeida

Os problemas ou dificuldades dos portugueses, nos acessos aos serviços de saúde do SNS, é não serem figuras importantes, nem políticos, nem deputados nem presidentes da República. Fossem e nada lhes faltaria, a tempo e a horas e com os miminhos que toda a Comunicação Social lhes devota, como figuras gradas. Ainda com tempo de antena, opiniões de gente comum e especialistas em tudo quanto seja área médica, seja em hérnias, ossos partidos, narizes entupidos, furúnculos, gases, nós nas tripas, etc.

Não sei se a figura pública que ocupa sem pagar renda o palácio de Belém, teve que recorrer ao Saúde 24, se foi logo atendida, se foi sujeita às esperas, pulseira de cor, enfim, aos mesmos procedimentos que são dados a qualquer utente do SNS. A ministra, disse que sim, mas, cá para nós, todos achamos que foi diferente, muito diferente. Creio, até, que não teve de mijar para a botija mas antes direito a casa de banho privada. É apenas um pressentimento.

Fosse eu presidente da República, o exame para um problema importante, que aguardo há um ano, e que já foi marcado e desmarcado por 3 vezes, certamente seria dado como urgente e logo despachado. Mas remeto-me à minha insignificância de Zé Ninguém.

Em resumo, somos todos iguais, mas só nas letras pequeninas da constituição. Não que o saibamos, mas não nos façam de lorpas quando nos dizem que sim, que somos.

02.12.25

O estado dos golpes de estado


a. almeida

De tentativas e consumados golpes de Estado na Guiné Bissau, já lhes perdi a conta. Deles, resulta a percepção de que esta gente, a importante e com cargos de algum poder e influência, não fazem mais nada na vida senão isso,  tal é avidez de poder pela via militar, na defesa, não do pobre povo, mas deles próprios e dos seus negócios criminosos.

Resulta daqui que esta ex-colónia portuguesa continua a não passar de um país pobre que teima em não encontrar estabilidade e progresso. 

Muito por estas situações, a juntar à desorganização administrativa, disfuncionalidade das instituições, corrupção ao mais alto nível, ainda há líderes que têm a lata de pretender assacar esta situação ao colonialismo português, como se meio século de independência não fosse suficiente para encarrilar no progresso. 

Com todos os defeitos do colonialismo, desde logo por ele próprio, antes das independências e das guerras civis que se seguiram, Portugal deixou as ex-colónias relativamente bem organizadas e dotadass de boas infra-estruturas, tendo em conta a dimensão dos territórios e da própria capacidade da potência colonizadora, que também não era muita. Mas tudo, muito ou pouco, foi destruído.

Assim sendo, estas ex-colónias vão andado neste jogo do sub-desenvolvimento sistémico, não se culpando a elas próprias, pelas suas incapacidades e todos os defeitos de sistemas altamente corruptos, preferindo remeter para o distante colonialismo essa factura de atraso.

É o que temos e, como diz alguém, que se fodam, que se governem como muito bem entenderem. Não venham é com desculpas, já fora de tempo e contexto, a assacar responsabilidades na cara de quem nos representa frouxamente.

Daqui a mais 50 anos, quem ficar por cá perceberá que pouco terá mudado, porque esta gente que gira à volta do poder, não sabe nem quer fazer outra coisa que não seja apenas para benefício deles próprios. 

O prazo para o próximo golpe já está a contar. Tic-tac, tic, tac.

01.12.25

O exercício da mentira


a. almeida

"Afirmavam e provavam os oponentes que, como primeiro-ministro, o senhor Sócrates descaradamente mentia. Afirmam e provam agora os seus seguidores que o senhor Passos Coelho descaradamente mentia.

Cidadão sem partido, sem tacho, amizades ou dependências políticas, livre que nem andorinha, pergunto-me que proveito move as senhoras e senhores que tanta energia e palavras gastam no fingimento de que protestam contra a mentira, e sinceramente querem endireitar o torto. Será mau hábito que têm? Achaque que lhes dá? Sendo apenas figurantes e vassalos, imaginam-se actores de primeira?

De qualquer modo o espectáculo é deprimente, menos pela fantochada do que pelo que põe à mostra de sabujice. E mal, muito mal, vai à vida política da nação, quando o debate público ganha o tom das rixas de taberna".

[J.Rentes de Carvalho]